SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A poeta caminha a passos lentos sem saber que o perigo está à espreita. Com os olhos perdidos nas páginas de um livro, ela ignora a assassina que segue cada um de seus movimentos. De repente, o corpo da escritora tomba inerte sobre o palco. Já não há leitura ou caminhada. A poeta está morta.
Mais do que assassinar uma pessoa, a personagem de Clara Carvalho na peça “Projeto Wislawa” almeja eliminar um ideal.
Em cartaz no Teatro Paulo Eiró, na capital paulista, o espetáculo tem como fio condutor um atentado contra a poeta polonesa Wislawa Szymborska, ganhadora do Nobel de literatura em 1996. A produção, porém, não tem qualquer pretensão biográfica. Na vida real, a artista não foi assassinada, mas morreu de forma tranquila enquanto dormia, aos 88 anos.
O diretor e dramaturgo Cesar Ribeiro decidiu, no entanto, reescrever a história de Szymborska para refletir sobre a perseguição à arte.
Na peça, é como se a poeta polonesa encarnasse a beleza, o lirismo e a sensibilidade. No outro extremo, a sua assassina materializa a antítese de todos esses princípios. Enquanto um lado evoca a vida e a criação, o outro representa a morte e a destruição.
Esse embate é traduzido na cenografia por meio da presença no palco de uma cadeira elétrica e de um carrinho de bebê, objetos que parecem anunciar o fim e o começo.
“É uma peça que fala sobre a tentativa permanente de desqualificar a poesia e de ridicularizar a arte, fazendo dela algo desnecessário”, diz Vera Zimmermann, que dá vida no espetáculo a Szymborska, além de outras três personagens.
“Acho que é um trabalho bastante atual, porque nós passamos quatro anos vivendo a destruição da arte.”
A artista se refere ao governo de Jair Bolsonaro, político que criticou diversas vezes a classe artística e promoveu um desmonte do Ministério da Cultura durante a sua gestão.
“Nós fomos sobreviventes desse período. Isso reverbera até hoje e a gente tem a consciência de que talvez essas reverberações nunca acabem. Afinal, os destruidores da arte estão por aí.” Sobreviver, aliás, foi um verbo que Szymborska precisou conjugar bastante ao longo da vida.
Nascida no vilarejo de Bnin, ela se mudou ainda criança para Cracóvia, onde testemunhou os horrores da ocupação nazista, durante a Segunda Guerra Mundial. Após o fim do conflito, viveu sob o jugo do regime comunista, que chegou a censurar o seu primeiro livro, lançado em 1949.
A artista, no entanto, nunca se rendeu à aridez tão característica daquele período, algo que deixou claro em um de seus poemas mais célebres. “Sou, mas não tenho que ser filha da minha época”, escreveu ela, em “Elogio dos Sonhos”.
Por esse motivo, seus versos deixavam de lado a dureza e a solenidade em favor de uma linguagem simples, acessível e, por vezes, zombeteira. É isso o que se observa em poemas como “Agradecimento”, “Um Grande Número” ou “Sob uma Estrela Pequenina”.
Assim como a poeta, as atrizes em cena têm o humor de quem não se leva a sério demais. Exemplo disso é quando Zimmermann declama “Visto do Alto” –uma poesia em que Szymborska reflete sobre a morte.
No lugar de adotar um tom solene ou grandioso, a artista diz os versos como se fosse uma criança, gesticulando de forma exagerada num flerte com o farsesco. “A direção do César escolhe ir ao extremo, no limite da interpretação. Ele não acredita nesse naturalismo, e sim num teatro expressionista.”
Essa intensidade toda se traduz também por meio das canções que tocam ao longo da peça, uma escolha sonora que conta com pop e clássico. Em dado momento, as personagens começam a dançar ao som de “Hello”, parceria do DJ francês Martin Solveig com a banda Dragonette.
“É uma fricção de universos”, diz Clara Carvalho, que vive no espetáculo a assassina da poeta. “É o encontro entre a sutileza dos poemas dela e esse impacto sonoro extremado e desconcertante que a direção propõe.”
Embora conhecida pela sutileza, a produção de Szymborska muitas vezes aborda temas espinhosos, como a tragédia e a violência. Evidência disso é “Fotografia de 11 de Setembro”, um dos poemas lidos durante o espetáculo. Nos versos, a polonesa descreve a imagem de pessoas se jogando das Torres Gêmeas durante o atentado terrorista de 2001.
“Só posso fazer duas coisas por elas -descrever esse voo e não acrescentar a última sentença”, escreveu a artista, no final da poesia.
Szymborska também era conhecida por usar a arte para refletir sobre a própria arte, criando um exercício metalinguístico que se faz presente em diferentes momentos da peça.
“Em outros poemas, ela fala muito sobre o cotidiano, ou seja, sobre aqueles momentos que parecem não ter importância, mas que se tornam interessantes por meio da arte”, diz Carvalho. “Para mim, é um trabalho que ressalta a importância da delicadeza e do olhar atento.”
Projeto Wislawa
Quando Qui. a sáb., às 18h, e dom., às 19h. Até 1º/3
Onde Teatro Paulo Eiró – av. Adolfo Pinheiro, 765, Santo Amaro
Preço R$ 20
Classificação 12 anos
Elenco Clara Carvalho e Vera Zimmermann
Direção Cesar Ribeiro




