BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) – Um casal de idosos, com dificuldade, supera os degraus íngremes de uma escada num parque público de Londres. A mulher, de bengala, precisa da ajuda do marido. Sozinha, não daria conta do passeio. A sugestão dos primeiros momentos de “Queen at Sea”, exibido nesta terça-feira no Festival de Berlim, é discutir a autonomia que se vai com a idade.
Cada vez mais frequente no cinema, reflexo do envelhecimento generalizado do planeta, o tema ganha caminhos complicados na história de Lance Hammer, diretor independente americano. Estrelada pela francesa Juliette Binoche, a produção disputa a competição oficial da Berlinale.
Dependência e intimidade se confundem na história de Hammer, ganhador do Sundance por “Ballast”, em 2008, que também é responsável pelo roteiro. O mundo real, organizado, socialmente aceito, não dá conta do problema.
Binoche é Amanda, mãe de uma adolescente e filha de uma mulher com demência. Ao entrar na casa da mãe, da qual tem a chave, surpreende Leslie debaixo do marido, Martin, na cama. Estão fazendo sexo ou, aos olhos da filha, a mãe está sendo submetida a isso pelo companheiro de fim de vida.
O casal se conheceu depois de ficarem viúvos, há 15 anos. Martin é, na prática, o cuidador de Leslie, a própria Amanda reconhece, mas a convicção de que a mãe está sendo violentada a faz chamar a polícia. Martin é detido e afastado da mulher, mas recusa a acusação. Sua intimidade é um pedido dela, que ele espera atender da mesma maneira afetuosa com a qual se dedica a suas refeições, medicações e passeios.
Dar conta de Leslie sozinha se torna então tarefa da filha, que precisa resgatar uma intimidade com a mãe que talvez nunca tenha tido. Banhos, fraldas e a constatação de que tenha chegado tarde tornam o processo de reaproximação penoso. A filha logo começa a se perguntar se não é ela, agora, quem está submetendo a mãe às suas conveniências.
Tudo isso é expresso em cenas delicadamente trabalhadas por Hammer, como as que revelam a cumplicidade de Martin e Leslie, vividos por Tom Courtenay, de 88 anos, e Anna Calder-Marshall, de 79. Cumplicidade, que não pode ser confundida com dependência.
Fora das salas de cinema, a discussão em torno das manifestações políticas seguem dando o tom em Berlim. Depois da carta da diretora da Berlinale, Tricia Tuttle, defendendo a não obrigatoriedade da manifestação política de artistas envolvidos no festival, a primeira reação organizada do setor surgiu nesta terça-feira.
Em carta aberta endereçada aos organizadores do evento, cerca de 80 profissionais do cinema que estão ou já passaram pelo festival criticaram o “silêncio” do evento em relação aos conflitos na Faixa de Gaza e a “censura” que artistas que se manifestaram sobre o assunto estariam sofrendo.
Encabeçam o manifesto artistas de peso internacional como Javier Bardem, Tilda Swinton, Angeliki Papoulia, Saleh Bakri, Tatiana Maslany, Peter Mullan e Tobias Menzies. Cineastas como Fernando Meirelles, Miguel Gomes, Nan Goldin, Mike Leigh e Adam McKay também estão entre os signatários.
No documento, eles pedem que as instituições da indústria “se recusem a ser cúmplices da terrível violência que continua sendo perpetrada contra os palestinos”.
A carta diz ainda que os signatários discordam veementemente do diretor Wim Wenders, que preside o júri desta edição e disse que artistas são o “oposto da política”, e que, diferentemente do que o cineasta alemão e a organização do festival defenderam nos últimos dias, “cinema e política não podem ser separados”.
“Apelamos à Berlinale para que cumpra seu dever moral e declare sua oposição ao genocídio, aos crimes contra a humanidade e aos crimes de guerra de Israel contra os palestinos, e que cesse completamente seu envolvimento em proteger Israel de críticas e exigências de responsabilização.”
Em declaração oficial nesta semana, a direção do festival afirmou que “artistas não são obrigados a se manifestar sobre questões políticas”. Tentavam apagar o incêndio provocado por Wenders que, no dia da abertura da Berlinale, saiu em defesa da produtora polonesa Ewa Puszczynska. Também integrante do júri, ao ser questionada sobre a postura do governo alemão acerca da Faixa de Gaza, ela respondeu que a “pergunta era injusta”. O maior patrocinador do evento é o Ministério da Cultura da Alemanha.
“Acho que Wenders foi infeliz. Até porque ele faz um cinema profundamente político e transformador”, disse Karim Aïnouz à reportagem no fim de semana. O diretor brasileiro, radicado em Berlim, concorre ao Urso de Ouro de melhor do filme do festival com “Rosebush Pruning”, sua segunda produção internacional.
Dias antes, duas manifestações haviam gerado grande polêmica. Michelle Yeoh, que conquistou o Oscar de melhor atriz por “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” e foi a Berlim para receber um Urso de Ouro honorário, e Rupert Grint, que viveu o personagem Ron Weasley na saga “Harry Potter”, foram criticados por não se posicionarem.
Enquanto Yeoh afirmou não se considerar capaz de comentar questões como as políticas anti-imigração implementadas por Donald Trump, Grint disse que ainda escolherá um momento melhor para protestar contra a escalada de ideais fascistas que tem se desenhado nos últimos anos.
Com forte presença nas mostras paralelas do festival, a produção brasileira recebeu nesta terça-feira um prêmio inédito, em Berlim. “Emergência 53”, série do Globoplay criada e produzida pela Conspiração, venceu o Studio Babelsberg Production Excellence Award, prêmio que estreou neste ano no Berlinale Series Market.
Com estreia prevista para este ano no Brasil, a obra segue o cotidiano de profissionais que trabalham em uma unidade de serviço móvel de urgência. A criação é de Claudio Torres, Márcio Maranhão e Andrucha Waddington, que divide a direção com Torres.



