SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O apresentador Stephen Colbert afirmou que o departamento jurídico da CBS vetou a exibição de uma entrevista com um candidato democrata, que estava programada para ir ao ar no episódio desta segunda (16) do “The Late Show”.

A programação foi alterada após a emissora manifestar receio de que a entrevista pudesse violar diretrizes do governo Donald Trump sobre igualdade de tempo para candidatos políticos. O entrevistado era James Talarico, candidato democrata ao Senado pelo estado do Texas.

“Então me disseram, em termos um tanto incertos, que eu não só não poderia tê-lo no programa, como também não poderia mencionar o fato de não tê-lo no programa. E como minha emissora claramente não quer que falemos sobre isso, vamos falar sobre isso”, disse Colbert durante o programa.

Nos Estados Unidos, as emissoras de televisão e rádio licenciadas são obrigadas a dar tempo igual aos candidatos políticos, mas essa regra tradicionalmente não se aplica aos programas de entrevistas. Entretanto, em janeiro, a Comissão Federal de Comunicações (FCC) emitiu novas diretrizes alertando os apresentadores de programas noturnos e diurnos sobre a necessidade de respeitar a regra.

“Talvez você já tenha ouvido falar da chamada ‘regra do tempo igual’, certo? É uma regra antiga da FCC que se aplica apenas ao rádio e à televisão aberta –não à TV a cabo ou ao streaming– que diz que se um programa tiver um candidato no ar durante uma eleição, ele também precisa ter todos os oponentes desse candidato. Há muito tempo existe uma exceção para essa regra, uma exceção para entrevistas jornalísticas e entrevistas em programas de entrevistas com políticos. Isso é crucial”, disse.

Crítico do presidente americano, Colbert usou a situação para alfinetar Trump. “Vamos chamar as coisas pelo nome: o governo de Donald Trump quer silenciar qualquer um que diga algo ruim sobre ele na TV, porque tudo o que Trump faz é assistir TV, ok? Ele é como uma criança pequena que passa muito tempo em frente à tela. Ele fica irritado e depois faz cocô na fralda.”

A única comissária democrata da FCC, Anna Gomez, afirmou que o caso é mais um exemplo “preocupante de capitulação corporativa” do órgão em censurar e controlar a liberdade de expressão.

“A FCC não tem autoridade legal para pressionar emissoras para fins políticos ou para criar um clima que reprima a liberdade de expressão. A CBS está totalmente protegida pela primeira emenda para determinar quais entrevistas exibe, o que torna sua decisão de ceder à pressão política ainda mais decepcionante”, divulgou em nota.

Colbert viu seu talk show ser cancelado abruptamente em julho de 2025. A emissora CBS justificou motivos financeiros para a decisão. O fato, entretanto, gerou críticas, já que o anúncio foi feito pouco depois que a Paramount, dona do canal, chegou a um acordo com Trump para pagar US$ 16 milhões num processo em que o republicano os acusava de terem manipulado uma entrevista com sua adversária nas últimas eleições, Kamala Harris.

O cancelamento do talk show foi celebrado por Trump nas redes sociais. “Eu absolutamente adorei que Colbert foi demitido”, publicou ele em sua página na Truth Social, à época.

Meses após o anúncio do fim do programa, Stephen Colbert venceu o Emmy, principal premiação da televisão mundial, na categoria de melhor talk show. “E às vezes você só percebe que realmente ama algo quando está a ponto de perdê-lo”, disse.

“Dez anos depois, em setembro de 2025, eu nunca amei o meu país tão desesperadamente. Deus abençoe os Estados Unidos. Fiquem fortes, sejam corajosos e se o elevador tentar te levar para baixo, seja louco e soque o botão de um andar mais alto”, finalizou o apresentador, sob aplausos.