PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) – A articulação entre PT e PDT para atrair um ao outro em uma frente ampla progressista na disputa pelo governo do Rio Grande do Sul esbarra na insistência dos dois partidos em não abrir mão da cabeça de chapa.

Na quarta-feira (11), o presidente Lula (PT) recebeu a ex-deputada estadual Juliana Brizola (PDT) e o presidente do PDT, Carlos Lupi, no Palácio do Planalto, para uma reunião sobre o cenário eleitoral gaúcho.

A avaliação de lideranças pedetistas é que a esquerda tem mais chances de vencer se o PT abrir mão da candidatura própria e aceitar integrar a aliança da neta de Leonel Brizola (1922-2004). Se aceitar, o PT do Rio Grande do Sul pode não lançar um candidato ao governo do estado pela primeira vez em sua história.

Carlos Lupi disse pelas redes sociais que a conversa foi um diálogo “franco e respeitoso”, e que Lula “ouviu com atenção” o pedido de apoio à pré-candidatura.

Lupi já havia se reunido com o presidente nacional do PT, Edinho Silva, no dia 4, para debater a aliança, e afirmou nas redes sociais que teria recebido compromisso do PT de apoiar a candidatura de Juliana, o que o diretório do PT nega.

O nome do presidente da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), Edegar Pretto (PT) era tratado como certo na disputa nos últimos meses e ventilado desde o primeiro turno das eleições de 2022, quando o petista quase impediu a reeleição de Eduardo Leite (PSD). Na ocasião, Leite avançou ao segundo turno por uma diferença inferior a 2.500 votos.

O PDT gaúcho já bateu o martelo pelo apoio à reeleição de Lula, e Pretto e Brizola já afirmaram ter interesse na formação de uma frente ampla de esquerda em nível estadual. Os dois pré-candidatos afirmam publicamente que não vão abrir mão de suas candidaturas.

Juliana publicou nas redes sociais uma foto com Lupi e Lula logo após a reunião, com um recado ao PT: “Respeito o tempo de cada partido e saio deste encontro confiante e esperançosa, com a certeza de que estamos construindo um projeto sério para o nosso Estado”.

A última disputa eleitoral de Juliana Brizola foi em 2024, quando tentou a prefeitura de Porto Alegre e ficou em terceiro lugar, com 19,6% dos votos.

O prefeito Sebastião Melo foi reeleito no segundo turno com 61,53% dos votos, contra 38,47% da deputada federal Maria do Rosário (PT).

Juliana se coloca como o nome mais forte para derrotar a direita em segundo turno, estratégia semelhante à adotada por sua campanha em 2024, quando tentou atrair votos de Maria do Rosário se apresentando como a candidata com mais chances de vencer Sebastião Melo.

Na época, ela também se apresentava como uma alternativa à polarização entre o PT e a direita, que integra a base do prefeito. Recebeu apoio do governador Eduardo Leite, que ecoa discurso semelhante em seus planos políticos nacionais.

Segundo o presidente estadual do PT, deputado estadual Valdeci Oliveira, já houve “três ou quatro” reuniões com o PDT e o PSB, que ainda não definiu apoios.

“Nós já temos um passo dado, que é uma mesa pró-Lula com oito partidos aqui no Estado. Isso já é importante”, disse Valdeci.

Ele afirma que o partido trabalha para replicar esse apoio à candidatura de Pretto, mas vê legitimidade na construção de uma candidatura pelo PDT.

“Vamos trabalhar bastante para que a gente possa ter o máximo de unidade, mas não vamos nos dividir se porventura sair mais do que uma candidatura nesse campo. Organizado, é claro, para que possamos estar juntos no segundo turno.”

O bom resultado de Edegar Pretto em 2022 animou a base do partido, que já governou o estado com Olívio Dutra (1999-2002) e Tarso Genro (2010-2014) e esteve à frente da capital, Porto Alegre, entre 1988 e 2004.

Em 2022, Jair Bolsonaro (PL) fez 56,35% contra 43,65% de Lula. Entretanto, Leite derrotou o candidato bolsonarista Onyx Lorenzoni por 56% a 44% no segundo turno, com apoio crítico do PT estadual.

Neste ano, o PL deve lançar o deputado federal Luciano Zucco em uma chapa de direita com o PP e o Novo, enquanto Leite articula a candidatura do seu sucessor, o vice-governador Gabriel Souza (MDB), ao centro.

Filho do deputado federal Adão Pretto (1945-2009), fundador do PT e do MST e amigo pessoal de Lula, Edegar Pretto vê o momento atual como mais favorável do que na eleição anterior, quando Bolsonaro ainda era presidente e Lula havia recuperado seus direitos políticos havia pouco tempo. “Eu comecei a minha pré-candidatura com 4% nas pesquisas e terminamos com quase 27%”, disse.

O resultado impressionou o PT nacional, e Pretto foi escolhido por Lula como presidente da Conab, responsável pelos estoques públicos de alimentos.

Pretto articula uma caravana em 27 cidades do estado para encontros com a militância e construção de um plano de governo. Segundo ele, a prioridade é garantir que Lula vença no estado, o que não acontece desde 2002.

“Queremos ter o PDT caminhando conosco, se possível, já no primeiro turno. É a nossa vontade ter esse palanque, que é uma oportunidade para a reeleição do presidente Lula”, disse Pretto.

Ele vê com naturalidade a reunião de Lula com os pedetistas no Planalto. “O encontro do presidente com a ex-deputada Juliana e com o presidente nacional do PDT é um gesto de quem é pré-candidato, assim como eu sou.”

Pretto afirma que a candidatura própria está consolidada e atende às demandas da militância estadual, mas mantém boa relação com o PDT. “Obviamente, não faltará de nós todo o esforço, mas se não for possível no primeiro, será por certo, no segundo turno”

Hoje, a aliança entre PT, PCdoB, PSol, PV e Rede tem 14 dos 55 deputados estaduais, oito federais dentre 35 e o senador Paulo Paim, único petista representando o Sul do país na Câmara Alta.

Sem Paim, que optou por não buscar um quarto mandato, o PT já se apresenta com uma chapa montada e a vaga de vice livre.

Os candidatos ao Senado serão a ex-deputada Manuela D’Ávila, que trocou o PCdoB pelo PSOL, e o deputado federal Paulo Pimenta (PT).

Pimenta foi braço-direito de Lula como ministro extraordinário da Reconstrução do RS após a tragédia climática que matou 185 pessoas, desalojou quase 600 mil e causou danos bilionários à economia.