SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Oitenta e três ovos fossilizados de ancestrais de crocodilos foram encontrados perto de Presidente Prudente, no interior de São Paulo, a 558 quilômetros da capital. A idade dos ovos é estimada entre 86 e 83 milhões de anos (período Cretáceo).
O achado foi descrito em um artigo, que saiu no último dia 6 no periódico Journal of Vertebrate Paleontology, por pesquisadores brasileiros e estrangeiros.
Os ovos foram atribuídos a representantes dos crocodilomorfos, grupo que originou os crocodilos atuais e diversas espécies já extintas. O tamanho aproximado dos ovos é de seis centímetros de comprimento e 3,4 centímetros de diâmetro.
Os vestígios foram localizados entre 2020 e 2022 em rochas da Formação Adamantina, da Bacia Bauru, no sítio paleontológico José Martin Suárez com parte das cascas preservadas, o que permitiu a identificação dos grupos a que pertenciam. Um dos blocos de rocha, o menor deles, reunia 15 ovos, o segundo, de tamanho intermediário, 21, e o terceiro, o maior deles, 47.
O trabalho é parte da dissertação de mestrado de Giovanna Paixão, atualmente doutoranda no Laboratório de Paleobiologia da Unipampa (Universidade Federal do Pampa), no Rio Grande do Sul. Primeira autora do estudo, ela explica que os ovos representam as maiores ninhadas conjunto de ovos de um organismo já encontradas no Brasil e no restante do mundo em relação aos crocodilomorfos.
“Não apresentamos uma classificação de espécie, pois não é possível ter um grau de confiança elevado de quais seriam a partir de materiais próximos [como restos de ossos ou dentes], mas analisando a casca dos ovos e com aquilo que já é conhecido de Notosuchia [uma das linhagens de crocodilomorfos antigos que já se extinguiu e abundante na área] conseguimos atribuir a este grupo”, disse Paixão.
As descobertas foram feitas pelo diretor do Museu de Paleontologia de Marília, William Nava, em setembro de 2020. No mês seguinte, segundo o paleontólogo, ele voltou ao sítio com a estudante, onde encontraram outras rochas também com cascas de ovos preservadas.
“Notei algumas cascas de ovos em rochas em uma área do sítio onde a prefeitura estava construindo uma cerca em torno do local, e aí voltei em outubro. Foi quando vimos a extensão das ninhadas,” relembra Nava.
A remoção do material exigiu o uso de maquinários especializados. O trabalho foi concluído em 2022, quando os blocos com ninhos foram levados para estudo até a Unipampa.
Segundo Paixão, o estudo envolveu uma análise minuciosa da arquitetura dos ovos (posição e direção das posturas), microestrutura da casca (quantidade de poros e tipo de ornamentações presentes na superfície) e morfologia externa (formato mais ovalado ou elipsoidal, tamanho aproximado).
A partir desses dados, e comparando com outros conjuntos de ovos conhecidos do Brasil e do exterior, eles atribuíram os ovos aos ancestrais de crocodilos, embora não seja ainda claro quantos indivíduos estavam envolvidos. “O bloco maior, que tem 47 ovos, a análise estatística revelou duas direções de postura, então nossa hipótese é que, por ser um gasto energético muito grande para uma única fêmea, a gente atribui mais de um evento de deposição, talvez por uma fêmea diferente”, afirmou a doutoranda.
Felipe Pinheiro, professor da Unipampa e orientador de Paixão, ressaltou que, diferentemente dos jacarés e crocodilos atuais, os notossúquios eram animais predominantemente terrestres muitos, inclusive, eram exímios corredores em terra. De acordo com ele, a alta porosidade encontrada nos ovos é compatível com uma postura em um ambiente com alta umidade.
A porção mais ao norte da Bacia Bauru, no final do Cretáceo, já passava por ciclos de aridificação, com condições mais quentes e secas. No entanto, as rochas da Formação Adamantina de onde os ovos foram escavados sugerem um ambiente de deposição com algum tipo de corpo dágua. “Esse trabalho, portanto, aumenta o que se sabe hoje de estratégias reprodutivas dos notossúquios, indicando a presença de organismos mais adaptados ao hábito aquático”, afirmou Pinheiro.
Alguns dos ovos do estudo foram analisados com o uso de um microtomógrafo computadorizado de alta resolução (conhecido como microCT), que fornece uma imagem do interior e da estrutura em detalhe dos ovos. Mas os cientistas não encontraram, até o momento, restos ósseos ou vestígios de embriões.
Em seu projeto de doutorado, em andamento, Paixão pretende estudar outras ninhadas fósseis do Brasil e comparar os atributos ecológicos e tafonômicos destas.
Os três conjuntos de ninhos de crocodilomorfos estão depositados na coleção paleontológica do Museu de Paleontologia de Marília.
Nava afirmou que outros ninhos encontrados na mesma localidade, incluindo ovos de possíveis dinossauros terópodes, outros tipos de répteis (possivelmente espécies primitivas de lagartos e aves) e alguns ossinhos de aves estão sendo analisados por diferentes pesquisadores e devem ser descritos no futuro.
Os trabalhos de campo foram até 2023 e, no momento, não se pretende fazer novas expedições na área.



