SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A organização do Festival de Berlim publicou uma carta em defesa do cineasta Wim Wenders, que preside o júri da edição deste ano, de demais jurados e de artistas que, nos últimos dias, participaram de eventos com a imprensa e apresentaram os seus filmes na programação. Segundo o comunicado, artistas não têm a obrigação de se manifestar sobre todos os assuntos de caráter político que são apresentados a eles.
Os artistas são livres para exercer seu direito à liberdade de expressão da maneira que escolherem”, disse a diretora do evento, Tricia Tuttle, na carta, em que ainda diz, diante do “estrondo da mídia”, que artistas não deveriam ter que responder por “ações passadas ou presentes de um festival”, além do controle.
A declaração vem na esteira de críticas que o festival têm recebido, por parte de jornalistas e usuários de redes sociais, a respeito da suposta falta de disposição do evento e de seus participantes para debater questões de teor político, como os conflitos entre Israel e a população palestina na Faixa de Gaza.
Os comentários específicos contra Wenders, aliás, tiveram início na última quinta (12), quando o diretor alemão, conhecido por filmes -como “Asas do Desejo”-, em que debate relações entre a humanidade e a ordem mundial, participou de uma conversa com a imprensa e, ao ser questionado sobre o suposto apoio da Alemanha ao “genocídio em Gaza”, disse que artistas são o “oposto da política”. Segundo ele, ainda que o cinema possa abordar tais temáticas, filmes não são capazes de modificar o trajeto político do mundo.
Nos últimos dias, nomes como Michelle Yeoh, que conquistou o Oscar de melhor atriz por “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” -em que interpreta uma mãe sul-coreana, dona de uma lavanderia, que tenta se ajustar à vida nos Estados Unidos– e foi à mostra de cinema para receber um prêmio honorário, e Rupert Grint, que viveu o personagem Ron Weasley na saga “Harry Potter”, também foram amplamente criticados.
Enquanto Yeoh afirmou não se considerar capaz de comentar questões americanas como as políticas de anti-imigração implementadas por Donald Trump, Grint disse que ainda escolherá um momento melhor para protestar contra a escalada de ideais fascistas que tem se desenhado nos últimos anos.
Declarações como essas levantaram suposições pela internet, como a hipótese de que a Berlinale, conforme negado por organizadores e outros participantes, estaria instruindo atores e cineastas a não se manifestarem sobre questões políticas.
Indo além, a última semana também foi marcada por protestos de artistas iranianos, no evento, contra o atual estado do regime iraniano, e pela saída da escritoria indiana Arundhati Roy, que apresentaria o seu novo filme mas desistiu da exibição e condenou a fala de Wenders.



