BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) – Não vai ser uma tarefa simples, e a figura escolhida é menos do que ideal. Com José Balcázar, político de 83 anos com histórico de corrupção e de defesa de teses como o casamento infantil, a esquerda volta ao poder no Peru.

Terá o desafio de conduzir o país até as eleições, que acontecem em menos de dois meses, negociar com um Congresso cada vez mais poderoso e lidar com a sombra do ex-presidente Pedro Castillo. Balcázar foi selecionado pelo Parlamento e assume automaticamente a Presidência do país de forma interina, depois que os congressistas derrubaram o antecessor, José Jerí.

Professor e advogado de 83 anos, ele venceu no segundo turno da votação a centro-direitista Maricarmen Alva, recebendo 60 votos dos parlamentares ante 46 de sua oponente, tornando-se o nono presidente do Peru desde 2016.

Ele foi eleito como representante do partido Peru Livre, que elegeu Pedro Castillo em 2021. O ex-presidente perdeu o poder e foi condenado em 2025 por autogolpe —ele tentou dissolver o Congresso em 2022, sem sucesso.

Uma dúvida agora é se Balcázar tentará indultar Castillo, como defendem políticos do Peru Livre. “Nenhum perdão está na pauta. O que sei é que o ex-presidente tem um processo criminal e que deve seguir seu curso correspondente”, garantiu ele à imprensa.

A imprensa peruana também especula sobre o grau de influência que o líder do partido, Vladimir Cerrón, terá no novo governo. Barcázar afirma que buscará o consenso e que não tem nada contra a príncipal líder da oposição, Keiko Fujimori, da Força Popular.

“É um dia muito triste para o país. Permitiram que a esquerda radical governasse novamente. Todos sabemos quem são os irresponsáveis que nos levaram ao caos. Nunca deveriam ter aberto essa porta”, escreveu Keiko, filha do ditador Alberto Fujimori, no X.

Balcázar entrou no Congresso em 2021 como representante da província de Lambayeque, com mandato até 2026. Nascido em Cajamarca, formou-se na Universidade Nacional Pedro Ruíz Gallo. No Parlamento, atuou na comissão que elegeu novos magistrados do Tribunal Constitucional e é vice-presidente da Comissão de Justiça. Chegou a deixar o partido de Castillo para formar o Bicentenário do Peru com outros congressistas, mas depois retornou à sigla.

Ainda como parlamentar, ele se envolveu em uma polêmica em 2023, ao defender o casamento infantil quando a proibição dessa prática era debatida na Comissão de Justiça e Direitos Humanos do Congresso. “Hoje em dia as pessoas não se casam, são todas uniões de fato. Desde os 14 anos, as meninas já estão grávidas. Com a lei que queremos, o que vamos fazer? Proibir aquelas pessoas que engravidam ainda menores?”, questionou.

Ele depois tentou justificar sua posição, insistindo que pessoas com mais de 14 anos podem fazer contratos e enfatizou que as críticas contra ele tinham como objetivo desqualificá-lo.

Balcázar também foi juiz e membro provisório da Suprema Corte de Justiça do país, mas sua carreira no Judiciário foi manchada por um suposto desvio de recursos, ainda investigado, de uma associação de magistrados, a Ordem dos Advogados de Lambayeque, que foi contra a sua candidatura à Presidência.

O novo governo começa com o desafio de garantir as eleições gerais, em 12 de abril, e a transição até 28 de julho, com um histórico desfavorável: dos últimos 7 presidentes, 4 foram destituídos, e 2 renunciaram antes de serem afastados.

O partido de Balcázar hoje tem 11 de 130 representantes no Congresso. Para vencer Maricarmen, ele precisou negociar com diferentes correntes políticas, inclusive com parlamentares que meses antes sustentavam o mandato de Jerí.

Em seu discurso de posse na madrugada desta quinta-feira (19), o novo presidente dos peruanos afirmou que sua gestão garantirá eleições transparentes e assegurou que priorizará a luta contra a insegurança.

“Antes de tudo, [vamos] garantir que haverá uma transição democrática, pacífica e transparente, que não haja dúvidas nas eleições; segundo, uma pacificação. […] Precisamos pacificar este país, é uma questão de começar a trabalhar”, disse ele.

Além disso, garantiu que manterá uma linha econômica estável e que “não se pode conduzir o país através de provações”. “Não vamos dar saltos no vazio”, acrescentou.

A rápida destituição de José Jerí no dia anterior acende um alerta sobre a dificuldade que os presidentes têm para manter apoio no Legislativo, e a facilidade com que o Congresso peruano pode destituir os chefes do Executivo.

A Constituição de 1990 permite ao Congresso declarar a vacância da Presidência por “incapacidade moral”, e a tendência é que os atores políticos utilizem esse mecanismo como forma de pressão e uma moeda de troca contra os ocupantes da Casa de Pizarro, sede do Executivo peruano.

A dificuldade reside no fato de que “incapacidade moral” é um conceito vago, baseado na opinião de legisladores.

A última década de instabilidade também enfraqueceu e fragmentou o conjunto de partidos políticos no país, facilitando a troca de cargos e permitindo que a destituição do presidente seja usada como ameaça.

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RELEMBRE OS PRESIDENTES DO PERU DESDE 2016

Ollanta Humala

(jul.11-jul.16) Último líder peruano a concluir o mandato

Pedro Pablo Kuczynski

(jul.16-mar.18) Eleito em 2016, renunciou antes de ser destituído por denúncias de corrupção

Martín Vizcarra

(mar.18-nov.20) Foi vice de PPK, destituído pelo Congresso por denúncias de corrupção

Manuel Merino

(10.nov.20-15.nov.20) Era presidente do Congresso, renunciou por falta de apoio

Francisco Sagasti

(nov.20-jul.21) Presidia o Congresso, assumiu para completar mandato

Pedro Castillo

(jul.21-dez.22) Eleito em 2021, foi destituído ao tentar um autogolpe

Dina Boluarte

(dez.22-out.25) Foi vice de Castillo, deposta pelo Congresso por ‘incapacidade moral

José Jeri

(out.25-fev.26) Presidia o Congresso, foi deposto por ‘má conduta’

José Balcázar

(desde 18.fev.26) Escolhido pelo Congresso para completar mandato até julho