SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Houve negligência e há negligência na Biblioteca Mário de Andrade. Quem diz isso é Luiz Armando Bagolin, que foi diretor do equipamento cultural durante a gestão de Fernando Haddad (PT). “Não é que houve nesse caso, há uma negligência com o nosso patrimônio público”, diz, enfatizando o verbo haver.

O secretário de Cultura da cidade de São Paulo, Totó Parente, nega que tenha havido falhas na gestão Mário de Andrade, após oito obras de Henri Matisse e cinco de Candido Portinari terem sido roubadas no local, numa manhã de domingo, há dois meses.

As obras roubadas faziam parte da exposição “Do Livro ao Museu: MAM São Paulo e a Biblioteca Mário de Andrade”, parceria com o Museu de Arte Moderna de São Paulo, instituição privada, que também expõs parte de seu acervo. Segundo a prefeitura, as obras roubadas eram todas da Biblioteca Mário de Andrade.

O ex-diretor afirma que se surpreendeu ao não ver uma presença ostensiva da Guarda Civil Metropolitana na porta da biblioteca durante a abertura de uma exposição “com obras tão valiosas” e na presença de autoridades.

“Estive na abertura [da exposição] e fiquei muito impressionado na ocasião pela falta de segurança”, afirma Bagolin. “Pelo que eu me lembro, não havia nenhuma viatura da Guarda Municipal estacionada do lado de fora da biblioteca, nem na entrada da São Luís, nem na entrada da Consolação”.

Questionada, a prefeitura não responde se houve reforço de policiamento nas portas do prédio, dado o valor das obras expostas. Em nota, a prefeitura diz que “a Guarda Civil Metropolitana realiza patrulhamento diário para proteção do prédio da Biblioteca Mário de Andrade”. Segundo a pasta, são feitas rondas ao longo de todo o dia e há a presença “ostensiva e temporária de viatura e agentes em diferentes períodos nas imediações do equipamento”. Além disso, a BMA conta com vigilância patrimonial privada, responsável pela segurança interna do espaço.

“Como são obras só da biblioteca que levaram, —não levaram nada do MAM— a coisa fica mais diluída. Se tivessem levado obras do MAM, que é uma coleção privada, um museu particular que tem patronos muito ricos na cidade, eu acho que a coisa mudaria de figura. É realmente um absurdo o que aconteceu.”

Para se defender de críticas, Parente lembra do roubo no Louvre, em Paris, semanas antes. “Duvido que o Museu do Louvre não tenha muito mais precauções”, afirmou o secretário, à Folha. “Eu já fui várias vezes, tem policiais armados com fuzis por causa de terrorismo, e, ainda assim, roubaram as peças.”

Para Bagolin, porém, não tem o menor cabimento comparar a Mário de Andrade com o Louvre. “Eu acho que é a síndrome de vira-lata ao contrário”, diz.

“Eu acho que eles deram bobeira”, diz Bagolin. “O que mais espanta, nesse caso, conforme ele está sendo noticiado e as próprias imagens das câmeras nos mostram, é que os criminosos saíram tranquilamente carregando uma sacola cheia de obras pela porta da frente.”

Para a advogada e perita em obras de arte Anauene Dias Soares, o fato de algo ter sido roubado no Louvre não naturaliza o roubo aqui no Brasil.

“Lá vira escândalo, investigação internacional, revisão de protocolos.” Na sua visão, o roubo no Louvre é visto como “exceção trágica”, quanto o roubo no centro de São Paulo tende a ser tratado como “normal, parte do ‘risco urbano’”.

“Isso naturaliza a vulnerabilidade do patrimônio latino-americano, como se fosse aceitável que ele esteja sempre mais exposto, menos protegido, menos lamentado.”

O secretário Totó Parente afirma que foram tomadas todas as providências possíveis, mas mesmo assim o roubo aconteceu. “Temos como política não botar guarda armado em equipamento cultural. Imagina se estivesse ali criança. Entram dois ladrões e tem guarda armada. A tragédia poderia ter acontecido”, diz.

Embora não admita erros, diz que há espaço para melhorias. “Nós estamos renovando todo o sistema de câmeras, vamos interligar todas as câmeras internas de lá, do Centro Cultural São Paulo, do Theatro Municipal e do Centro Cultural da Juventude”, diz. “Vamos por câmera de reconhecimento facial e ligar ao Smart Sampa [o programa de videomonitoramento], com uma central de monitoramento de cada um dos equipamentos.”

A especialista Anauene Dias Soares, concorda com a tese de que foi um roubo encomendado. “Há elementos que realmente apontam nessa direção: escolha muito específica das obras; ação rápida e objetiva, sem vandalismo ou desordem gratuita; entrada com arma e saída direta, sem improviso aparente”.

Segundo ela, são obras que não têm mercado lícito, “o que costuma indicar encomenda para coleção privada, troca ilícita ou uso como garantia criminal”. Demonstram que os envolvidos tinham conhecimento da rotina do local, noção clara do nível de vigilância.

“É comum que ladrões cheguem em horários incomuns”, afirma Charles Cosac, outro ex-diretor.

“Não creio que a Biblioteca deva ser responsabilizada pelo ocorrido, ao contrário, é hora de sermos solidários e ajudá-la. Isso poderia ter ocorrido em qualquer local, como houve no Louvre, em 2025, também na parte da manhã”, diz Cosac.

“A ideia de biblioteca —e principalmente em equipamentos como a Mário— é justamente mostrar o que ela tem de melhor para a população”, diz José Castilho Marques Neto, diretor da Mário de Andrade durante a gestão de Marta Suplicy na prefeitura de São Paulo. Simplesmente não se aplica o raciocínio de que “acontece em todos os lugares”.

“O que é fato, e isso fica evidente nesse episódio, é que temos muito ainda a investir, a planejar e a cuidar com tecnologia e segurança dos nossos patrimônios culturais”, diz.

Castilho chama atenção para outros acervos. “Esse foi um roubo com tons de ‘espetáculo’, mas o que dizer das milhares de bibliotecas, equipamentos culturais que não têm manutenção adequada e têm seu acervo deteriorado no dia a dia por umidade, insolação, insetos peçonhentos, roubos diários?”

“O descaso da sociedade brasileira com sua memória cultural é imenso e só aparece indignação quando a perda é midiática. Aliás, isso diz muito da situação da cultura e da educação no nosso país.”