SALVADOR, BA (FOLHAPRESS) – Nas ruas de Itapuã, em Salvador, tamborins, repiques e agogôs dão o tom do Carnaval. Com cerca de cem associados, a escola de samba Unidos de Itapuã desfila pelas principais vias do bairro com as alas das baianas, dos malandros e das crianças, além de uma bateria afiada.
Na terra dos trios elétricos, do axé music e dos blocos afro e afoxés, uma tradição de sete décadas persiste nos bairros da periferia. As escolas de samba buscam seu espaço no Carnaval de Salvador após um período de apogeu anos 1960 e 1970 e declínio acentuado a partir dos anos 1980.
A partir dos anos 2000, surgiram a Unidos de Itapuã, Filhos da Feira de São Joaquim e Diamante Negro, que desfilam com alguma regularidade no Carnaval, no pré-Carnaval e em festas populares como a Lavagem de Itapuã. Foram criadas tendo como inspiração as escolas que fizeram história em Salvador.
“Quando a gente vê a grandiosidade e começa a conhecer a história das escolas de samba, é possível ver a importância do samba em Salvador”, afirma Nailton Maia, 49 anos, gestor e fundador da Unidos de Itapuã.
Os desfiles oficiais das escolas de samba da cidade começaram em 1957 e se mantiveram até 1985. Seu ocaso coincide com ascensão do modelo de Carnaval com trios elétricos, embalado pelo axé music, além da consolidação dos blocos afro, afoxés e blocos de índio.
A origem das escolas de samba baianas remonta aos anos 1950, quando os grupos se organizaram nos bairros populares da capital a partir de cordões carnavalescos e batucadas.
Se os baianos e baianas levaram para o Rio de Janeiro as tradições da cultura afro-brasileira e o samba de roda do Recôncavo no final do século 19, em meados do século 20 a rota foi contrária: a influência do Carnaval do Rio impulsionou a criação das escolas de samba em Salvador.
O modelo carioca de Carnaval foi adotado, com uma percussão reforçada, além de um desfile organizado em alas e embalado por um samba-enredo.
A primeira escola de samba de Salvador, a Ritmistas do Samba, foi fundada em 1957 a partir de dissidentes da batucada Nega Maluca, que desfilava na região da Preguiça. Nos anos seguintes, surgiram grupos como Juventude do Garcia (1959), Filhos do Tororó (1963) e Diplomatas de Amaralina (1966).
O projeto Memórias do Reinado de Momo, coordenado pelos professores Paulo Miguez e Caroline Fantinel, identificou 49 escolas de samba em Salvador no período entre 1950 e 1975, embora pouco mais de uma dezena tenha alcançado a estrutura exigida para competir em alto nível.
Em geral, as agremiações eram fortemente ligadas aos seus bairros e protagonizadas por negros e mestiços, que deram forma local ao modelo carioca.
As entidades foram uma escola para artistas que despontariam nos anos seguintes. O compositor Paulinho Camafeu, autor de sucessos do axé e de blocos afro, debutou no Carnaval na escola Ritmistas do Samba e chegou a ser mestre-sala da Unidos do Vale do Canela.
O cantor Lazzo Matumbi conheceu os instrumentos de percussão na escola de samba Juventude do Garcia, onde foi diretor de bateria. Saiu do grupo ao perceber que havia preconceito -os percussionistas das escolas não eram tidos como músicos, mas sim como batuqueiros.
O samba segue como um dos protagonistas do Carnaval baiano, seja na tradição do partido-alto, em blocos como Alerta Geral, Amor e Paixão, Pagode Total e Proibido Proibir, seja pela vertente do pagodão baiano.
Neste ano, o samba é o tema do Carnaval em Salvador e foi homenageado na abertura oficial. Mesmo assim, as escolas de samba ficaram de fora dos principais circuitos da festa. A Unidos de Itapuã desfilou apenas no circuito das Águas, no próprio bairro, percorrendo o trecho entre a lagoa do Abaeté e a orla.
A Diamante Negro também desfilou no seu bairro, o Novo Marotinho. Já a Filhos da Feira participou do Fuzuê, pré-Carnaval organizado pela prefeitura, desfilou no Pelourinho e fecha do Carnaval nas ruas da Liberdade.
“O axé toma conta de tudo, a gente não tem espaço. O tema do Carnaval é samba, e a gente ficou de fora”, critica Pablo Maia, gestor da Unidos de Itapuã. Ele é defensor da criação do Afródromo, ideia de Carlinhos Brown para um novo circuito para afros, afoxés e outras entidades, que não prosperou.
A Unidos de Itapuã, que surgiu a partir de uma escola de percussão para jovens de baixa renda, faz um trabalho social no bairro e foi reconhecida pela prefeitura como um ponto de cultura. Mas a meta da escola é crescer, ganhar espaço e recriar uma cultura de escolas de samba em Salvador.
“O samba nasceu aqui na Bahia, né? Então, seria bom retomar essa tradição. A gente toca por amor, e quando a galera canta nosso samba-enredo é surreal. Não tem explicação”, afirma Ingrid Gonçalves, 23, diretora de bateria da escola.



