SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O destino dos deuses e dos mortais está nas mãos das Moiras. Juntas, essas três entidades mitológicas tecem de forma diligente os fios invisíveis que conduzem todos em direção à vida ou à morte.

Esse mito grego serve agora como pano de fundo para a peça “Hereditária”, em cartaz no Sesc Pompeia, na zona oeste da capital paulista. O espetáculo é idealizado e estrelado por Moira Braga —artista que se voltou às raízes de seu nome para refletir sobre a hereditariedade.

O interesse por essa ideia permeia a vida da artista. Aos sete anos, ela descobriu que tinha Stargardt, uma doença genética rara que leva à perda progressiva da visão. O espetáculo, portanto, usa a vida da atriz como fio condutor de uma análise sobre o peso que a herança exerce sobre a vida de cada um.

“Na peça, abordamos a genética, mas também as possibilidades de mudar essas heranças por meio das nossas escolhas”, diz Braga. Ao longo da produção, a doença genética não é tratada como um infortúnio, mas simplesmente como um fato da vida. Já a deficiência não é associada à limitação, mas sim à ideia de potencialidade.

Isso se faz sentir pelo vigor com que Braga se movimenta sobre o palco, entre danças que se somam a músicas e diálogos para contar a história ao lado das atrizes Isadora Medella e Luize Mendes Dias.

Juntas, elas encarnam as três Moiras, trajando figurinos que fazem uma leitura contemporânea do vestuário da Grécia antiga. Em cena, elas fazem a tradução para Libras e a audiodescrição, elementos que tornam o espetáculo acessível a pessoas com deficiência.

“Não sou a única artista que faz isso no país, mas trazer esses recursos para dentro da cena ainda é uma coisa muito nova e um processo muito experimental”, diz Braga, acrescentando ter tido a sorte de encontrar uma equipe disposta a tornar a peça acessível. “Pela primeira vez, não era mais um problema só meu. Não era só eu pensando nisso. Todo mundo estava engajado.”

Um dos desafios foi integrar a audiodescrição e a tradução para Libras ao espetáculo de modo natural, evitando que esses elementos ficassem alheios à narrativa.

“Isso só foi possível por ter sido pensado desde o início do processo. Eu, enquanto artista com deficiência, não tenho como estar em cena e não refletir sobre isso”, diz Braga. “Quando a gente foi para o espaço cênico, pensamos em como traduzir cada movimento para Libras e como a gente iria descrever as ações. Foi um quebra-cabeça complexo que a gente montou de forma colaborativa.”

Para Braga, o objetivo era construir um espetáculo que não tivesse nenhuma forma de separação. Por isso, ela deixou de lado a audiodescrição por aparelhos sonoros. “Para mim, é preciso que todo mundo possa ouvir. Eu não gosto de chegar na peça e receber um radinho para botar no ouvido, porque isso já segrega uma pessoa da outra.”

Opinião parecida tem Pedro Sá Moraes, que assina a direção do espetáculo. “O que me interessa é fazer com que a audiodescrição crie acesso para pessoas cegas ou com baixa visão, mas também quero tornar esse recurso interessante dramaturgicamente para quem enxerga.”

A preocupação com a acessibilidade, inclusive, se fez presente na concepção dos números de dança, concebidos por Edu O. —professor da escola de dança da Universidade Federal da Bahia, a UFBA. O artista criou o conceito de bipedia compulsória para designar a tendência de criar movimentos tendo como referencial pessoas sem deficiência. O artista, porém, decidiu romper com esse padrão.

“Ele cria a partir da potência da Moira e do que ela faz”, diz Moraes. “Não é uma adaptação, não é encaixar todo mundo na normatividade. É, na verdade, encontrar o poder das diferentes perspectivas e capacidades expressivas.”

Para ele, o espetáculo é uma forma de aproximar as pessoas e de convidá-las a enxergar o mundo a partir de um novo olhar. “A gente quer criar uma janela de potencialidade e de entendimento sobre como o corpo pode se mover”, diz o diretor. “Eu sinto que as pessoas saem do teatro com uma visão renovada sobre o valor de estar vivo.”

HEREDITÁRIA

– Quando Qua. às 19h30; Qui., às 16h e 19h30; Sexta 19h30. Até 27 de fevereiro

– Onde Sesc Pompeia – R. Clélia, 93, Água Branca

– Preço R$ 50

– Classificação 12 anos

Acessibilidade

Intérprete de Libras

Há profissional que interpreta o conteúdo sonoro para pessoas com deficiência auditiva

Audiodescrição

Recurso de acessibilidade que transforma o visual em verbal e amplia o entendimento das pessoas com deficiência visual