BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) – Rodrigo Paz chegou ao poder na Bolívia há menos de três meses e certamente esperava uma lua de mel menos conturbada.

O trabalho já era complexo para a promessa da terceira via, que precisava superar anos de domínio da esquerda e oferecer uma alternativa diferente da direita mais agressiva, mas Paz acabou encontrando um adversário inesperado: seu vice-presidente, Edman Lara.

O desentendimento na cúpula do país andino começou antes mesmo da posse do novo governo, que encerrou, em 8 de novembro último, 20 anos de vitórias nas urnas do MAS (Movimento ao Socialismo), o agrupamento político que tem em Evo Morales sua figura mais emblemática.

Paz e Lara têm origens e visões de mundo bem diferentes. O presidente vem de uma camada social privilegiada, é filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora (1989-1993), foi senador, deputado, vereador e prefeito de Tarija, região produtora de vinhos no sul do país.

Já o Capitão Lara, como ficou conhecido na internet, entrou na política recentemente e de forma bastante repentina. Ele é um policial que se tornou popular ao denunciar casos de corrupção dentro das forças de segurança. Sua presença na cena pública por meio das redes sociais o catapultou para o lugar de figura política nacional.

Paz se apresentou durante a campanha como uma terceira via, que prometia superar o impopular governo de Luis Arce e, ao mesmo tempo, renovar o cenário dominado pelos opositores mais tradicionais, como o ex-presidente Jorge Tuto Quiroga e o empresário Samuel Doria Medina –ambos derrotados em 2025.

Já o candidato a vice era o homem de pavio curto, que afirmava ser intransigente com a velha política.

“Em termos eleitorais, eles foram complementares. A chapa realmente teve muito apoio político nas terras altas da Bolívia, especialmente na bacia do lago Titicaca, ao norte de La Paz, no Trópico de Cochabamba [onde Evo vive protegido por apoiadores], que foram redutos eleitorais do MAS no passado”, avalia o cientista social e analista político boliviano Gustavo Pedraza.

Tudo funcionou bem, até o canhão de críticas de Lara se voltar contra o própio Paz.

O ex-capitão chegou a dizer em um vídeo que “não faz mais parte” do governo, ainda que não tivesse planos de renunciar, e disse que o presidente quer anulá-lo. Ele acusou Paz de não cumprir com promessas de campanha, como a criação de um salário universal para as mulheres. Criticou o fim do programa de subsídios aos combustíveis e insinuou que o presidente seja comandado por Doria Medina.

Uma das críticas de Lara é a forma como o novo governo tem lidado com as comunidades que vivem do cultivo de coca. A oposição boliviana especula que o tema deve se tornar mais sensível nos próximos meses, com a volta da DEA (a agência antidrogas dos EUA) em território boliviano.

A agência foi expulsa do país em 2008, pelo então presidente Evo Morales, que a acusou de intervir na política interna e apoiar supostas conspirações contra ele. Desde então, a cooperação antidrogas entre os dois países foi suspensa.

A vitória de Paz, largamente celebrada pelo governo de Donald Trump, marca uma inflexão na relação entre o Palácio Quemado e a Casa Branca. O vice-ministro da Defesa Social, Ernesto Justiniano, declarou que membros da DEA já estão atuando na Bolívia.

Em outubro, ainda durante as eleições, Lara havia se posicionado contrariamente ao retorno da agência ao território boliviano. “Nenhuma organização internacional sob o pretexto de combater o tráfico de drogas pode interferir em nossa soberania. Somos independentes”, disse ele em um vídeo que postou em suas redes.

A crise entre os dois líderes andinos já é comparada a outro casamento político, na vizinha Argentina, onde o presidente Javier Milei e a vice, Victoria Villarruel, nem se falam. A chapa também se mostrou acertada nas urnas, quando os argentinos apostaram na pregação ultraliberal de Milei para controlar a inflação deixada pelos peronistas, e Villarruel era uma ponte com grupos militares e representantes de forças de segurança.

Antes que o argentino chegasse à metade de seu mandato, a vice já havia se tornado uma figura indesejada, acusada pela irmã de Milei, Karina, de sabotar o governo no Senado e conspirar para assumir a Casa Rosada em um momento de impopularidade do presidente.

Pedraza concorda que há semelhanças entre os líderes da Bolívia e da Argentina. “Paz e Lara têm uma relação que se deteriorou significativamente em um curto período, e é muito difícil reconstruir uma relação pessoal, humana e política. Mas enquanto Paz tem minimizado as declarações do vice, Lara vem perdendo simpatia e apoio social.”

“Ainda que o papel do vice-presidente não seja tão relevante para o funcionamento do Estado, o ideal seria recuperar um bom relacionamento, reconstruir a confiança. Mas tenho sérias dúvidas de que isso possa acontecer”, complementa o cientista político.

Até agora, Paz tem evitado escalar o conflito publicamente. Após uma viagem ao exterior, em que não transmitiu o cargo a Lara e disse que poderia governar virtualmente, o presidente afirmou que as situações internas não podem impedir uma visão de longo prazo para o futuro do país.

No fim de janeiro, Lara publicou um novo vídeo, em que parece estender uma bandeira branca ao ex-aliado, disse que pode ter se equivocado e propôs um encontro para resolver as diferenças entre eles. “Quero me dirigir ao presidente Rodrigo Paz Pereira e convidá-lo para o diálogo, para conversar e resolver nossas diferenças, sempre pensando na pátria.”