SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Tilda Swinton, Javier Bardem e outras dezenas de artistas que participam ou já participaram de edições da Berlinale assinaram uma carta em que criticam o “silêncio” do evento em relação aos conflitos na Faixa de Gaza e a “censura” que artistas que se manifestaram sobre o assunto estariam sofrendo.

Com figuras como os cineastas Miguel Gomes, Nan Goldin, Mike Leigh e Adam McKay também entre os signatários, o documento afirma que estes esperam “que as instituições de nossa indústria se recusem a ser cúmplices da terrível violência que continua sendo perpetrada contra os palestinos.”

A carta diz ainda que os signatários discordam veementemente do diretor Wim Wenders, que preside o júri desta edição e disse que artistas são o “oposto da política”, e que, diferentemente do que o cineasta e a organização do festival defenderam nos últimos dias, “cinema e política não podem ser separados”.

“Apelamos à Berlinale para que cumpra seu dever moral e declare claramente sua oposição ao genocídio, aos crimes contra a humanidade e aos crimes de guerra de Israel contra os palestinos, e que cesse completamente seu envolvimento em proteger Israel de críticas e exigências de responsabilização”

A carta vem na esteira de críticas que o festival —que, em uma declaração oficial, disse que “artista não são obrigados a se manifestar sobre questões políticas— têm recebido, por parte de jornalistas e usuários de redes sociais, a respeito da suposta falta de disposição do evento e de seus participantes para debater questões de teor político, como os conflitos entre Israel e a população palestina na Faixa de Gaza.

Comentários específicos contra Wenders tiveram início na semana passada, quando o diretor alemão, conhecido por filmes —como “Asas do Desejo”— em que debate relações entre a humanidade e a ordem mundial, esteve em conversa com a imprensa e foi questionado sobre o suposto apoio da Alemanha ao “genocídio em Gaza”. Segundo ele, ainda que o cinema possa abordar tais temáticas, filmes não são capazes de modificar o trajeto político do mundo.

Nos últimos dias, nomes como Michelle Yeoh, que conquistou o Oscar de melhor atriz por “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” —em que interpreta uma mãe sul-coreana, dona de uma lavanderia, que tenta se ajustar à vida nos Estados Unidos— e foi à mostra de cinema para receber um prêmio honorário, e Rupert Grint, que viveu o personagem Ron Weasley na saga “Harry Potter”, também foram amplamente criticados.

Enquanto Yeoh afirmou não se considerar capaz de comentar questões americanas como as políticas de anti-imigração implementadas por Donald Trump, Grint disse que ainda escolherá um momento melhor para protestar contra a escalada de ideais fascistas que tem se desenhado nos últimos anos.

Declarações como essas levantaram suposições pela internet, como a hipótese de que a Berlinale, conforme negado por organizadores e outros participantes, estaria instruindo atores e cineastas a não se manifestarem sobre questões políticas.

Indo além, a última semana também foi marcada por protestos de artistas iranianos, no evento, contra o atual estado do regime iraniano, e pela saída da escritoria indiana Arundhati Roy, que apresentaria o seu novo filme mas desistiu da exibição e condenou a fala de Wenders.