WASHINGTON, EUA, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em 3 de junho de 2025, a vida dos cinco filhos do egípcio Mohamed Soliman mudou para sempre. Soliman usou um coquetel molotov e um lança-chamas improvisado para atacar pessoas em uma manifestação pró-Israel nos Estados Unidos.
O ataque aconteceu em Boulder, uma cidade de pouco mais de 100 mil habitantes no estado do Colorado. Pelo menos 12 pessoas ficaram feridas, além do próprio agressor.
Poucos dias depois, a esposa de Soliman e seus filhos, com idades de 4 e 17 anos, foram detidos e enviados para um centro de detenção no sul do Texas. Eles viviam nos EUA desde 2022 e estavam com pedido de asilo em andamento.
As crianças e adolescentes estão há oito meses no South Texas Family Residential Center, na cidade de Dilley, contrariando uma diretriz judicial que só permite a detenção de menores de idade imigrantes por até 20 dias.
A Folha mostrou que ao menos 675 menores de idade tiveram esse período máximo de tempo violado de janeiro a outubro de 2025.
A filha mais velha de Soleiman, que completou 18 anos em Dilley, escreveu uma carta às autoridades em que pede a liberdade de sua família. A reportagem teve acesso à íntegra do documento.
Leia a carta:
“Por que isso está acontecendo conosco? Por que todos os nossos esforços para alcançar nossos sonhos seriam em vão? Por que o governo insistiria em nos deter sem provas? Por que está demorando tanto para a verdade vir à tona? Estas são as perguntas para as quais temos tentado encontrar uma resposta nos últimos oito meses, mas infelizmente falhamos.
Desde que nossa audiência de fiança na quarta-feira, 21 de janeiro, foi negada, temos desmoronado. A esperança de ter nossa fiança concedida nos ajudava a suportar as dificuldades. O apoio de nossa comunidade e amigos nos impulsionou a continuar lutando e a nunca perder a esperança. Anteriormente havíamos ganhado nossa fiança em 12 de setembro, mas o governo decidiu arrastar a decisão e ainda assim ela foi devolvida.
A mesma fiança que, quando devolvida, seguiu de 15 de dezembro a 21 de janeiro com a gente rezando para que não houvesse mais atrasos e que finalmente tivéssemos nossa liberdade de volta. No final, foi negada por motivos ridículos. Pensamos que tínhamos alcançado a luz no fim do túnel, mas estávamos alucinando.
Dois dias após a fiança, fui separada da minha família, como se o que passamos não fosse suficiente. Nunca esquecerei o olhar de medo e desamparo no rosto de minha mãe enquanto ela me via sendo levada e não podia fazer nada para impedir. Depois que ouvimos a decisão do juiz e percebemos que ficaríamos detidos por quem sabe quanto tempo, nossa força e vontade chegaram ao fundo do poço. Justo quando estávamos tentando processar tudo, fomos separados. Naquele momento, tudo o que nos restava foi completamente estilhaçado.
Nenhuma pessoa sã ficaria neste centro de detenção de forma voluntária, não se não tivesse um grande motivo forçando-a a ficar. As condições aqui são ruins, e as regras são feitas levando em conta as necessidades dos funcionários, não dos residentes. Todas as longas listas de regras severas estão tirando a infância das crianças. As crianças estão atrasadas em seu desenvolvimento, educação e crescimento.
Os supervisores aqui apenas encobrem uns aos outros. De alguma forma, toda reclamação ou queixa que temos é infundada, mesmo que tenhamos evidências e testemunhas para apoiar a queixa. Eles fazem promessas que não cumprem e mudam o que dizem o tempo todo. É muito fácil ver a verdade sobre este lugar e sobre nós. As pessoas precisam ser honestas consigo mesmas e seguir os fatos. Visitar este lugar não é suficiente, eu encorajo qualquer um que ache que este lugar é bom a vir morar aqui como um residente por apenas um mês, não oito, e então sentirá o que estou falando. Os trabalhadores fariam o lugar parecer um paraíso, enquanto a realidade está longe disso.
Crianças e adultos estão sob grande pressão, a detenção tem que parar antes que algo ruim aconteça. Precisamos que todos se manifestem e digam que deter famílias por períodos indefinidamente longos deveria ser ilegal. Este lugar poderia ser suportável por 20 dias no máximo, mais do que isso é realmente difícil. Ver outras pessoas sendo libertadas enquanto somos forçados a ficar aqui é extremamente doloroso. Meus irmãos choram porque seus amigos continuam sendo libertados enquanto eles estão presos aqui, perguntando-se quando será a vez deles.
Nunca imaginaríamos que ficaríamos aqui por oito meses e o que torna pior é que nem sabemos se ou quando sairemos. É muito difícil ver nossas vidas e sonhos serem destruídos enquanto apenas esperamos impotentes. Somos privados do direito de opinar sobre nossas vidas. O governo quer controlar e determinar como nossas vidas seguirão, exatamente como têm feito nos últimos oito meses.
Peço a todos que olhem para as evidências de nossa inocência. Para ver quão injustamente fomos tratados pelo governo. No entanto, ainda esperamos que o processo termine bem no final. Ainda temos total crença no sistema de Justiça. Sabemos que a verdade virá à tona em breve.
O que aconteceu com as vítimas do ataque é horrível e de partir o coração. Não consigo imaginar a dor que essas vítimas e suas famílias passaram. Ninguém deveria jamais passar pelo que eles passaram. Minha família e eu desejaríamos saber sobre o plano horrível dele, para que pudéssemos ter sido capazes de impedi-lo de prejudicar os outros.
Eu e minha família sonhamos com o dia em que sairemos. O Ramadã está chegando e estaremos jejuando. Não consigo nem imaginar passá-lo em uma detenção, muito menos longe da minha família. Quando nosso castigo terminará? Quando seremos livres? Nenhuma família deveria ser separada ou ter que ficar detida por meses.”



