BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) – No começo do século 17, numa Alemanha essencialmente rural, protestante e conservadora, Rose é um estranho que chega a uma vila reclamando terras deixadas em herança. Dez anos de guerra estão estampados em seu rosto, desfigurado por um tiro. Rose, na verdade, é uma mulher se passando por homem, mas isso ninguém percebe.

É assim que começa “Rose”, filme do austríaco Markus Schleinzer, primeiro favorito a despontar no Festival de Berlim deste ano, com Sandra Hüller no complexo papel do misterioso intruso. Indicada ao Oscar por “Anatomia de uma Queda”, em que interpreta uma escritora acusada de matar o marido, a atriz alemã desta vez trabalha a dúvida de outra forma. A versão homem de Rose surgiu da necessidade, foi arduamente construída e encontra fragilidades na manutenção da mentira.

Em entrevista à imprensa alemã, Hüller falou dos desafios de compor a sua personagem. Apesar de ter visto o seu próprio corpo mudar durante as filmagens, a sua dificuldade não foi se abrutalhar –para isso, fez treinamentos de força e combate e usou vestuário pesado em cena. Muito mais complicado foi transmitir a tensão provocada pela necessidade de manter a farsa. “Quem vê o que de mim, o que posso mostrar do corpo, o que não posso”, diz.

Rose faz xixi de pé, mas sua masculinidade, aos olhos da comunidade, aparece não a partir do físico ou de suas atitudes grosseiras, mas da disposição para o trabalho duro, da liderança, da coragem, como se tudo isso só fosse possível aos homens. Seu sucesso também faz diferença, pois não tarda em pôr de pé a fazenda abandonada há anos.

A ponto de surgir uma proposta de casamento e, é claro, os problemas. Schleinzer, responsável também pelo roteiro, inspirado em relatos verídicos de julgamentos, mas não em uma única história, declarou-se “um fã obcecado” de Hüller ao explicar a seleção da artistas para o papel. “Assisti aos seus filmes diversas vezes.”

Se escolher a protagonista foi fácil, sua companheira de cena, a austríaca Caro Braun, consumiu 800 audições de teste. É a especialidade de Schleinzer, que está em seu terceiro filme como autor, mas tem uma longa carreira com direção de elenco. Trabalhou, entre outros, com Michael Haneke.

Não parece coincidência que “Rose”, filmado em preto e branco, tenha uma estética que faz lembrar “A Fita Branca”, que rendeu a Palma de Ouro em Cannes a Haneke, em 2009. Estão lá também a opressão e o moralismo protestante, que corroem o tecido social da comunidade, três séculos mais tarde, e abrem bastante espaço para ideias fascistas.

História que se repete também agora, declarou Hüller, logo após a exibição do filme para a imprensa, em Berlim. “Cada vez mais pessoas que estavam no caminho de serem mais livres e integradas na sociedade, respeitadas e aceitas, estão ameaçadas atualmente. Mais uma vez”, disse a atriz, que também é professora de uma universidade alemã.

Outro filme na competição oficial da Berlinale, “At the Sea”, do húngaro Kornél Mundruczó, foi apresentado nesta segunda-feira, em Berlim. Nele, a artista Amy Adams interpreta Laura, uma alcoólatra enfrentando que enfrenta a volta para a casa após um longo período de reabilitação.

Há a culpa de ter provocado um acidente de carro com o filho pequeno a bordo e também a sensação de nada se encaixar na volta ao alterado cotidiano da sua família que vive em uma casa de praia, na cidade de Cape Cod. Todas as circunstâncias dessa rotina parecem ter se alterado, inclusive sua situação financeira.

Em “At the Sea”, a companhia de dança que a personagem de Amy Adamas herdou do pai coreógrafo também faz água. Sua ausência teve um custo, e Laura parece exausta diante da fila de coisas que precisa resolver em sua vida.

Se a sinopse já não emociona, a condução do filme piora o problema. Adams, que há dois anos se arriscou a viver uma mãe que vira cachorro em “Canina”, tenta dar contornos a seu personagem, mas não sobrevive a um roteiro de clichês, que vão do peso da figura paterna ao hit dos anos 1970 –Barry White, desta vez– para indicar o momento de redenção.

Em evidente contraste, mas fora de competição, “Die Blutgräfin”, algo como a condessa sanguinária, trouxe Isabelle Huppert para a Potsdamer Platz nesta segunda-feira. O filme da artista visual vanguardista e cineasta Ulrike Ottinger reinterpreta a história de Elizabeth Báthory, uma nobre húngara do século 14 que virou uma assassina em série em busca da beleza eterna. O filme apresenta humor negro e doses fartas de absurdo. Na trama, vampiros e um séquito de aduladores recepcionam a condessa em sua reencarnação atual em Viena.

A dúvida da temporalidade de Báthory se reflete no enredo e na capital austríaca, que mistura incessantemente referências clássicas e paisagens atuais. Nada parece fazer muito sentido, a não ser Isabelle Huppert, que parece ter nascido para interpretar uma vampira, com ou sem caninos, e que fala quase sempre em francês num filme alemão.

Se tomado muito à sério, o filme cansa. Se o desafio de assistir for aceito, porém, tente aguentar até a aparição de Conchita Wurz, drag austríaca de barba que venceu o Eurovision em 2014 com a música “Rise Like a Phoenix”. É uma das cenas mais divertidas.