RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Eles têm 41 anos, nasceram e foram criados na Baixada Fluminense (região metropolitana do Rio de Janeiro), são intuitivos e autodidatas, leem bastante, amam história e, desde pequenos, sabiam que seriam carnavalescos. Além disso, tanto João Vitor Araújo quanto Tiago Martins passaram por diversas funções dentro do barracão de uma escola de samba, e suas referências na profissão são as mesmas: Rosa Magalhães e Paulo Barros.
As coincidências terminam por aí. Enquanto o primeiro busca o bicampeonato do Carnaval carioca com a Beija-Flor de Nilópolis ele venceu em 2025 com o enredo “Laíla de Todos os Santos”, o segundo estreia na Marquês de Sapucaí com a missão de abrir a folia carioca com um dos enredos mais polêmicos do ano, o da Acadêmicos de Niterói sobre a trajetória de Lula.
Martins encara com naturalidade a repercussão e as polêmicas que cercam o desfile sobre o atual presidente da República. “Esse enredo não fala de uma pessoa só, ele fala de um povo no geral e se conecta com a trajetória de muitos brasileiros”, comenta.
Ele afirma, no entanto, que a ideia não tem a ver com propaganda partidária. “Vai falar de política porque faz parte da vida do nosso homenageado do ano. Mas não é uma campanha. Não tem número, não tem símbolo, não tem bandeira”, explica. “A gente se cercou de advogados justamente para garantir isso.”
O carnavalesco, que diz se identificar com a narrativa de ascensão social retratada no desfile, lembra que sua entrada no carnaval foi marcada por uma persistência que já dura quase duas décadas. Sem contatos no meio, ele precisou percorrer barracões em busca de uma oportunidade.
“Peguei o trem em Japeri [município da Baixada Fluminense] e saí batendo de ponta a ponta pedindo emprego”, diz. “Um dia recebi uma ligação da União da Ilha para trabalhar como aderecista, e ali comecei minha caminhada.”
Sobre a criação do desfile, ele promete surpresas visuais e simbólicas. Um dos carros alegóricos, por exemplo, representa a trajetória do homenageado desde a vida operária até a presidência. “A gente tem um carro da metalúrgica com um Lula operário esculpido em metal”, adianta. “Ele aparece com a matéria-prima e com a faixa presidencial, mostrando essa transformação. Acho que o público vai curtir bastante.”
O encerramento também carrega uma mensagem simbólica. “Eu finalizo o desfile com verde, azul, amarelo e branco, mostrando que essas cores não são de partido, são do povo brasileiro”, conta.
Araújo, por sua vez, também é um nome relativamente novo entre os carnavalescos do Grupo Especial, mas sua trajetória revela uma ascensão construída com pesquisa e inquietação criativa. Sem falar na coragem para apostar em temas que dialogam com a cultura popular e com as matrizes afro-brasileiras.
Há três carnavais à frente da Beija-Flor, ele diz que logo percebeu o peso simbólico e a responsabilidade de integrar uma escola conhecida pela ousadia estética e pelo histórico vitorioso. “Quando entrei, uma das primeiras pessoas a me recepcionar foi a [jornalista] Flávia Oliveira. Ela me falou: Esteja pronto para todo mundo dizer que quer que a Beija-Flor perca o Carnaval. E, se ganhar, vão dizer que roubou”, relembra.
Sem encarar esse cenário como pressão, o carnavalesco transformou a rivalidade em combustível criativo. “Gosto quando não esperam nada da gente. Foi assim que conquistamos o título em 2025”, afirma.
Para 2026, ele não esconde o orgulho que sente do enredo sobre o Bembé do Mercado, celebração afro-brasileira realizada em Santo Amaro, na Bahia, desde o período pós-abolição. O tema surgiu de forma quase intuitiva e se transformou em um dos maiores desafios artísticos da carreira dele.
“Eu já tinha uma pesquisa guardada, mas achava que seria complicado fechar parceria com os 65 terreiros envolvidos”, conta. “Quando o assunto voltou à mesa, percebi que era o momento certo.”
O processo de construção do enredo exigiu aproximação com lideranças religiosas e pesquisadores, além de visitas constantes ao Recôncavo Baiano. Para Araújo, o trabalho foi além da pesquisa histórica, tornando-se uma experiência de imersão cultural. Ele acredita que o desfile cumpre também o papel social de combater o preconceito religioso.
“Vivemos num país hipócrita. Muitas pessoas criticam enredos de matriz africana, mas pulam sete ondas no Ano-Novo e jogam flores no mar”, aponta. “Essas tradições vêm exatamente dessas religiões.”
A narrativa do desfile busca apresentar uma jornada histórica. A escola começará com a representação do período logo após a abolição da escravidão, destacando a coragem do líder espiritual João de Obá, responsável por levar o candomblé às ruas como forma de celebração da liberdade.
“É uma história de muita resistência. Imaginar alguém ocupando o espaço público com rituais religiosos naquele contexto, naquela época, exige entender o tamanho desse gesto”, avalia.
Ao longo da avenida, o enredo se desenvolve mostrando a evolução do Bembé até os dias atuais, incluindo manifestações culturais, elementos religiosos e o diálogo entre tradições afro-brasileiras e o cristianismo, característica marcante da festa.
A concepção estética reforça a ideia de que o Carnaval pode funcionar como espaço de preservação cultural e de afirmação identitária. “É um desfile para emocionar”, afirma Araújo.



