SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Apesar dos relatos de progresso nas negociações para evitar uma nova guerra no Oriente Médio, os Estados Unidos aceleraram nesta semana a mobilização militar ofensiva em preparação para atacar o Irã.
Após enviar dois grupos de porta-aviões e diversos ativos para a região, as forças de Donald Trump estão empreendendo uma movimentação frenética de aeronaves para o teatro de um eventual conflito.
Só de segunda-feira (16) até esta quarta (18), foram ao menos 78 aviões de caça e ataque deslocados, mais que o dobro do que já havia em três principais bases americanas sob a jurisdição do Centcom (Comando Central da Forças Armadas dos EUA) isso sem contar as 90 aeronaves a bordo do USS Abraham Lincoln.
Esse aviões estão sendo apoiados por uma armada voadora de aviões-tanque. Só na manhã desta quarta, havia 20 modelos KC-135 e KC-46 no ar cruzando o Atlântico vindos dos EUA, e uma fila com dezenas de voos de ida e volta de cargueiros C-17 da região para bases europeias.
Além disso, seis aviões-radar E-3 e pelo menos um raramente usado U-2 já estão na Europa, a poucas horas da ação. São aeronaves essenciais para qualquer ação coordenada, organizando o trabalho de caças, aviões de ataque a solo e bombardeiros. Todos os números são tirados de monitores de tráfego aéreo, e pode haver mais ativos a caminho.
Chama a atenção a composição do contingente, que saiu dos EUA e de bases na Europa: além de 36 caças leves F-16 e mais 12 aviões de ataque F-15, há 12 F-22 e 18 F-35 relatados pelos monitores. Os dois últimos são modelos de quinta geração, furtivos a radar.
O F-22, em particular, é o avião mais poderoso da frota americana. Seu emprego, provavelmente numa base da Jordânia, sugere o potencial uso do bombardeiro “invisível” B-2, numa combinação usada no ataque americano a instalações nucleares do Irã em junho passado.
Nele, os F-22 serviram com F-35 de escolta para os bombardeiros de R$ 11 bilhões, enquanto outros caças abriam o caminho alvejando defesas aéreas iranianas. Nesse cenário, é possível especular uma novo ataque mais cirúrgico para decapitar a teocracia islâmica instalada em Teerã desde 1979.
Mas analistas militares observam que o poderio mobilizado insinua uma guerra mais ampla do que bombardear o aiatolá Ali Khamenei e comandantes de sua Guarda Revolucionária. Isso implica vários riscos, dado que o país não é indefeso como a Venezuela, atacada em janeiro.
Para tanto, seguindo a cartilha do Pentágono, tudo começa com o uso intensivo do míssil de cruzeiro Tomahawk. Há cerca de 600 unidades da arma de precisão rondando o Irã. Trump já tem na região o Lincoln e sua escolta de três destróieres, e um total de ao menos 12 navios de guerra.
Na semana que vem eles já sejam apoiados por um segundo grupo de porta-aviões, centrado no maior modelo do tipo no mundo, o USS Gerald R. Ford. O navio e sua escolta estavam no Caribe, onde participaram da operação que capturou o ditador Nicolás Maduro e sua mulher.
Nesta quarta, ele estava perto do estreito de Gibraltar, entrando no Mediterrâneo e podendo estar em posição de apoiar um ataque ao Irã pelo flanco oeste já neste fim de semana se mantiver a velocidade atual de 24 nós (44 km/h).
Por fim, há o fator Israel, aliado central dos EUA na região. O Estado judeu, segundo a imprensa local, elevou seu alerta militar e pode participar do ataque aos arquirrivais iranianos, repetindo a parceria do curto conflito de junho passado. Potência nuclear, o país tem cerca de 300 aviões capazes de alvejar o Irã.
Isso tudo pode sinalizar apenas pressão de Trump para que os aiatolás aceitem um acordo acerca de seu programa nuclear. Na terça, delegações de ambos os países debateram indiretamente o tema, sob a mediação de Omã, em Genebra.
O chanceler iraniano, Abbas Araghchi, foi particularmente otimista, falando em progresso e novas reuniões. Os americanos foram mais discretos, apenas relatando anonimamente que esperam uma proposta iraniana em duas semanas.
Talvez este seja o prazo para uma decisão de Trump sobre atacar. Na noite de terça, o vice-presidente J. D. Vance afirmou à Fox News que “ficou bem claro que o presidente tem linhas vermelhas que os iranianos não estão ainda dispostos a aceitar e negociar”.
Já nesta quarta, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse que “houve um pouco de progresso, mas estamos muito longe em algumas questões”. “O Irã seria sábio em fazer um acordo.”
PROTESTOS AGRAVARAM CRISE
A crise entre os países remonta à Revolução Iraniana, que nasceu sob o signo da tomada da Embaixada dos EUA em Teerã. Décadas de hostilidade mútua chegaram a um zênite com o ataque do ano passado, em apoio à guerra de 12 dias que Israel travava com seu arqui-inimigo.
Sucedeu um cessar-fogo, mas a situação política da teocracia degenerou devido a uma crise econômica que levou milhares à rua no fim de 2025. Logo, os atos viraram protestos contra o regime em si e foram violentamente reprimidos.
Trump prometeu ajuda os manifestantes e, no começo do ano, quase atacou o Irã. Mas voltou atrás, convencido por Israel a ganhar mais tempo de preparo e pressionado por aliados regionais a não causar caos no comércio de petróleo 20% do produto e do gás mundiais passam pelo estreito de Hormuz, cuja costa norte é controlada por Teerã.
Não por acaso, os iranianos estão fazendo nesta semana exercícios navais por lá e anunciaram manobras conjuntas com russos e chineses, buscando dissuadir os americanos. Uma corveta de Moscou, a Stoiki, já fez manobras com barcos iranianos nesta quarta. Teerã também está reforçando instalações militares, como imagens de satélite mostram.
O republicano acabou abandonando a retórica de apoio aos atos, embora tenha falado que seria bom ver o regime cair. E acelerou o cerco militar enquanto mudava o foco para o programa nuclear, que fora objeto de um acordo que ele mesmo deixou em 2018.
Aquele arranjo suspendia sanções em troca da renúncia à bomba atômica e instalação de mecanismos de verificação da produção pacífica de urânio enriquecido. Teerã quer renovar esse acordo, mas Trump quer o fim total do programa.
Além disso, com apoio de Israel, pede também o fim do programa de mísseis balísticos do país persa, algo que Teerã diz ser inegociável. Na guerra de 2025, apesar de dominada nos ares, a teocracia causou bastante estrago no Estado judeu.



