SÃO LUÍS, MA (FOLHAPRESS) – Em um casarão do século 18, no centro histórico de São Luís, o movimento nas escadas de madeira do Laborarte, uma das casas de cultura mais antigas do Maranhão, é frenético. Crianças, jovens e adultos carregam máscaras, roupas divertidas e fitas coloridas que brilham sob a luz baixa do entardecer. Da sacada ao pátio, o clima é de preparação e entrega: enquanto se adornam, afinam os instrumentos musicais, e o som começa a tomar forma, no compasso de uma tradição que se renova a cada Carnaval.
No número 42 da rua Jansen Müller, o ensaio no Labô, como o espaço ficou conhecido na classe artística, é conduzido pelo Baralho do Balaio, grupo formado por 20 integrantes, sob a liderança de uma das artistas mais criativas do pedaço: a produtora, cantora e dançarina Rosa Reis, 66.
“Nosso espetáculo é muito diversificado”, afirma, com a energia de quem vive e respira a festa. “É uma mistura de tambor de crioula, batucada de samba, tribos de índio”, explica, refletindo a riqueza cultural que se entrelaça nas ruas da cidade velha. Mas o tom de nostalgia se impõe quando ela lamenta: “Infelizmente, muita coisa dos grupos tradicionais vem se perdendo ano após ano”.
O tambor de crioula, por exemplo, é uma dança vibrante que gira em torno de uma roda de mulheres com saias coloridas, entre cantos e a tradicional “punga” (umbigada), uma expressão de devoção a São Benedito e um símbolo de resistência ancestral.
Como o nome já sugere, as tribos de índio reconstituem figuras de guerreiros, caciques e feiticeiros, com suas fantasias adornadas por cocares, penas e peles, enquanto dançam ao ritmo de um batuque acelerado, cuja cadência ecoa como expressão de resistência, preservando as raízes da cultura maranhense.
O próprio Baralho do Balaio é uma manifestação que funde esses elementos à folia de rua tradicional, trazendo batucada, marchinhas, carimbó e os toques das caixeiras. Suas expressões artísticas ainda incorporam movimentos do cacuriá, dança típica popularizada nos festejos juninos, cuja origem remonta aos anos 1970, como parte profana da Festa do Divino Espírito Santo.
Imira Brito, 43, dançarina e filha de Rosa, conta que o desfile do Balaio é, além de uma manifestação negra e feminina, na qual somente mulheres tocam os instrumentos de percussão, um espaço onde as letras do grupo brincam com frases de duplo sentido, carregadas de crítica e humor.
Ela afirma, entretanto, que o objetivo do cortejo é fortalecer a existência e a visibilidade desses grupos tradicionais maranhenses, que ainda resistem ao tempo e à marginalização cultural.
Mãe e filha integram ainda outro grupo, o Balaio de Rosas, antes conhecido como o Cacuriá de Dona Teté, que também tem sua origem nas festividades religiosas do Divino, cuja programação de apresentações é intensificada durante os eventos juninos.
Como se não bastasse botar de pé o tradicional Carnaval da Segunda, que reúne diferentes grupos em sua sede no centro histórico, nesta segunda (16), o Baralho do Balaio também participa do circuito Vem pra Madre, que celebra a diversidade de palcos e ritmos da folia, trazendo uma rica mistura de sons e movimentos que refletem a alma do Carnaval maranhense.
Madre é a abreviação de Madre Deus, um bairro que, há pelo menos 300 anos, é o berço de núcleos culturais e folclóricos, celeiro de artistas, poetas, músicos e compositores ludovicenses. Um território marcado pela presença de personagens que sustentam, há gerações, a vida cultural do Maranhão.
Somente os três palcos montados no bairro mais festeiro de São Luís vão receber 216 apresentações, com todos esses ritmos típicos do estado, durante os dias de folia.
“Somos pequenos pontos de luz que tentam manter viva a tradição cultural maranhense”, explica José Pereira Godão, de 69 anos, 41 deles liderando a Companhia Barrica, um dos grupos de bumba meu boi mais tradicionais do Maranhão. Ele também é diretor e criador de outra manifestação originalíssima, o Bicho Terra.
A sede do grupo fica no largo do Caroçudo, onde dois palcos são montados para receber diferentes expoentes do tradicional Carnaval de rua. “Somos peregrinos de nós mesmos”, diz Godão.
Neste ano, o grupo deve superar a marca de 80 “bichinhos”, como são chamados seus integrantes. Em uma fusão de ritmos regionais, eles desfilam com fantasias que representam os quatro elementos da natureza. Entre os personagens, destacam-se o fogo, a água e a mata (terra), criando um espetáculo visual e sonoro que celebra a conexão ancestral com a natureza.
“É uma homenagem aos povos originários, aos negros e também ao branco colonizador”, explica Godão. “Estamos numa peleja permanente. Apesar do grupo existir desde o início dos anos 1990, cada Carnaval é uma estreia.”
Essa perspectiva reflete a renovação constante da tradição, na qual, a cada Carnaval, o grupo reafirma sua luta pela preservação cultural.
Em Madre Deus, berço efervescente de talentos, é comum ouvir as pessoas se referirem a alguns blocos carnavalescos como “baralho”, devido à mistura de fantasias de diferentes “naipes”, simbolizando a diversidade e a irreverência da celebração. O termo “sujo”, por sua vez, faz referência a um antigo gesto de “banhar” os foliões com maizena ou farinha de tapioca, outra tradição que ainda persiste fortíssima nas ruas do bairro.
Espécie de enciclopédia carnavalesca, João Álvaro Costa, o João do Sá Viana, 72, integra, desde 2013, o Fuzileiros da Fuzarca, o bloco mais antigo do Maranhão que, recentemente, comemorou 90 anos de história. “Somos o samba, o legado do Carnaval, da festa popular e de seus anos de glória”, diz ele, de voz mansa e sorriso largo.
Maranhense da mesma terra que deu ao país os versos de Gonçalves Dias (1823-1864) e Ferreira Gullar (1930-2016) e a voz de cantantes como Alcione, Pabllo Vittar e Zeca Baleiro, ele fala como quem carrega o próprio estado no peito e no compasso da memória.
Na sede do grupo, onde a imagem de São Lázaro, padroeiro dos pobres e dos enfermos, vigia o ambiente, a turma, formada por rapazes de 18 anos a bisavós de 90 e tantos, todos pretos ou quase pretos, reúne-se para servir “um vinhozinho” e animar a galera veterana.
“Aqui estão os foliões mais longevos do Carnaval de São Luís”, afirma o carnavalesco. “As modernizações são inevitáveis, mas nos festejos de rua de Madre Deus quem manda é a tradição”, completa Sá Viana, agora, gargalhando, ao reafirmar a força da continuidade e a celebração das raízes que ainda pulsam nas ruas de um dos Carnavais mais singulares do Brasil.
Os jornalistas viajaram a convite do governo do estado



