PEQUIM, CHINA (FOLHAPRESS) – A ONG China Labor Watch encontrou indícios de que trabalhadores de uma fábrica de brinquedos responsável pela produção de Labubus, pequenos monstros de pelúcia que se tornaram febre nos últimos anos, enfrentam condições precárias de trabalho, além de exploração.

Uma unidade da Shunjia Toys, empresa apontada como uma das principais produtoras do brinquedo, estaria envolvida em fraudes contratuais, terceirização ilegal, exploração de menores, jornadas exaustivas e condições degradantes de alimentação e descanso dos empregados.

A fábrica produz as mercadorias em nome da Pop Mart, dona do licenciamento e da distribuição dos Labubus pelo mundo, o que faz, segundo a ONG, com que a exploração identificada na manufatura esteja “intrinsecamente ligada à responsabilidade corporativa” e à “integridade ética” da empresa.

À Folha, a Pop Mart afirmou que leva a sério o bem-estar e a segurança dos trabalhadores e que realiza auditorias regulares e padronizadas nas cadeia de suprimentos. “Caso as constatações sejam confirmadas, exigiremos firmemente que os parceiros envolvidos implementem ações corretivas abrangentes, de acordo com as leis e regulamentos locais”, declarou, em nota.

A Shunjia Toys também foi contatada via email, mas não respondeu até a publicação desta reportagem.

Com cerca de 4.500 funcionários, a fábrica é especializada na produção de brinquedos de pelúcia de alto padrão e figuras colecionáveis, como o Labubu. O personagem é uma obra do artista Kasing Lung, de Hong Kong, e como brinquedo ganhou projeção global quando uma artista de K-pop da banda Blackpink postou fotos com os bonecos.

Para o relatório, pesquisadores fizeram entrevistas presenciais com 51 dos cerca de 4.500 funcionários dentro e fora do ambiente de trabalho. Além do testemunho direto, a investigação cruzou dados de contratos, registros de treinamento, holerites e controles de ponto, com o objetivo de alcançar uma visão detalhada da estrutura operacional da fábrica.

As entrevistas abordaram recrutamento, contratos, jornada de trabalho, salários, horas extras, segurança ocupacional e condições dos dormitórios e do refeitório, entre outros assuntos.

Os funcionários relataram ser submetidos a reuniões não remuneradas antes do início dos turnos, além de restrições para ir ao banheiro e beber água, sob risco de punição verbal. O documento diz ainda que mulheres sofriam assédio sexual verbal por funcionários homens e, mesmo diante de denúncias, os superiores não tomavam providências.

Segundo o relatório, trabalhadores relataram que foram instruídos a assinar contratos em branco, preenchendo apenas dados pessoais. Cláusulas vitais, como remuneração, jornada e seguridade social, eram deixadas vazias para preenchimento posterior pela empresa. Sob pressão para assinar imediatamente, operários afirmaram que nem sequer tinham acesso ao conteúdo do acordo.

A investigação também apontou que cerca de 30% da força de trabalho da fábrica é composta por terceirizados, valor acima do limite de 10% permitido pela legislação local. Esses trabalhadores desempenhariam funções idênticas às dos regulares por longos períodos, o que descaracteriza a natureza temporária da contratação.

O documento afirma ainda que a fábrica emprega adolescentes de 16 anos que, embora tenham idade legal para trabalhar, são submetidos à mesma disciplina e às mesmas cargas horárias direcionadas aos adultos, sem as salvaguardas determinadas pela legislação para esta faixa etária.

Os anúncios de recrutamento apontavam pagamentos muito superiores aos praticados pela empresa, segundo a ONG. Embora encartes destacassem que os operários poderiam ganhar entre 4.000 e 13 mil yuans chineses por mês (de R$ 3.000 a R$ 10 mil), os funcionários afirmaram aos pesquisadores que raramente os salários reais se aproximavam do limite superior da faixa. Segundo eles, alcançar um salário líquido acima do piso só era possível por meio de jornadas exaustivas, e não em condições razoáveis de trabalho.

Os refeitórios disponíveis são apontados como inadequados para atender os milhares de funcionários, resultando em superlotação e refeições insuficientes para todos, além de higiene precária.

A ONG recomenda que a empresa adeque jornada e horas extras à legislação local, regularize a contratação de trabalhadores terceirizados, garanta o recolhimento de seguro social, elimine multas e descontos considerados abusivos, assegure licença médica e férias remuneradas, melhore as condições de saúde e segurança no trabalho e nos alojamentos e estabeleça mecanismos de denúncia acessíveis e anônimos, além de compensar trabalhadores por eventuais valores devidos.