SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – No início da tarde deste domingo (15) de Carnaval em São Paulo, o público do Bloco do Litraço, que celebra uma década de folia neste ano, coroou sua princesa de bateria.

A homenageada foi Manoella Gomes, 10. A cerimônia foi a última etapa da concentração do grupo antes do desfile, iniciado na rua Dr. Octacílio de Carvalho Lopes, no Jardim São Luís, na zona sul de São Paulo.

O cenário é diferente do que tem sido visto nos megablocos organizados pela prefeitura na cidade. Crianças corriam durante uma aula de dança antes do desfile, jogando espuma umas nas outras. Amigos de vizinhança se cumprimentavam ao chegar ao local da festa, enchendo a rua de gente das mais variadas idades.

O ano de comemoração da primeira década é também o primeiro em que o Bloco do Litraço conseguiu receber verba de fomento da prefeitura para o Carnaval.

“Vem muita criança no bloco, então conseguimos montar essa coroação da princesa, o concurso de marchinhas e também distribuição de confete e tiara para as crianças”, conta a produtora cultural Ane Solar, que também está na organização do bloco pela primeira vez.

Tradicionalmente tocado por um dos fundadores, o trompetista Gabriel Leite, 37, conhecido como Bel, e sua irmã, Maristela Leite, 39, o Litraço tem saído, ao longo dos anos, com apoio dos organizadores e dos comerciantes locais, como costuma acontecer com os grupos carnavalescos periféricos.

Agora, relata a produção, há uma centralização das decisões no poder público, e os acordos locais ficaram mais difíceis. Ambulantes, por exemplo, só os cadastrados segundo as regras da gestão Ricardo Nunes (MDB), que tem na Ambev a maior patrocinadora da folia e a detentora dos direitos de comércio de bebidas.

A produção também aponta falta de apoio da gestão municipal em outras questões. “A prefeitura não está distribuindo água nos blocos da periferia. Não tem água nem para os policiais que farão a segurança, nós é que vamos entregar”, afirma Ane.

Um ambulante de adereços de fantasia, espuma e confete relatou à reportagem que tenta a sorte para vender os produtos, embora tenha receio da fiscalização. Para ele, não compensa o modelo da prefeitura, que ele diz determinar uma localização fixa por 30 dias. Assim, fica inviável acompanhar os blocos, afirma.

Procurada, a gestão municipal não respondeu sobre a falta de distribuição de água no cortejo. A Sabesp, por sua vez, enviou à reportagem a lista de bairros acordados com a prefeitura em que prestaria o serviço –o Jardim São Luís não está entre eles.

Sobre os ambulantes, a prefeitura limitou-se a dizer que o cadastro é feito pela Ambev.

A característica de ser um “bloco família” é uma das primeiras apontadas pelos frequentadores, além da forte identificação do Litraço com a comunidade local. O saxofonista Ktatau, apelido de Danilo Piovani, 33, outro dos fundadores, vê no bloco a maior festa do bairro.

“Já arrastamos mais de 4.000 pessoas atrás do bloco”, destaca o trompetista Bel.

Neste domingo, antes de o desfile começar, os recados no trio elétrico anunciavam o aniversário de 89 anos de um morador do Jardim São Luís, com direito a parabéns, e relembravam as regras, como “não é não”, contra o assédio, tolerância zero com racismo e LGBTfobia, e a principal: a festa é para as crianças. Criança, no Litraço, pode fazer o que quiser.

O bloco surgiu, conta a dupla Bel e Ktatau, a partir de ensaios embalados por uma coleção de músicas dada a Bel por seu professor de música, Felipe Pipeta, da Orquestra Brasileira de Música Jamaicana. E regados, como sugere o nome da agremiação, a cerveja em garrafas de litro.

Em 2015, os dois tocaram no Bloco do Beco, uma espécie de irmão mais velho do Litraço. “Sabendo só duas marchinhas”, lembra Ktatau.

Daí surgiu a ideia do primeiro desfile, que foi completamente “fora da norma”, como define o pai de Bel, Dionísio Leite de Sá, 71. “Fizemos a voltinha aqui nas ruas, mas sem nada, tudo errado pelas normas. Foi na raça. Mas nunca teve encrenca, até hoje é um bloco familiar.”

A folia começou no Bar do Prudente, em tradição que se mantém até hoje, apesar de o local já não funcionar mais. Durante a passagem pela rua, os foliões e a bateria param para cantar uma marchinha composta para Zé, filho de Prudente –ambos já falecidos.

Com o sol forte e céu aberto, o público aplaudiu e saudou a princesa do bloco, Manoella, coroada pela rainha de bateria do Bloco do Beco, Iara Trindade. “Gente, eu tô muito feliz, muito mesmo”, disse a homenageada, que se emocionou no discurso. “Amo muito esse bloco, vocês, minha mãe, irmã, padrasto e amigas.”

E mostrou o samba à altura da coroa. “Nós já a trazemos há alguns anos, ela gosta muito de música no geral. Eu sou doida por samba, cheguei a sair pela Vai-Vai quando criança. Ela é a realização do meu sonho”, disse a mãe, Nayara Gomes, 38.

E se o Litraço já atravessa gerações, também é lugar de reencontros. É o caso de amigos de escola que retomaram contato e passaram a frequentar o bloco. “Hoje moro no M’Boi Mirim, aqui perto, mas nasci e estudei aqui, minha família é toda daqui”, afirmou Lucimara Costa.

“É ótimo para reencontrar o pessoal do bairro, os amigos das antigas. Aqui nos sentimos em casa”, disse Luiza Mello, 52.

O reencontro vale também para quem nunca havia curtido a folia do Litraço. “Estou estreando este ano, e olha que moro a cinco minutos daqui”, afirmou Valquíria Bueno, 53.

Quem também chegou recentemente ao Litraço foi o mestre de bateria, Jonny Miranda, 36. Ele já havia frequentado como participante e, convidado por alguns alunos, começou a ir aos ensaios ao longo de 2025.

“As marchinhas são prioridade. Começamos com um ska de abertura e aí vamos de marchinha até o Bar do Zé, uma figura daqui [filho de Prudente], e cantamos uma nossa, ‘ô, Zé, ô, Zé, abre esse bar pra nóis tomar um mé’, e depois é partido-alto e só enredo.”

O bloco já foi associação sociocultural e ajudou na doação de alimentos durante as fases mais graves da pandemia. Em um galpão usado na época, foi feita a distribuição de comida para 170 entidades em todo o estado. Segundo os fundadores, a produção foi da própria comunidade.

Foi assim também que a marca do bloco foi lançada para a comemoração dos dez anos. A artista Puga Menezes, moradora do local, fez um desenho para os abadás que remete ao futebol de várzea.

Com adesão dos vizinhos, o bloco não pensa em deixar tão cedo os Carnavais, apesar dos desafios. “A quebrada cobra: o pessoal vê a gente e pergunta se vai ter. A quebrada merece”, diz Ktatau. “A molecada vê os metais e puxa, quer soprar, fica interessada. Você mostra todo um universo de música.”