SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O Reino Unido está bloqueando o uso de duas importantes bases aéreas para um eventual ataque ao Irã, provocando queixas públicas de Donald Trump contra o primeiro-ministro Keir Starmer.
Segundo publicou nesta quinta-feira (19) o jornal britânico Times, a decisão de Londres decorre do temor de que haja contestações internacionais à legalidade de um conflito provocado pelo americano sem o apoio do Conselho de Segurança da ONU, do qual ambos os países são membros permanentes.
Pode ser, embora em 2003 os britânicos tenham ido à guerra com os Estados Unidos contra o Iraque sem nenhum mandato internacional. A resposta também pode estar numa rixa entre Trump e Starmer acerca da principal base em questão, Diego Garcia, no oceano Índico.
O presidente americano se queixa periodicamente da devolução do arquipélago de Chagos, onde a base fica, para a as ilhas Maurício, apesar de que os direitos de operação militar no local permaneçam em mãos britânicas controle que, pela parceria histórica e na aliança Otan, sempre implicou livre trânsito para os EUA.
Na quarta (18), Trump voltou ao tema na sua rede Truth Social e foi mais assertivo na condenação à devolução. Disse que, se o Irã não aceitar um acordo sobre seu programa nuclear, “pode precisar de Diego Garcia”, adicionando à lista a base de Fairford, que fica em Gloucestershire (Inglaterra).
Com efeito, a mobilização de poderio aéreo pelo republicano para pressionar Teerã, a maior desde a mesma invasão do Iraque, não envolve essas duas unidades militares. Delas são operados, normalmente, bombardeiros estratégicos B-2, B-52 ou B-1B.
Outras bases britânicas, como Lakenheath e Mildenhall, estão servindo de ponto de trânsito de aeronaves dos EUA para pontos no Oriente Médio desde o começo de janeiro, normalmente, o que reforça o estranhamento acerca da posição de Starmer.
No ano passado, Diego Garcia foi central na campanha de pressão sobre o Irã antes do ataque promovido pelos EUA contra instalações nucleares do país persa, em junho. Ao menos seis bombardeiros furtivos ao radar B-2 foram posicionados ali.
Apesar da situação incômoda do ponto de vista político, o veto não tem impacto decisivo sobre qualquer ação militar dos EUA, que só nesta semana enviaram mais de 120 aviões de combate e apoio ao Oriente Médio, dobrando sua frota especificamente usada para ataques na região.
No bombardeio de junho, os B-2 voaram diretamente de sua base nos EUA para o Irã, sendo reabastecidos no caminho e ganhando escolta pesada de caças de quinta geração F-22 e F-35, também mais difíceis de detectar.
A operação, do ponto de vista de entrega das cargas bélicas, foi um sucesso embora não tenha acabado com o programa nuclear iraniano, como Trump propagandeou à época. Tanto não foi assim que a atual campanha em formação e negociações indiretas visam justamente isso, do ponto de vista nominal.
Além desse valor de face, o que parece estar em jogo com os ativos mobilizados pelos EUA é a derrubada do regime islâmico que governa o Irã desde 1979, de forma francamente hostil aos interesses americanos e do maior aliado de Washington na região, Israel.
No ano passado, a guerra de 12 dias do Estado judeu contra a teocracia, encerrada após a intervenção americana, degradou as capacidades iranianas, mas o regime seguiu firme.
Por evidente, Trump não dá nenhum sinal de querer invadir o Irã por terra, uma proposição custosa e provavelmente fadada a mais um atoleiro militar que causa ojeriza à sua base de apoio.
Ao enviar dezenas de caças e aeronaves de ataque, e um segundo grupo de porta-aviões ao Oriente Médio, liderado pelo USS Gerald R. Ford e que deve chegar nos próximos dias, ele sinaliza uma decapitação de governo.
Para ter sucesso, contudo, os EUA precisam não só matar a cúpula de um país com assento regular na ONU, no Brics e outros fóruns. Será necessário destruir ao máximo as capacidades da Guarda Revolucionária, a unidade pretoriana de defesa do regime e mais poderoso ente militar da teocracia.
Isso pode ser feito pelo ar, mas deixa dúvidas diversas em solo, particularmente sobre o eventual vácuo de poder. Uma ditadura militar com elementos da Guarda ou uma guerra civil não são descartadas, para não falar nas inevitáveis baixas civis entre a população que protestou contra os aiatolás e que Trump prometeu ajudar.
Há também a questão da retaliação. Em 2025, Israel foi eficaz em controlar os céus até Teerã, e talvez 90% dos quase 600 mísseis balísticos lançados contra si foram abatidos. Mas os que evadiram as defesas causaram mortes e estragos, além de exaurir estoques de munição antiaérea.
O Estado judeu já está em alerta e provavelmente participará de uma eventual guerra, de todo modo.
Outro foco é o mercado de petróleo, que os aliados árabes dos EUA no Golfo Pérsico temem ver em convulsão se uma guerra afetar o trânsito no estreito de Hormuz, por onde passa um quinto da produção mundial.
Não por acaso, os iranianos estão fazendo manobras e lançamentos de mísseis na região nesta semana, além de já terem recebido navios russos para exercícios conjuntos embarcações chinesas estão sendo esperadas também, para passar uma mensagem de apoio político que, pela mera presença dos aliados, obrigará a revisão de qualquer ataque enquanto eles lá estiverem.



