(UOL/FOLHAPRESS) – A tentativa da Federação Internacional de Surfe (ISA) de mudar os critérios de classificação da modalidade para os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028 enfrenta forte resistência dos atletas da elite mundial.
Segundo apuração do UOL, o modelo em discussão desagrada competidores do Circuito Mundial, brasileiros e estrangeiros, que consideram que as mudanças podem tornar a corrida olímpica menos baseada em regularidade e mérito esportivo.
O principal temor é que a classificação passe a depender mais de eventos pontuais e de processos ligados a federações nacionais, aumentando a imprevisibilidade em comparação ao ranking anual da World Surf League (WSL), nesta quinta-feira (19) visto pelos atletas como o sistema mais justo para medir desempenho.
“Nosso foco é garantir que o processo preserve meritocracia e represente os melhores surfistas do mundo. O ranking do Circuito Mundial avalia desempenho ao longo de uma temporada inteira, em diferentes condições. É o modelo mais sólido que existe hoje”, diz Christian Beserra, presidente da World Professional Surfers (WPS), entidade que representa os competidores da elite, à reportagem.
PROPOSTA JÁ FOI REJEITADA
O incômodo aumentou ainda mais após os bastidores das negociações virem à tona. Ainda segundo apuração do UOL, a ISA já apresentou duas versões da proposta ao Comitê Olímpico Internacional (COI), e ambas acabaram rejeitadas.
A primeira tentativa teria ocorrido antes mesmo de atletas e representantes do Circuito Mundial tomarem conhecimento formal das mudanças. O tema chegou ao radar dos surfistas após questionamentos de uma confederação nacional, o que levou a WSL a acionar a WPS e iniciar as discussões.
Desde então, houve troca de e-mails, argumentações esportivas e tentativas de reuniões para tentar barrar a proposta.
A situação, porém, se agravou na última semana. Segundo apuração, representantes dos atletas haviam solicitado uma reunião com a ISA para discutir os pontos de preocupação, mas, nesse meio tempo, antes que o encontro acontecesse, a entidade internacional apresentou uma segunda versão do projeto diretamente ao COI.
O movimento foi interpretado nos bastidores como a gota d’água para o aumento da tensão entre atletas e a federação internacional. A nova proposta também acabou rejeitada.
Apesar das negativas iniciais, a ISA ainda teria margem para uma nova tentativa de aprovação, o que mantém o tema ativo nos bastidores do esporte.
COMO FUNCIONARIA A MUDANÇA
A proposta prevê reduzir o número de vagas olímpicas definidas via ranking do Circuito Mundial e ampliar o peso de competições organizadas pela própria ISA, especialmente o ISA Games.
Na prática, atletas temem que o sistema passe a depender mais de resultados isolados em baterias curtas, com quatro competidores na água e condições variáveis e também de processos de convocação por federações nacionais, o que introduziria fatores externos ao desempenho esportivo direto.
Outro ponto de preocupação envolve o calendário. Um ano olímpico já interrompe a temporada do Circuito Mundial, e a possível exigência de participação em eventos adicionais poderia aumentar desgaste físico, custos e viagens internacionais.
Todo atleta quer disputar os Jogos Olímpicos. Isso não está em discussão. Mas o caminho precisa ser equilibrado, justo e compatível com a realidade do esporte profissional. Temos uma estrutura que permite apresentar às Olimpíadas os melhores surfistas do mundo, e ignorar isso completamente não parece o melhor caminho Christian Beserra
ESCALADA POLÍTICA
Nos bastidores do surfe, o debate também alimenta uma percepção de disputa institucional entre ISA e WSL, algo que vem sendo alimentado inclusive por fãs que acompanham o esporte. Beserra, porém, faz questão de afastar essa interpretação.
Não é uma discussão sobre organizações. É sobre os atletas e sobre garantir que o esporte esteja representado da melhor forma possível nos Jogos Olímpicos
Por enquanto, não há decisão final. Mas a tensão entre atletas, circuito profissional e federação internacional indica que o processo de classificação para Los Angeles 2028 ainda deve passar por novos capítulos.
O UOL entrou em contato com a ISA e a WSL, mas não obteve resposta até a publicação da matéria.



