BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) – Ann Lee, líder cristã de um grupo de missionários de Manchester, atravessou o Atlântico no século 18 em busca da liberdade religiosa na América. Assentada perto de Albany, pregou a igualdade de gênero, o pacifismo, a sustentabilidade e o apoio social, conceitos inusitados para a época. Estabeleceu preceitos de design e arquitetura, com um perfeccionismo de quem busca se aproximar de Deus. Sofreu perseguição e violência. Morreu aos 48 anos.
Uma Igreja tão peculiar, capitaneada por uma mulher, em que o êxtase é alcançado pela dança e pela música, parecia então intolerável. A pergunta é se seria muito diferente agora.
Essa é a história. E aí tem o filme. “O Testamento de Ann Lee”, apresentado fora de competição na Berlinale, nesta quinta-feira (19), poderia ser descrito como um musical, mas é antes de tudo uma espécie de catarse de duas horas e meia sobre uma mulher extraordinária e sua rígida filosofia de vida, que previa o celibato em qualquer circunstância.
Os “shakers”, que chegaram a compor um grupo de 6.000 seguidores, são apenas 3 hoje em dia. O nome pelo qual ficaram conhecidos veio da dança, marca dos cultos exercidos em salões e na floresta com uma coreografia muito particular. É tão diferente que no começo da história parece uma liberdade poética da diretora norueguesa Mona Fastvold.
Indicada ao Oscar pelo roteiro de “O Brutalista”, escrito com o companheiro e diretor Brady Corbet, parceria repetida agora, Fastvold declarou ter ficado fascinada com o caráter feminista de uma personagem remota. Amanda Seyfried encarna, e o uso do verbo aqui parece apropriado, Ann Lee ou Mother Ann Lee, como ela é chamada na maior parte do tempo ela era a mãe de todos, a segunda encarnação de Cristo na Terra.
Garota pobre cujo destino seria parecido com o de outras mulheres de sua geração, ser uma máquina de parir filhos, Ann Lee perde os quatro que tenta dar à luz. Sua atuação como líder religiosa já crescia e incomodava a Igreja tradicional. Após ser presa por invadir uma missa, tem uma visão na prisão sobre Adão e Eva e o pecado original. A partir deste momento, diz a seus seguidores, o único caminho para chegar a Deus é se privar de sexo.
Concorre para a repulsa, ou ao menos isso é sugerido no filme, o comportamento abusivo do marido, que chega a acompanhá-la para a então colônia britânica na América do Norte. Os revolucionários locais prometiam liberdade religiosa para atrair assentamentos, mas Ann Lee só embarcou para lá com seu pequeno grupo de seguidores após uma nova visão.
Seyfried vai se transformando junto com seu personagem. Sua seita, e aqui o termo também cabe, cresce ao seu redor, assim como a convicção em torno de suas instruções, mais do que inusitadas para a época. Ela xinga comerciantes de escravos, recusa a adesão a disputas políticas e guerras, festeja a perfeição de móveis e edificações.
Brutalmente atacada onde esperava aceitação, Ann Lee pede para que ninguém reaja às agressões. A terra de liberdade prometida ainda não estava pronta para ela.
Colunista do jornal The New York Times, David French afirmou que saiu do cinema nos EUA, onde o filme já está em cartaz, com lágrimas nos olhos. Em artigo publicado no começo deste mês escreveu: “Em 250 anos, a liberdade americana se expandiu. Somos uma nação melhor e mais decente do que aquela que Lee encontrou. Mas, ao vermos a brutalidade e a violência do Estado se espalharem pelas nossas ruas, sabemos que ainda não estamos cumprindo a promessa da declaração [de independência]”.
Ainda que a retomada da intolerância nos EUA se encaixe na história, o maior mérito de “O Testamento de Ann Lee” é o retrato empático que faz da convicção dos “shakers” e de sua utopia. Não é uma discussão sobre fé, mas de aceitação.



