SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Eles vestem preto dos pés à cabeça, usam óculos escuros e tratam de temas existenciais. Com base nisso, é tentador classificar o Unto Others como apenas mais uma banda gótica.
Mas o grupo americano -que vai tocar no Brasil pela primeira vez, num show único em São Paulo dia 28 de março, na Burning House- tem também uma pitada de humor nas músicas, algo não tão comum nas bandas do tipo, de modo que o ouvinte deixa escapar aquele sorriso contido de canto de boca ao dar play, por exemplo, numa faixa sobre suicídio.
“Suicide Today” aborda o tema com a seriedade necessária e também com uma leveza inesperada em seus três minutos de duração. Na letra, o narrador pede para os suicidas em potencial não tirarem as suas vidas, porque afinal todos vamos morrer cedo ou tarde. “Então espere mais um dia”, diz o verso final.
A letra vem embalada numa sonoridade que lembra Ramones, boa de dançar e com refrão para cantar junto. Ao mesmo tempo, o solo de guitarra e algumas passagens de bateria poderiam estar numa banda de heavy metal, enquanto o vocal grave dá a tudo o tom macabro típico de banda gótica.
“Eu sei que temos um tom meio sombrio, mas eu gosto muito de música que tenha energia, que emocione as pessoas, seja física ou emocionalmente”, diz o vocalista Gabriel Franco, numa conversa por vídeo, acrescentando que busca fazer canções rápidas, pegajosas e fáceis de serem ouvidas. As canções da banda poderiam estar na trilha de filmes de terror da sessão da tarde.
Formado em 2017 em Portland, o quarteto é hoje uma das bandas mais quentes da nova geração do rock, agradando tanto a fãs de Sisters of Mercy e Depeche Mode quanto a metaleiros afeitos a Type O Negative e Paradise Lost. Eles têm três discos, sendo o último, “Never, Neverland”, de 2024, o que o vocalista afirma ter sido o pico de sua exploração musical.
Franco, hoje com 34 anos, conta que já adolescente pensava sobre o fim da vida, o momento exato de sua morte e sobre morrer sozinho, mesmo que fosse segurando a mão de outra pessoa. Contrário ao que possa parecer, ele não fala disso com pesar, e sim como alguém que lida com o inevitável, valendo-se de sua fixação para criar música.
“Quando eu estava escrevendo alguns dos nossos primeiros trabalhos, eu tinha 27 anos, e naquele momento eu pensava ‘o que estou fazendo com a minha vida?’, ‘o que já fiz da minha vida?’. Sabe, é um piscar de olhos. Eu vou acordar amanhã e vai ser meu último dia aqui.”
Embora o disco mais recente da banda seja seu mais conhecido, no rastro do público crescente do conjunto e de uma turnê nos festivais do verão europeu do ano passado, o show em São Paulo terá músicas dos outros dois álbuns e de EPs mais antigos, dando um panorama do trabalho do Unto Others, agora em sua primeira excursão pela América Latina.
O vocalista conta que está na fase final de escrita do novo disco, para gravar as músicas em junho e depois pensar num single e num videoclipe para saírem, idealmente, até o fim de 2026.
Em relação ao rótulo de banda gótica, Franco oscila. Ele diz que não gostaria de ser colocado somentre neste escaninho, mas reconhece que “seria estúpido dizer que não somos góticos” dado o visual, o som e as letras do grupo. O segredo talvez seja não se preocupar com rótulos.
“Dizer que somos uma banda gótica é meio tosco. É como se você fosse punk -você não pode dizer ‘eu sou gótico’, sabe? É tipo, dane-se tudo, esse é o ponto, né?”



