VISHAKHAPATNAM, ÍNDIA (FOLHAPRESS) – A Índia promove nesta semana exercícios e demonstrações públicas de suas forças navais em divulgação de seu poderio militar que reflete suas ambições bélicas nos mares e também seus objetivos diplomáticos.
O IFR (International Fleet Review), a passagem em revista da frota indiana com outras marinhas convidadas, expôs corvetas, fragatas, embarcações de apoio de diversas dimensões e os dois porta-aviões em atividade do país, entre eles a pérola da marinha do país, o INS Vikrant.
O evento militar, na cidade de Visakhapatnam, sede do Comando Naval do Leste, ocorreu paralelamente à cúpula de inteligência artificial e encontro bilateral entre o premiê Narendra Modi e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em Nova Déli.
A Folha de S. Paulo participou de uma delegação de jornalistas que pôde observar o exercício militar nesta quarta-feira (terça no Brasil) e que visitou o porta-aviões, nesta quinta-feira, nas águas da cidade costeira no estado de Andhra Pradesh, no leste do país.
O Vikrant -algo como vitorioso, em sânscrito- é significativo não apenas pela força naval que impõe, mas também pelo fato de que sua construção foi nacional, reflexo dos planos do premiê Narendra Modi para as Forças Armadas e a economia do país.
O navio de guerra é um primeiro símbolo em termos navais do plano India 2047 de Modi, cujo objetivo é transformar o país no ano em que a Índia completará cem anos de independência, com foco no crescimento do PIB e na erradicação da pobreza. “A iniciativa dá forte ênfase na construção de uma nação autossuficiente com uma economia próspera e robusta”, afirma o plano.
Daí a relevância do porta-aviões, um trunfo da indústria naval nacional. Com sistema de lançamento STOBAR (com rampa), são 262,5 metros de comprimento e capacidade para operar 34 aeronaves, entre os jatos russos MiG-29K e helicópteros. A embarcação atinge 60 km/h e tem autonomia para 7.500 milhas náuticas, o que representa aproximadamente a distância da Índia ao Brasil.
O Vikrant liderou nas águas da baía de Bengala o exercício naval, que contou com cerca de 50 embarcações indianas e com navios de mais de 70 nações participantes -nem todas enviaram embarcações, caso do Brasil; o país foi representado nos eventos em torno do exercício pelo Comandante de Operações Navais da Marinha, o almirante Eduardo Machado Vazquez.
Os países convidados simbolizam ainda os valores da diplomacia indiana, que tem uma política tradicional de não alinhamento a polos em disputa. Juntaram-se aos navios indianos as fragatas russa Marechal Chapochnikov, iraniana Dena e australiana Warramunga, além da aeronave francesa de patrulha Atlantique 2 -o destróier dos Estados Unidos USS Pinckney estava previsto, mas teve a participação cancelada.
Em vez do exercício indiano, o destino provável do navio americano, que passou por manutenção recente em Singapura, é o mar da Arábia, para onde o governo de Donald Trump já deslocou porta-aviões para antecipada ação contra o Irã.
Apesar do cancelamento da participação americana, o convite de Nova Déli aos dois rivais evidencia como os indianos buscam exercer no âmbito naval uma diplomacia que busca amplo alcance.
Opera de modo semelhante a participação de várias nações asiáticas vizinhas e de menor envergadura, como Bangladesh, Malásia, Vietnã e Tailândia, parte da tentativa da Índia de se posicionar com interlocutor preferencial na região -muito influenciada, sem surpresas, pela China.
“Quando os mares globais estão agitados, o mundo procura por um farol firme. A Índia está bem posicionada para fazer esse papel com força e estabilidade”, afirmou Modi em um evento com lideranças navais, em 2025, deixando clara a ambição da diplomacia e dos investimentos navais recentes.
A China, assim como o Paquistão, eram as ausências mais óbvias e prováveis destinatários da mensagem que a Índia passa ao realizar o amplo exercício naval, dadas as relações tensas de Nova Déli com os dois países, o que inclui disputas territoriais e feridas abertas nas fronteiras, além de um histórico de conflitos.
No caso de Karachi, esse histórico se estende praticamente desde a divisão da antiga colônia britânica nos dois países e se mantém tão recente quanto os dias de tensão em maio do ano passado que levaram a bombardeios e mortes na fronteira.



