RECIFE, PE (FOLHAPRESS) – A corretora de imóveis Daiane Alves dos Santos, 43, foi morta com dois disparos de arma de fogo após sofrer uma emboscada no subsolo do prédio em que morava, segundo a Polícia Civil. De acordo com a investigação, vídeos gravados pela própria vítima ajudaram a estabelecer a dinâmica do crime, que tem como único suspeito o síndico Cléber Rosa de Oliveira.

O celular da vítima foi descartado pelo síndico em uma caixa de esgoto, onde foi encontrado após 41 dias. A corretora havia enviado dois vídeos e estava gravando um terceiro quando sofreu a emboscada premeditada, segundo o inquérito.

Oliveira será indiciado por homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver.

As imagens divulgadas em entrevista coletiva na manhã desta quinta-feira (19) mostram o trajeto da corretora até o momento em que ela é atacada e o vídeo é interrompido. O próprio síndico teria desligado o quadro de energia do imóvel para que ela descesse, aponta a polícia.

“Desde o início, Cléber aguardava Daiane no subsolo. Ele já estava com a luva nas mãos, o carro posicionado com a capota aberta ao lado. Ele então a intercepta encapuzado. O detalhe do vídeo vai ser mostrado depois. Então traduz-se, de fato, que o crime foi premeditado, com a emboscada deliberada”, disse o delegado André Luiz Barbosa.

A dinâmica indica que ele a agrediu com um objeto contundente no condomínio e que os disparos foram feitos na região de mata onde o corpo teria sido encontrado. Inicialmente, o síndico teria dito que o tiro aconteceu de forma acidental após uma discussão e luta corporal no subsolo, mas as investigações apontaram o contrário.

Segundo a perícia, a arma utilizada foi uma pistola .380 semiautomática. Uma das balas ficou alojada, enquanto a outra saiu pelo olho esquerdo da vítima.

O atestado de óbito da corretora de imóveis Daiane Alves dos Santos, 43, aponta que ela morreu em decorrência do tiro na cabeça. Segundo documento ao qual a Folha teve acesso, o disparo causou traumatismo cranioencefálico.

A vítima estava desaparecida havia 40 dias e seus restos mortais foram localizados em 28 de janeiro, em avançado estado de decomposição, o que fez com que a única matriz disponível para a extração de DNA fossem os dentes.

O síndico Cléber Rosa de Oliveira foi preso sob suspeita de matar a corretora, enquanto o filho dele, Maicon Douglas de Oliveira, foi preso suspeito de ter atrapalhado as investigações. Maicon, no entanto, teve a participação no crime descartada e será solto, segundo a polícia.

Felipe de Alencar, advogado do síndico, confirmou que Cléber confessou à polícia ter usado uma arma para matar a corretora. Ele disse ainda que a defesa não teve acesso aos documentos, especialmente o relatório final da Polícia Civil, e se manifestará somente quando analisar o conteúdo.

A defesa de Maicon Douglas, composta pelos advogados Luiz Fernando Izidoro Monteiro e Silva e Daniel Gonçalves Santos Lima, disse que a prisão temporária foi uma “medida extrema pautada em um suposto e infundado envolvimento nos fatos” e que foi apresentado um “acervo probatório irrefutável, o qual atestou, de maneira inequívoca e cabal, que Maicon não teve qualquer espécie de participação no fatídico evento, seja em atos preparatórios, na execução ou de forma superveniente”.

“Esse desfecho de arquivamento das suspeitas em relação ao nosso constituinte, embora fosse a única resposta juridicamente aceitável e já esperada por esta defesa, impõe à sociedade uma reflexão inadiável. O Estado Democrático de Direito não tolera pré-julgamentos, tampouco execração pública promovida pelos ‘tribunais da internet’. O princípio constitucional da presunção de inocência deve ser a regra, e não a exceção”, afirmou.

Segundo a polícia, o principal motivo para o crime teriam sido desavenças entre a vítima e o síndico, que começaram quando a corretora se mudou para o edifício e passou a administrar os seis apartamentos que pertencem à família dela e que antes eram geridos pelo suspeito.

A última imagem de Daiane dentro do elevador foi registrada às 19h do dia 17 de dezembro, quando ela se dirigiu ao subsolo para verificar a interrupção de energia em seu apartamento. Às 19h08, outra moradora também usou o elevador para ir ao mesmo andar, mas relatou não ter visto nada de incomum.

Inicialmente, acreditou-se que ela teria sido morta nesse intervalo de oito minutos. No decorrer das investigações, a perícia fez disparos no subsolo para verificar se o barulho seria ouvido na portaria, o que se comprovou. Além disso, foi encontrado pouco sangue, contrariando novamente o que se esperava de disparo na cabeça. Por isso, a corretora teria sido morta em outro lugar.

Daiane teria se dirigido ao subsolo para acessar o quadro de energia do edifício, após perceber que apenas o apartamento dela estava sem luz. Ela desceu o elevador com o celular na mão e filmando a situação. Ela registra a presença do síndico no espaço. Ele passa de costas, caminhando, enquanto ela vai em direção aos quadros de energia. O vídeo é interrompido pouco tempo depois de um grito de Daiane.