SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Foliões do bloco tradicional Vai Quem Qué, no Butantã, zona oeste de São Paulo, relataram uso de spray de pimenta e gás lacrimogêneo pela GCM (Guarda Civil Metropolitana) na dispersão do cortejo na tarde de terça-feira (17). Participantes afirmam que a ação ocorreu quando parte do público tentava se abrigar da chuva em bares da região.

Vídeos que circulam nas redes sociais mostram a confusão em uma rua do bairro, com som de bombas, pessoas tossindo e correndo para dentro de estabelecimentos. Em uma das imagens, um homem aparece arremessando um objeto em direção aos guardas.

“Foi horrível. Estávamos abrigados da chuva, estava tudo tranquilo. Não entendemos nada”, relatou uma das integrantes do bloco, em postagem nas redes sociais. “As pessoas estavam nos bares, se abrigando da chuva, e do nada começamos a tomar bomba”, disse outra.

O psicanalista Raphael Sponton, 35, conta à Folha de S.Paulo que estava em um restaurante na avenida Corifeu de Azevedo Marques, paralela à concentração, quando ouviu o estouro de uma bomba e uma nuvem de gás lacrimogêneo invadiu o local.

“Com o estouro já se notou uma onda de pânico. Saí para ver o que ocorria, e as pessoas, indignadas, gritavam com os guardas, que respondiam de arma na mão. Não apontaram, mas estavam sacadas”, diz. Segundo ele, no horário previsto para o encerramento, a GCM já circulava de moto entre as aglomerações, que incluíam crianças, idosos e pessoas com deficiência.

A organização do Vai Quem Qué afirma que cumpriu o trajeto e os horários definidos pela prefeitura e que a dispersão ocorria de forma tranquila. “Desligamos e recolhemos o equipamento de som às 18h, e a dispersão estava acontecendo tranquilamente. A Guarda Civil Metropolitana começou uma dispersão agressiva, com gás de pimenta. Um dos nossos integrantes, que foi tentar dialogar com a GCM, foi espancado”, diz a nota.

Ainda segundo os organizadores, a violência escalonou a partir do confronto. “As imagens publicadas nas redes sociais mostram a desproporção: bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e violência excessiva contra o carnaval de rua”, afirmam. “Repudiamos e não aceitaremos que a dispersão do nosso bloco seja feita na base da porrada”.

Procurada, a prefeitura afirmou que, durante a ação de dispersão, “houve resistência pontual e arremesso de objetos contra a equipe, que atuou dentro dos protocolos de segurança para restabelecimento da ordem e garantia de proteção do público”. Segundo a gestão, dois agentes ficaram feridos e foram encaminhados ao Hospital do Rio Pequeno. Não houve condução de civis ao Distrito Policial, informou.

Após o episódio, dois vereadores de oposição ao prefeito Ricardo Nunes (MDB) denunciaram a atuação da GCM. Nabil Bonduki (PT) afirmou que recebeu denúncias em seu gabinete e que apura responsabilidades. “Não haverá silêncio diante do abuso”, disse.

Já Luana Alves (Psol) disse que encaminhou ofício à Secretaria de Planejamento Urbano para cobrar informações sobre o ocorrido. “O Carnaval merece respeito”, disse.

O Vai Quem Qué foi idealizado no final da década de 1970 por dois amigos barrados nos desfiles da avenida Tiradentes. Eles improvisaram uma roda de samba com outras pessoas e no dia seguinte criaram o bloco, que desfilou pela primeira vez em 1981.

Os primeiros foliões eram professores de educação de jovens e adultos do Colégio Santa Cruz, no Alto de Pinheiros, zona oeste da capital.

Lira Alli é da segunda geração da família que fundou o bloco e presenciou a ação da GCM na terça-feira. “Nem nos anos 1980, durante a ditadura, vimos algo do tipo”, afirma.