SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em 2025, o COB (Comitê Olímpico do Brasil) registrou a maior receita dos últimos cinco anos, com R$ 594 milhões arrecadados. Cerca de 75% desse total teve origem nos repasses das loterias, uma dependência histórica que passou a preocupar a atual administração.
“Sempre fazemos uma análise de ameaças e riscos [para a gestão]. As ameaças podem ser, por exemplo, o governo, com algum deficit, decidir revogar as leis que dão recursos ao esporte. Então, temos que estar prontos”, afirmou à Folha o presidente do COB, Marco Antônio La Porta.
O receio tem precedente. Em 2019, o comitê teve os repasses suspensos após a Caixa ter apontado uma dívida tributária vinculada à Confederação Brasileira de Vela. A liberação só ocorreu depois de intervenção do governo federal, evidenciando que, embora prevista em lei, a transferência pode ficar sujeita a decisões administrativas.
Em 2025, o COB (Comitê Olímpico do Brasil) registrou a maior receita dos últimos cinco anos, com R$ 594 milhões arrecadados. Cerca de 75% desse total teve origem nos repasses das loterias, uma dependência histórica que passou a preocupar a atual administração.
“Sempre fazemos uma análise de ameaças e riscos [para a gestão]. As ameaças podem ser, por exemplo, o governo, com algum deficit, decidir revogar as leis que dão recursos ao esporte. Então, temos que estar prontos”, afirmou à Folha o presidente do COB, Marco Antônio La Porta.
O receio tem precedente. Em 2019, o comitê teve os repasses suspensos após a Caixa ter apontado uma dívida tributária vinculada à Confederação Brasileira de Vela. A liberação só ocorreu depois de intervenção do governo federal, evidenciando que, embora prevista em lei, a transferência pode ficar sujeita a decisões administrativas.
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*Folha – Concluído o primeiro ano de gestão, qual é o principal mérito desse período?*
*Marco Antônio La Porta -* Foi o reposicionamento do COB na política nacional e internacional. O comitê estava afastado de Brasília, de outros comitês e de entidades internacionais. Nós retomamos essa presença e aprovamos a Lei de Incentivo ao Esporte, liderando o processo. Também avançamos no campo comercial, com a aproximação de empresas e a assinatura de um contrato com a Adidas, que considero a maior conquista comercial do primeiro ano.
*Folha – Qual é a importância dessa lei e qual foi o papel do COB na aprovação?*
*Marco Antônio La Porta -* O COB liderou esse processo, dialogando com deputados e senadores, especialmente com a deputada Laura Carneiro [PSD-RJ] e a senadora Leila Barros [PDT-DF]. Essa lei está totalmente alinhada ao nosso discurso de nação esportiva, com foco em desenvolvimento e projetos sociais. Não tem tanto a parte de alto rendimento porque isso é papel do COB, mas tem o que é preciso para o fomento e desenvolvimento do esporte.
*Folha – Quais são as próximas pautas prioritárias do COB no Congresso?*
*Marco Antônio La Porta -* Criamos o Conselho Nacional dos Comitês Esportivos. A gente tem pautas que são muito importantes para a gente, como questões ligadas à regulamentação das bets e à isenção para importação de material esportivo. Isso impacta diretamente o atleta. Para comprar um barco, por exemplo, você paga R$ 50 mil, R$ 60 mil a mais só de impostos.
*Folha – Como se formou o deficit de R$ 78 milhões que o senhor herdou da gestão passada e de que forma ele foi equacionado?*
*Marco Antônio La Porta -* O deficit foi aprovado em assembleia em 2024, após um aumento do repasse às confederações, que passou de cerca de 45% para 60% das receitas de loterias. Isso reduziu o caixa em R$ 78 milhões. Nós temos um fundo de reserva que permitia absorver esse impacto, mas esse fundo serve para emergências. Vamos supor, por exemplo, que um dia os deputados revoguem o repasse dos recursos vindos de loterias. Como o COB vai sobreviver? Então, revisamos o orçamento, também contamos com a entrada de recursos das apostas esportivas e encerramos o ano com equilíbrio financeiro. Para 2026, aprovamos o orçamento com superavit de R$ 8 milhões, mantendo o repasse de 60% às confederações.
*Folha – Em que estágio está o mapeamento e a certificação de centros de treinamento fora da região Sudeste?*
*Marco Antônio La Porta -* Estamos desenvolvendo um projeto inspirado em modelos internacionais. Ainda estamos definindo critérios e níveis de certificação. A gente passou esse ano estudando como os outros países fazem isso. Agora, a gente está montando o projeto de como vamos fazer essa certificação. Está caminhando.
