BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) – Fora dos cinemas, Berlim continua sob o impacto da polêmica em torno do discurso político e da alegada censura da direção da Berlinale em relação ao conflito na Faixa de Gaza.
No começo desta semana, “A Voz de Hind Rajab”, longa da cineasta tunisiana Kaouther Ben Hania, indicado ao Oscar deste ano, foi premiado como “filme mais valioso” no Gala Cinema for Peace, evento que ocorre em paralelo ao festival.
Ao ser chamada ao palco durante a cerimônia, realizada no hotel Adlon, ao lado do Portão de Brandemburgo, Kaouther explicou em discurso que não aceitaria a láurea. “Recuso-me a permitir que suas mortes se tornem pano de fundo para um discurso educado sobre a paz; não enquanto as estruturas que as possibilitaram permanecerem intactas”, declarou a diretora, em referência ao objeto de seu próprio filme.
Hind Rajab é uma menina palestina de cinco anos que ligou para uma equipe de emergência da Cruz Vermelha Crescente Vermelho pedindo ajuda durante a invasão israelense em Gaza, em 2024. Kaouther conta a história usando como fio condutor a gravação original da voz da garota, que acabou morrendo no ataque do IDF, as Forças de Defesa de Israel.
“Portanto, nesta noite, não levarei este prêmio para casa. Deixarei-o aqui como um lembrete. E quando a paz for buscada como uma obrigação legal e moral, enraizada na responsabilidade pelo genocídio, então voltarei e o aceitarei com alegria.”
Apresentado por Bob Geldof, idealizador do Live Aid há 40 anos, e contando com personalidades como Hillary Clinton na plateia, o Gala Cinema for Peace também homenageava Noam Tibon, ex-general israelense, protagonista do documentário canadense “The Road Between Us”. O filme relata o resgate de sua família sequestrada pelo Hamas após o ataque do grupo terrorista de 7 de outubro de 2023.
“O que aconteceu com Hind não é uma exceção. É parte de um genocídio. E, hoje à noite, em Berlim, há pessoas que deram cobertura política a esse genocídio, reinterpretando o assassinato em massa de civis como autodefesa. Como circunstâncias complexas. Denegrindo aqueles que protestam”, disse Kaouther.
O episódio se soma à carta de 81 profissionais do cinema mundial que estão ou já participaram do Festival de Berlim pedindo que o evento se posicione em relação ao conflito em Gaza. A Berlinale já foi vocal em relação à situação no Irã e na Ucrânia, mas desde 2024 se equilibra entre acusações de antissemitismo e falta de assertividade.
Na abertura do festival, o cineasta Wim Wenders, que preside o júri da competição oficial neste ano, afirmou que o cinema deveria ser “o oposto da política”. Dias depois, o festival tentou defender artistas que preferiram não se posicionar sobre a disputa.
Diretores brasileiros como Karim Aïnouz, Fernando Meirelles, Kleber Mendonça Filho e Eliza Capai estranharam a atitude do cineasta alemão e reafirmaram que é impossível separar o cinema da política.



