SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) – O iminente colapso da geleira Thwaites, a chamada “Geleira do Juízo Final”, poderia elevar o nível global do mar a resultados catastróficos. No entanto, cientistas propuseram uma solução radical para retardar o degelo: uma gigantesca ‘cortina’ submersa que bloquearia o avanço de correntes marítimas quentes, permitindo apenas a passagem da água fria superficial.

Conhecida como “Geleira do Juízo Final” ou “Geleira do Apocalipse”, a Thwaites é uma das maiores e mais instáveis geleiras do planeta. Localizada na Antártida Ocidental, ela tem aproximadamente o tamanho do estado do Paraná e concentra uma das maiores e mais dinâmicas massas de gelo do mundo.

Com gelo que chega a 2.000 metros de espessura em alguns pontos, o colapso da geleira poderia elevar o nível global do mar em cerca de 65 cm. Isso seria suficiente para inundar cidades costeiras e colocar milhões de pessoas em risco.

O gelo dessa região atua como uma barreira para o restante do manto de gelo da Antártida Ocidental. Se essa barreira for perdida, o derretimento de outras áreas pode se acelerar de forma significativa, ampliando os riscos em longo prazo.

Para evitar um derretimento global, cientistas do Seabed Curtain Project (Projeto Cortina Submarina) acreditam ser necessário atacar a fonte do degelo: a água quente que infiltra a fenda entre a geleira e a plataforma continental devido às mudanças climáticas.

A cortina flexível proposta seria ancorada no fundo do oceano a cerca de 650 metros de profundidade. Ainda sem material definido, ela se estenderia por uma porção chave do leito marinho à frente da geleira, bloqueando as correntes oceânicas quentes como um campo de força que preserva o gelo.

A ideia divide cientistas. “Para mim, é meio óbvio”, disse Marianne Hagen, co-líder do Seabed Curtain Project, que desenvolveu essa solução improvável, ao IFLScience. Segundo ela, apesar dos custos elevados, não há “desculpa para não tentar”.

Muitos na comunidade científica ainda discordam veementemente da proposta. Em um artigo publicado em 2025, o glaciólogo polar da Universidade de Exeter, Martin Siegert, e 41 coautores, explicaram como o projeto da cortina e outras propostas de geoengenharia polar seriam caros, tecnicamente impossíveis e potencialmente danosos a ecossistemas frágeis

PROJETO PODE CUSTAR ATÉ R% 418 BILHÕES

O preço para implementar a barreira vai de US$ 40 a 80 bilhões (R$ 418 bilhões), segundo o The Atlantic. No entanto, Hagen acredita que o preço será muito maior se não houver ação.

“Se você comparar [os custos do projeto] com os custos de reparo costeiro e danos, é uma fração. O custo desse projeto será na casa dos bilhões. O custo dos danos será na casa dos trilhões”, disse Marianne Hagen, co-líder do Seabed Curtain Project.

ANTES DO AMBICIOSO PLANO, UM TESTE

Um teste de menor proporção está nos planos para ver se a ideia, de fato, funciona. A Universidade Ártica da Noruega, parceira do Seabed Curtain Project, fará um experimento instalando uma cortina menor no fundo do mar em um fiorde norueguês para ver se é possível replicar o experimento na Antártica.

“Seria absolutamente insano, do ponto de vista econômico, ir direto para Thwaites e começar a construir algo. Precisamos testar isso a um custo muito menor, em condições menos extremas”, disse Marianne Hagen, ex-vice-ministra de Relações Exteriores da Noruega.