CORONEL PILAR, RS (FOLHAPRESS) – Parreirais preenchem a paisagem verde e montanhosa no entorno da principal estrada de acesso a Coronel Pilar, na Serra Gaúcha (a cerca de 140 km de Porto Alegre). Sem grandes empresas, é um município com famílias que vivem do trabalho em pequenas propriedades rurais. Uva e frango são destaques da produção agropecuária, de acordo com a prefeitura.
Em 2022, a população local ocupada com algum tipo de trabalho era composta por 1.100 pessoas de 14 anos ou mais. Desse total, 816 habitantes atuavam por conta própria (sem empregados), o equivalente a 74,2% da mão de obra na ativa, indicam os números do Censo Demográfico, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)
É a maior proporção dessa categoria nos municípios brasileiros. Na média do país, os trabalhadores por conta própria representavam 26,7% da população ocupada em 2022.
A cidade não está isolada. Dos 10 municípios com os maiores percentuais de autônomos no Brasil, 9 ficam no interior gaúcho, Fernando Falcão (MA) é a única cidade fora do estado entre as dez primeiras.
Em todos esses locais, a proporção de trabalhadores por conta própria superava 64% da população ocupada em 2022.
Isso acontece porque, no interior gaúcho, há muitos municípios de menor porte, sem grandes empresas. Por isso, o trabalho por conta própria, em atividades agropecuárias, vira saída. É exatamente o caso de Coronel Pilar.
Segundo o Censo 2022, dos 497 municípios gaúchos, 47,7% (237) tinham menos de 5.000 habitantes. É o dobro da proporção no Brasil (23,8%). O peso da agropecuária no PIB gaúcho também supera historicamente a média do setor na economia nacional.
“A maioria das nossas propriedades é da agricultura familiar. São pessoas que trabalham de segunda a domingo, e a mão de obra é própria. O pessoal até contrata na época da safra, mas muito pouco”, afirma o prefeito de Coronel Pilar, Ivan Agatti (PT).
O Censo considera como trabalhador por conta própria aquele que explora o seu próprio empreendimento, sozinho ou com sócio, sem ter empregados. Popularmente, a categoria também é chamada de autônoma.
Os gaúchos também tinham, conforme o IBGE, o município com o maior percentual do país de trabalhadores ocupados como empregados no setor privado (funcionários de empresas). Trata-se de Presidente Lucena, onde essa categoria representava 97,8% da mão de obra na ativa, bem acima da média nacional (51,7%).
Cerca de 90 km separam os dois municípios com cenários distintos de ocupação no mercado de trabalho.
Em 2022, a população total de Coronel Pilar era de 1.607 moradores. Desse número, 1.438 habitantes tinham 14 anos ou mais, incluindo os 1.100 ocupados e outros 338 fora da força de trabalho.
Os 338 podem envolver situações diversas, como a dos aposentados que não exercem atividade laboral nem procuram emprego.
Entre os 816 trabalhadores por conta própria de Coronel Pilar, 784 não tinham registro de CNPJ, o equivalente a 96,1%. O percentual elevado, contudo, não quer dizer que todos estavam na informalidade.
O casal Marciano Contini, 44, e Débora Jaretta Contini, 34, vive no município e montou uma agroindústria familiar cujo registro se dá por meio do CPF, e não do CNPJ.
Sem funcionários, os dois cultivam uva e morango por conta própria. As frutas dão forma a vinhos, espumantes, sucos e geleias. O casal diz gostar do estilo de vida no interior.
“A gente chama de paraíso. É um lugar pequeno, mas está perto de tudo”, afirma Débora.
“Se quisermos buscar mais clientes, vamos para Garibaldi, que está a 20 minutos de carro”, diz Marciano.
Com 34,3 mil habitantes em 2022, Garibaldi é um dos municípios aos quais Coronel Pilar pertencia antes de sua emancipação, autorizada em 1996. A Serra Gaúcha, onde estão as duas cidades, é fortemente marcada pela imigração italiana.
Coronel Pilar conta hoje com serviços como agência dos Correios e dois bancos, além de pequenos comércios e posto de combustíveis.
A área central é formada por uma avenida cortada por vias menores. Sobravam vagas de estacionamento em uma tarde do início de dezembro, e era possível ouvir o canto dos pássaros ao fundo.
QUEREMOS CRESCER COM DESENVOLVIMENTO, DIZ PREFEITO
As finanças municipais dependem das receitas da produção agropecuária e das transferências de fontes como o FPM (Fundo de Participação dos Municípios), segundo a prefeitura.
“Queremos crescer, sim, mas com desenvolvimento, com sustentabilidade”, afirma o prefeito Ivan Agatti.
O gestor diz que há “algumas demandas” por empregos na cidade, mas avalia que isso não seria resolvido necessariamente pela atração de uma grande empresa.
O crescimento “desordenado”, aponta o prefeito, poderia sobrecarregar serviços de educação e saúde.
“Nossa área urbana é muito pequena.”
Na visão de Agatti, Coronel Pilar progrediu após a emancipação, e o futuro passa por medidas de fomento ao empreendedorismo e à instalação de negócios como agroindústrias.
Lucas Maciel da Rosa, 30, resolveu apostar em outro ramo e abriu, em fevereiro de 2025, uma barbearia, onde trabalha sozinho.
Natural de Fontoura Xavier (a 190 km de Porto Alegre), o jovem se mudou para Coronel Pilar após conhecer sua esposa, que é da cidade.
“No começo, [o movimento] foi bem fraco, porque eu não era conhecido, mas agora melhorou bastante”, diz.
Em 2022, a renda média de todos os trabalhos dos profissionais por conta própria de Coronel Pilar era de quase R$ 3.579 por mês, conforme o Censo.
É um patamar superior ao encontrado no Brasil para a mesma categoria (R$ 2.541). Os valores foram publicados pelo IBGE em termos nominais -ou seja, sem o ajuste pela inflação.
Coronel Pilar faz parte de um grupo de municípios brasileiros que reúnem características como baixo desemprego, indica análise do economista Ely José de Mattos, do laboratório de estudos PUCRS Data Social.
Produzido a partir do Censo, o levantamento divide as cidades do país em quatro “clusters”, considerando as semelhanças entre os membros do ponto de vista laboral.
O grupo no qual está Coronel Pilar é formado por 1.152 municípios, cuja renda de todos os trabalhadores ficou em R$ 2.276 por mês na média de 2022. Foi o segundo maior valor dos quatro “clusters”.