*Folha – Vocês disseram anteriormente que trabalhariam com atletas que ficaram perto do pódio nos Jogos de Paris, mas bateram na trave. Que trabalho tem sido feito para aproximá-los da medalha em Los Angeles?*
*Marco Antônio La Porta -* Eu citaria quatro atletas desse grupo que estão indo muito bem: Hugo Calderano [tênis de mesa], Marcus Vinicius D’Almeida [tiro com arco], Ana Sátila [canoagem slalom] e Miguel Hidalgo [triatlo]. Eles estão no caminho certo. Nós temos uma atenção especial com cada um deles. Vamos pegar o exemplo do Miguel. O que faltou para ele ganhar a medalha [em Paris-2024]? Um sprint melhor na corrida? Estar mais bem posicionado no ciclismo? Para ajustar isso, ele se mudou para a Espanha, para treinar em outro grupo, com o mesmo treinador. E nós também pegamos um biomecânico e mudamos algumas coisas dele na posição da bicicleta. Então, é atuar com os atletas para ver o que faltou.
*Folha – Como o COB tem atuado para cuidar da saúde mental dos atletas, também um fator determinante nas competições?*
*Marco Antônio La Porta -* Não dá para se preocupar com a saúde mental apenas no alto rendimento. Esse trabalho precisa começar desde cedo, na transição da base. Hoje, os atletas têm estrutura, apoio e recursos, mas a cobrança é muito maior, especialmente nas redes sociais. Por isso temos programas de orientação e acompanhamento, especialmente em competições de base. Na maior parte das vezes, os problemas são causados pelas redes sociais, pela necessidade de mostrar que está sempre bem, mostrar resultado, dar satisfação para o patrocinador, e pela dificuldade de lidar com as críticas. Antes, eles reclamavam da falta de estrutura. Agora, a preocupação dos atletas é com a saúde mental.
*Folha – Qual é o posicionamento do COB sobre a participação de atletas transgênero em competições olímpicas?*
*Marco Antônio La Porta -* Seguimos o posicionamento do COI, que tem uma política muito clara. O esporte precisa ser inclusivo, justo e seguro. Então, não podemos proibir nenhuma pessoa de praticar esporte. Mas cada modalidade define suas regras, e essas regras privilegiam justiça, com condições iguais para todo o mundo, e segurança para o atleta competir. A orientação do COI é muito simples: cada modalidade tem que entender o impacto que isso vai causar.
*Folha – Qual é o papel do movimento olímpico diante do atual cenário geopolítico em meio a tantos conflitos?*
*Marco Antônio La Porta -* O esporte tem o papel de aglutinar os valores e os interesses. Em uma Olimpíada, países que têm diferenças geopolíticas competem um contra o outro. Então, o esporte tem que ser um exemplo para a sociedade de que eu posso ser seu adversário, mas não preciso ser seu inimigo. O papel do movimento olímpico é esse.
*Folha – Preocupa o fato de a próxima edição olímpica ser nos Estados Unidos, envolvidos em diferentes disputas geopolíticas? Acredita na possibilidade de um boicote?*
*Marco Antônio La Porta -* O mundo de hoje é muito diferente do que era quando houve o último grande boicote [em Jogos Olímpicos], em 1984. Eu não consigo imaginar um país não indo aos Jogos por causa de uma questão geopolítica contra os Estados Unidos. Hoje, as pessoas conseguem separar. Quando você deixa de levar um país para os Jogos, imagina o que você faz com um atleta que treinou a vida inteira para aquilo. Então, separar o esporte da política é muito importante. Posso estar sendo otimista demais, mas não vejo hoje um cenário de países boicotando os Jogos.
Raio-X | *Marco Antônio La Porta, 58*
Bacharel em educação física, teve sua base esportiva no triatlo, modalidade na qual também atuou como treinador. Ele presidiu a Confederação Brasileira de Triathlon antes de chegar ao Comitê Olímpico do Brasil. Em 2018, foi eleito vice-presidente do COB e, em 2020, reconduzido ao cargo na chapa de Paulo Wanderley. Em 2021, chefiou a missão brasileira nos Jogos Olímpicos de Tóquio. No fim de 2024, foi eleito presidente do COB, derrotando justamente Paulo Wanderley.



