SALVADOR, BA (FOLHAPRESS) – Inventor do trio elétrico ao lado de Dodô, Osmar usava o microfone do trio apenas para falar com o público. Por isso, o microfone ganhou o apelido de “meus amigos”, que era a maneira como ele saudava os foliões.

“Eu, louco para cantar, de vez em quando pegava o ‘meus amigos’ e saía: ‘Pombo-correio’. Dodô, quando via aquilo, ficava puto porque dava microfonia no trio inteiro. O trio só tinha agudo, só tinha boca de alto-falante. Para falar ali, tudo bem, mas na hora que começava a cantar, rapaz”, contou Moraes Moreira no documentário “Filhos de João – O Admirável Mundo Novo Baiano”, dirigido por Henrique Dantas e lançado em 2011.

Mas no Carnaval de 1976, há exatos 50 anos, o problema técnico foi solucionado justamente pela banda que incorporou tão bem o Carnaval à sua obra e à sua maneira de ser.

“Nós resolvemos fazer o trio elétrico dos Novos Baianos da seguinte maneira: a gente achou que para eu cantar, para Baby cantar, pro Moraes cantar, tinha que ter som [específico] de voz. Como é que a gente ia cantar? O trio era só instrumental”, diz Paulinho Boca de Cantor à Folha.

Em 1976, já sem Moraes no grupo, o sonho virou som. Por sugestão do técnico de som Salomão, o grupo musical trouxe os equipamentos que usavam nos shows pelo Sudeste para o tradicional show de verão na Concha Acústica, em Salvador. “Esse show era incrível. O pessoal arrombava a porta para entrar porque não tinha mais ingresso”, lembra Paulinho.

A banda pegou os equipamentos de som de voz do palco e amarraram no trio elétrico, que ficou tão largo que não pôde sair da garagem. “A gente não teve dúvida: derruba o muro, o trio sai, depois a gente constrói o muro de novo. Isso é uma história que o pessoal pensa que é lenda, mas aconteceu mesmo”, garante Paulinho.

Com o equipamento, o caminhão do trio ficou todo preto e ganhou o apelido de Morcegão da Madrugada. Mas a novidade sonora foi mais impactante do que a visual.

“As pessoas ficaram extasiadas! Imagina você: o trio era só instrumental, quando a gente chega com grave, médio, agudo, aquele som amplificado. E aí aconteceu um outro momento mágico: quando a gente começou a cantar virou um show. As pessoas começaram, além de dançar, a ver um show naquele palco móvel”, diz Paulinho.

A iniciativa sonora do Novos Baianos, há meio-século, reinventando a atuação dos trios, mudou a cara do Carnaval. Desde então, artistas surgidos a partir dos trios elétricos devidamente amplificados ganharam fama, mudando o cenário musical e comercial da festa.

“A melhor lembrança que eu tive quando a gente colocou o PA [Public Address], que a gente usava no show, em cima do caminhão foi a emoção de ver as pessoas ouvindo a voz da gente”, diz Pepeu Gomes. “Até então, o cavaquinho que solava as músicas e não tinha voz no trio. Foi um momento muito grandioso na minha vida ser uma das pessoas que colaboraram para que a gente eletrificasse o trio com voz”.

Paulinho entende que a inovação do grupo provocou duas revoluções: uma tecnológica e outra musical. Ele também credita o fim dos bailes ao Morcegão da Madrugada, que estendeu a folia nas ruas de Salvador, tirando a exclusividade do horário que os clubes tinham. O cantor ainda diz que outra marca do Carnaval de Salvador foi resultado daquela aventura do Novos Baianos: o encontro de trios.

“Quando nós inventamos esse Carnaval da madrugada, no primeiro ano nós fizemos uma decoração bem tropicalista, botamos umas bananeiras em cima. Quando nós subimos, quem vinha chegando? Armandinho, Dodô e Osmar”, conta Paulinho. “Ninguém foi embora, o dia amanhecendo e nós acabamos a festa com o Hino do Senhor do Bonfim”.

No Carnaval deste ano, Paulinho Boca de Cantor segue embalando foliões. Na sexta-feira 13 de Carnaval, ele tocou na praça Castro Alves, lugar significativo para a história do Novos Baianos. Do palco, ele pediu que se coloque uma estátua para Moraes Moreira ali na praça, medida que chegou a ser anunciada pela prefeitura em 2021, mas ainda não se concretizou.

“O Moraes é muito vivo no Carnaval, ele é muito vivo no Novos Baianos, ele é muito vivo na vida da gente. Moraes é tão vivo que parece que eu falo com ele todo dia”, diz Paulinho. “Ultimamente, ele ligava dez vezes para mim por dia e minha mulher dizia: ‘seu namorado tá no telefone’. A gente sempre foi muito unido”, completa.

Em junho, Paulinho Boca de Cantor completará 80 anos, mas já está comemorando a data neste Carnaval.

“É um privilégio pra mim, como músico, estar convivendo com La Bouche, Paulinho Boca, meu amigo família, meu amigo Novos Baianos, meu mestre. Sempre dando bons conselhos pra gente, sempre orientando a gente pra situações difíceis. Eu tenho um amor muito grande pelo Paulinho e desejo a ele muitas felicidades nesses 80 anos”, diz Pepeu Gomes, que completou 74 anos no último dia 7 e já foi até Rei Momo do Carnaval de Salvador em 2010.

A chegada dos 80 é combustível para relançamentos e projetos com novos e velhos parceiros de Paulinho, como o flautista Tuzé de Abreu, com quem está fazendo uma música, com versos de Paulinho que falam sobre a continuidade dos sonhos apesar da passagem do tempo.

“A idade chegou, mas não me encontrou”.