SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) – O homem suspeito de arrastar a ex-namorada com um carro por cerca de 400 metros na cidade de Morro do Pilar, em Minas Gerais, repetiu o roteiro de brutalidade do caso da jovem Tainara Souza Santos, que morreu após ter sido atropelada e arrastada por Douglas Alves da Silva, 26, em novembro em São Paulo. Ao UOL, advogadas afirmam que episódios como esses expõem uma escalada inédita de violência contra as mulheres no país.
CASOS REPETEM ROTEIRO
Agressores usaram o atropelamento para atingir vítimas tanto no caso de Tainara quando na tentativa de feminicídio em Minas. Procurado pela polícia, o suspeito de atropelar e arrastar a ex em Morro do Pilar abordou a jovem com o atual namorado no veículo do casal e uma briga teria começado. Para evitar conflitos, segundo o delegado do caso David Nascimento, a mulher se aproximou da janela do veículo do ex-namorado quando ele arrancou bruscamente com o carro e a arrastou por alguns metros.
Tainara e a jovem de Minas estavam com seus companheiros atuais quando foram atropeladas e arrastadas. Douglas Alves da Silva, 26, atropelou Tainara na saída de um bar em São Paulo. Imagens registraram o momento em que ela foi arrastada pela rua Manguari até a avenida Morvan Dias de Figueiredo, a Marginal Tietê. No caso de Minas Gerais, a mulher foi arrastada por cerca de 400 metros pelas ruas do município. “É um método covarde que demonstra que o agressor não sabe lidar com a rejeição”, diz a promotora de Justiça, Fabiana Dal’Mas, que atua no Gevid (Grupo de Atuação Especial de Enfrentamento à Violência Doméstica) do Ministério Público de São Paulo.
Agressores fugiram dos locais após o atropelamento. Douglas atropelou e arrastou Tainara por volta das 6h da manhã de um sábado, depois que ela havia deixado um bar no Parque Novo Mundo, na zona norte de São Paulo. Ela havia passado a noite em uma festa com amigos. Após o atropelamento, ele fugiu, mas foi preso na noite do domingo. O homem que atropelou a jovem em Minas é procurado pela polícia desde o domingo (15/2), quando imagens de câmeras de segurança registraram o atropelamento.
Feminicídio e tentativa de feminicídio têm como objetivo final o controle do corpo feminino. No caso de Tainara, a classificação do crime mudou no decorrer dos fatos. No dia 7 de dezembro, o MP-SP apresentou denúncia, que foi aceita pela Justiça. Com isso, Douglas passou à condição de réu, respondendo por tentativa de feminicídio. Nesse período, Tainara teve as pernas amputadas e passou por diversas cirurgias. Após a morte da vítima, a Polícia Civil reclassificou o caso como feminicídio consumado.
Caso da jovem de Minas será enquadrado como tentativa de feminicídio, segundo delegado. Nas imagens, é possível ver que ele engata a marcha à ré, diz o delegado. “Estamos analisando se, nesse engate da marcha à ré, ele passou por cima dela”, diz o delegado. “Não há dúvidas de que foi uma tentativa de feminicídio.” A vítima foi socorrida e levada ao Hospital João 23. “A pessoa não consegue suportar uma rejeição que costuma ocorrer no término de relacionamento”, diz Dal’Mas.
Douglas e o suspeito de atropelar e arrastar a jovem em Minas têm histórico de violência e agressões. O homem que atropelou Tainara tinha histórico de comportamento violento e era conhecido por arrumar brigas, segundo testemunhas ouvidas pela Polícia Civil. Além dos relatos de que ele se envolvia em brigas, ele tinha passagem por por porte ilegal de arma de fogo de uso restrito.
Já o homem que arrastou a jovem na cidade mineira tinha histórico de violência contra mulheres, segundo o delegado que investiga o caso. O homem tem ao menos dois boletins de ocorrência por violência doméstica e um pedido de medida protetiva registrados -um boletim e uma protetiva por parte de uma mulher com quem se relacionou no passado e outro boletim por parte da mulher que ele teria arrastado com o veículo. “Importante ressaltar que esses crimes não são atos de loucura que tiveram em um dia específico. São, na verdade, uma concepção de controle dos corpos femininos”, diz Dal’Mas.
MISOGINIA ESTIMULADA EM GRUPOS DE INTERNET
Episódios revelam escalada da brutalidade em casos de violência contra as mulheres, diz advogada. Segundo a presidente da Comissão das Mulheres Advogadas da OAB, Maíra Recchia, o machismo sempre esteve enraizado na cultura brasileira, mas a escalada dos métodos com requintes de crueldade é inédita. “Isso não é um sinal de que os crimes estão sendo mais denunciados, como podemos pensar num primeiro momento”, ressalta. “É um reflexo da misoginia que é estimulada no mundo virtual e ganha corpo no mundo real.”
“Temos um estímulo à violência contra as mulheres nos meios virtuais para executar a prática delitiva”, explica Recchia. Para ela, homens que se sentiam envergonhados em praticar a violência contra mulheres encontram reforço e até estímulos em grupos de internet que promovem a misoginia [o ódio contra as mulheres]. “Existem grupos organizados em plataformas como o Telegram e na deepweb fazendo campanhas que incentivam, por exemplo, o crime de estupro”, diz a advogada. “Nesses espaços, há desde homens que fomentam o ódio contra mulheres até aqueles que ganham dinheiro com isso e os que pagam advogados para defender esses agressores.”
Agressores promovem a violência com o que têm nas mãos, sejam armas, facas ou veículos. “Qualquer método pode ser utilizado como arma, fogo não é incomum, armas brancas também são utilizadas, tudo para descaracterizar a identidade da mulher, o rosto ou até as partes íntimas”, diz a promotora de Justiça. “O meio de execução é o que menos importa porque eles usam o que têm para promover o poder e a opressão”, afirma Recchia. Os requintes de crueldade ficaram evidentes nos casos -as duas mulheres tiveram partes do corpo presas ao serem arrastadas.
Promotora de Justiça alerta ainda para a subnotificação dos casos de tentativas de feminicídio e feminicídio. Segundo Dal’Mas, muitos são registrados como lesão corporal grave ou como homicídio. “É preciso que haja uma capacitação das autoridades policiais para entenderem que algumas capitulações são subdimensionadas”, diz. “A lei Maria da Penha e a lei que tipifica o feminicídio são avanços para que esses atos não sejam interpretados como crimes contra a honra.”
PACTO CONTRA O FEMINICÍDIO INSUFICIENTE
No começo de fevereiro, Lula convidou os presidentes dos poderes Legislativo e Judiciário para lançar um pacto contra o feminicídio. O evento foi marcado por diversos discursos e nenhuma medida concreta. Recchia afirma que uma das urgências em relação ao combate do feminicídio são ações da Polícia Federal para investigar grupos de misoginia nos ambientes virtuais. “São espaços em que ainda não chegamos”, diz. “Não adianta ter um pacto contra o feminicídio sem uma investigação contra a misoginia digital.”
Para a advogada, crimes como violência psicológica e patrimonial não foram devidamente abordados. “Violências que deixam materialidade são mais facilmente identificadas, agora a moral e a psicológica precisam ser trabalhadas, sem isso não há avanço.” A única medida anunciada foi a criação de um comitê contra o feminicídio formado por quatro representantes de cada poder (Executivo, Legislativo e Judiciário).



