RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – A Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro contestou o uso de símbolos da fé cristã e da família em manifestações culturais de maneira considerada ofensiva pela instituição.
O posicionamento está em uma nota de terça-feira (17) que leva a assinatura da assessoria de imprensa da arquidiocese. Com o título “A Importância da Família e da Religião”, o texto não cita diretamente a Acadêmicos de Niterói, mas passou a ser interpretado como resposta ao desfile da escola de samba no Carnaval do Rio.
Em uma ala na Marquês de Sapucaí, a agremiação criticou no domingo (15) o que chamou de neoconservadores. A representação trazia integrantes com fantasias que simulavam latas de conserva.
As vestimentas continham a ilustração da chamada família tradicional, formada exclusivamente por homem, mulher e filhos.
Em documento entregue à Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro), a escola indicou que, entre os grupos que levantam a bandeira do neoconservadorismo, havia representantes do agronegócio, membros da classe alta, defensores da ditadura militar e evangélicos.
O enredo ganhou repercussão devido ao fato de homenagear o presidente Lula (PT) em ano eleitoral.
Membros da oposição criticaram a escolha e acionaram a Justiça para tentar barrar, sem sucesso, a apresentação. A Acadêmicos de Niterói terminou o Carnaval rebaixada nesta quarta-feira (18).
“A Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro manifesta sua preocupação a respeito da utilização de símbolos da fé cristã e da instituição familiar em manifestações culturais de maneira que compreendemos como ofensiva”, diz a nota.
“Reconhecemos a cultura popular como expressão da identidade brasileira, espaço de criatividade, encontro e alegria. Ao mesmo tempo, é preciso que tais manifestações respeitem convicções religiosas profundas e valores que estruturam a vida social e são invioláveis para as pessoas desta cidade”, acrescenta.
Para a arquidiocese, as religiões desempenham papel relevante na promoção da solidariedade, da educação e do cuidado com os mais vulneráveis.
“A fé continua ocupando um lugar essencial na vida social, permanecendo viva, influente e fundamental na formação ética e moral da sociedade. Ataques ou desrespeito a ela atingem não apenas as instituições, mas também a consciência de milhões de cidadãos.”
O comunicado aponta que “a alegria, vivida de forma saudável e respeitosa, é legítima e enriquece a vida cultural”. Na visão da arquidiocese, “situações pontuais de desrespeito” não representam a riqueza e a diversidade cultural do Rio.
“Reafirmamos nosso compromisso com a defesa da fé, da dignidade da família, da liberdade religiosa, da liberdade de expressão e da construção de uma cultura de diálogo e paz. Direitos fundamentais como a liberdade de expressão caminham lado a lado com responsabilidade e respeito mútuo.”
Na segunda-feira (16), a Acadêmicos de Niterói declarou sofrer perseguição. Isso, segundo a agremiação, veio de “ataques de setores conservadores e, de forma ainda mais grave, de gestores do Carnaval carioca”.
A OAB-RJ (Ordem dos Advogados do Brasil no Rio de Janeiro) reforçou as críticas à escola. Em nota na terça-feira, a organização repudiou o que chamou de “episódio de intolerância religiosa na Marquês de Sapucaí”.



