SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) – O manobrista que fazia a limpeza da piscina da academia C4 Gym, na zona leste de São Paulo, onde uma mulher morreu após uma aula de natação, recebia orientações de um dos donos sobre como limpar a piscina por meio de um aplicativo de mensagens. As informações são do Fantástico, da TV Globo.

Severino José da Silva era orientado por meio de mensagens por Celso Bertolo, um dos sócios do estabelecimento. “Nossa, eu olhei pela câmera e ela tá horrível. Eu tô achando que tá sem cloro. Mede ela a hora em que você for lá que, se bobear, a gente joga até um pouco mais. Eu deixei cinco medidas, mas vamos medir pra ver”, disse o empresário em áudios divulgados pelo Fantástico.

O manobrista não tem nenhum tipo de especialização para manusear a limpeza da piscina. Segundo a a advogada de Severino, Bárbara Bonvicini, “todos os dias, pela manhã, ele fazia a medição da água e enviava uma foto do medidor por aplicativo de mensagem para o proprietário, o Celso. A partir disso encaminhava os produtos e quantidades pra usar”, explicou ela.

Em uma das mensagens, Celso orienta Severino a usar mais cloro na água. “Mano, a piscina tá cada vez ficando mais feia. Certeza que é falta de cloro”, disse o empresário. “Hoje, a hora em que você for, a gente mede e dá uma clorada mais forte pra amanhã estar bonita”, acrescentou o sócio em outro áudio.

A morte da professora Juliana Faustino Bassetto, 27, foi causada por excesso de cloro, segundo as investigações. Conforme a Polícia Civil, a negligência no tratamento químico era recorrente e ficou comprovada durante a investigação do caso.

Em nota ao Fantástico, os advogados de Celso e de Cesar Bertolo Cruz e Cezar Miquelof, os outros dois sócios da academia, afirmam que os clientes permanecem inteiramente à disposição das autoridades. Eles acrescentaram que confiam que a investigação prosseguirá de forma técnica, isenta e em estrita observância às garantias constitucionais

MANOBRISTA NÃO RESPONDERÁ CRIMINALMENTE PELA MORTE

Severino não foi indiciado pela morte de Juliana, pois, no entendimento da polícia, ele não cometeu crime. “O manobrista responsável pela limpeza deixou claro que a negligência no tratamento da piscina ‘é coisa corriqueira’ na academia”, afirmou o delegado Alexandre Bento.

O manobrista declarou em depoimento que fazia misturas orientado pelo chefe e deixava na borda da piscina. Segundo ele, quem jogava os produtos seria o professor de natação da academia, após o fim das aulas, explicou o delegado.

Polícia aguarda exame pericial no local, laudos da água da piscina, do produto químico que provocou a morte e o laudo do IML. Mais funcionários devem ser ouvidos, segundo a polícia.

JUSTIÇA NEGOU A PRISÃO DOS SÓCIOS

Os sócios da academia foram indiciados por homicídio com dolo eventual. O dolo eventual ocorre quando o investigado não deseja diretamente o resultado morte, mas assume o risco de produzi-lo ao adotar determinada conduta.

A prisão deles foi negada pela Justiça de São Paulo. Em decisão publicada na sexta-feira (13), a juíza Paula Marie Konno argumentou que, embora os fatos tenham ganhado ampla repercussão social e midiática, as razões listadas pela polícia não justificam a prisão dos sócios.

Apesar de negar a decretação da prisão temporária, a juíza fixou medidas cautelares que devem ser cumpridas pelos empresários. São elas:

O comparecimento mensal em juízo, para informar e justificar atividades, bem como para informar o endereço atualizado, iniciando no mês de fevereiro de 2026;

Proibição de se aproximar a menos de 200 metros determinados endereços;

Proibição de manter contato direto ou por interposta pessoa, de forma presencial ou virtual, com qualquer testemunha relacionada aos fatos e proibição de ausentar-se da Comarca por mais de sete dias sem autorização do Juízo;

Ficam os investigados advertidos de que o descumprimento de quaisquer das condições poderá ensejar a decretação da prisão preventiva.

Defesa afirmou que recebeu com satisfação a decisão judicial de negar a prisão temporária dos empresários.

“Reiteramos que eles permanecem inteiramente à disposição das autoridades competentes para quaisquer esclarecimentos, em qualquer momento, confiando que a investigação prosseguirá de forma técnica, isenta e em estrita observância às garantias constitucionais”, diz nota enviada pelos advogados Rafael Serra Oliveira e Caio Rimkus.

Juliana morreu na noite do dia 7 de fevereiro. O casal foi até o Hospital Santa Helena, em Santo André, mas a professora sofreu uma parada cardíaca e não resistiu. Câmeras de segurança gravaram o momento em que alunos saem da piscina porque passaram mal.

O marido da professora, Vinicius de Oliveira, 31, recebeu alta no último domingo, após ficar oito dias internado no Hospital Moura Brasil. Na primeira declaração pública, em um vídeo exibido pela GloboNews, ele afirmou que lendo as reportagens que foram publicadas, agora percebe que “estava tudo errado” na academia. No total, seis pessoas passaram mal após a aula, incluindo Juliana e o marido.

A academia não tinha alvará para funcionar, segundo a Polícia Civil. A instalação elétrica da piscina estava ligada à cozinha da academia e os produtos para limpeza da piscina também estavam em local inadequado, segundo os investigadores.