BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – O crescimento do PSD de Gilberto Kassab, que pretende dobrar sua bancada de deputados federais na próxima eleição, virou a principal ameaça à reeleição do deputado Hugo Motta (Republicanos-PB) para mais um biênio na presidência da Câmara, na visão de aliados.

A disputa ocorrerá apenas em 1º de fevereiro de 2027, já sob outro governo, o que influenciará as negociações. Nos bastidores, no entanto, já há movimentos sutis entre os partidos para posicionamento, e a disputa pela vaga do TCU (Tribunal de Contas da União) é vista como primeira etapa.

Kassab deu o tom de uma campanha de oposição na semana passada, ao participar de conferência com investidores organizada pelo banco BTG Pactual e criticar a falta de debate sobre a diminuição do tamanho do Estado, políticas públicas de transparência e uma reforma política com o voto distrital.

“Lógico que eu não estou feliz com este Congresso. Um Congresso que não dá nenhuma resposta para essas demandas da sociedade”, afirmou, cobrando que o Legislativo se “imponha” para que as demais instituições passem a respeitá-lo mais. “É um Congresso que não está à altura da sociedade brasileira e que precisa ser melhorado.”

O PSD conta hoje com 47 deputados federais, dois a mais do que o Republicanos, partido de Motta. A sigla, no entanto, cresceu regionalmente com a eleição do maior número de prefeitos em 2024 e a filiação de governadores como Eduardo Leite (RS), Ronaldo Caiado (GO) e Raquel Lyra (PE). Com isso, trabalha com a meta de chegar a 90 ou 100 deputados.

O partido de Kassab é um dos mais distantes de Motta dentre as legendas de centro-direita. O grupo mais próximo do atual presidente da Câmara conta com o PP e União Brasil (que formarão uma federação para disputarem juntos as próximas eleições), além do Republicanos e partidos menores, como o Podemos.

O PSD manteve como líder de sua bancada o deputado Antonio Brito (BA), que tentou se candidatar à presidência da Câmara contra Motta, mas acabou atropelado pelo acordo do governo Lula (PT) com o sucessor indicado pelo ex-presidente Arthur Lira (PP-AL).

Apesar do plano frustrado, o PSD tem apoiado a agenda do presidente da Câmara, e Brito mantém uma aliança tácita com Motta. Integra, por exemplo, o “blocão” de 275 deputados criado em novembro para isolar PT e PL nas decisões da Casa. Mas deputados contam que a relação é de desconfiança.

O presidente da Câmara tem aliados mais próximos no PSD, como Domingos Neto (CE) –a quem confiou a relatoria de projetos como o voto distrital e a reforma dos planos de saúde– e Cezinha da Madureira (SP) –que ele tentou emplacar como relator da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do INSS.

Uma das primeiras etapas dessa disputa, na visão de aliados de Motta, será a eleição para a vaga do TCU aberta no fim de fevereiro com a aposentadoria de Aroldo Cedraz. Motta e Lira prometeram eleger o deputado Odair Cunha (PT-MG) em troca do apoio do PT, mas PSD e União Brasil negociam uma aliança com o PL para desbancá-lo.

O PSD terá Hugo Leal (RJ) como candidato. O União Brasil espera um acordo entre Elmar Nascimento (BA) e Danilo Forte (CE). O combinado é que Nascimento tentará costurar o apoio do PSD e do PL. Se conseguir, será o nome do grupo. Se não, desistirá e apoiará Forte na eleição. A votação é secreta e ocorre em um único turno.

Deputados envolvidos na negociação dizem que, entre as sugestões na mesa, estão a eleição nacional de outubro e também pleitos futuros, como as disputas pela presidência da Câmara e pela segunda vaga para o TCU que será aberta com a aposentadoria de Augusto Nardes no ano que vem –ele cogita antecipá-la para março, o que abriria espaço para outra indicação ainda este ano.

Um aliado do presidente da Casa afirma que ele precisa sentar com o PSD e renegociar os termos da atual aliança. Uma das sugestões é rever a indicação de um parlamentar do partido para a presidência da CMO (Comissão Mista de Orçamento). O escolhido é Domingos Neto. Outra é evitar entregar a relatoria de projetos importantes para a sigla. Até agora, Motta não deu sinais de que seguirá esses conselhos.

Parlamentares do PSD dizem, nos bastidores, que o partido pode se aproveitar da fragilidade do atual presidente da Câmara para buscar a vaga em fevereiro de 2027, caso ele não consiga reconstruir sua imagem até lá. O tamanho que cada partido sairá da eleição será também decisivo para isso.

Motta acabou o primeiro ano sob desconfiança do governo Lula (PT), de partidos da esquerda e da oposição, e com críticas até de seu antecessor. Lira afirmou, após ver frustrado o plano de cassar o desafeto Glauber Braga (PSOL-RJ), que a gestão do atual presidente era “uma esculhambação”.

Ambos, no entanto, reataram. Segundo aliados, Motta tem atuado diretamente para ajudar Lira a viabilizar sua candidatura ao Senado –o que tira uma sombra ao atual presidente, evitando que seu antecessor decida permanecer na Câmara e concorrer de novo ao comando da Casa.

Motta levou Lira a um encontro com Lula ano passado, numa costura envolvendo o cenário eleitoral de Alagoas e a indicação da tia do prefeito de Maceió, JHC (PL), para o STJ (Superior Tribunal de Justiça). Teria também garantido apoio a ele para a segunda vaga do TCU, se for derrotado na eleição de outubro.

Com a saída de Lira da disputa, Motta é visto na Câmara como favorito para a reeleição, mesmo diante dos seguidos desgastes internos. Líderes partidários ouvidos pela Folha elogiam seu bom trato e capacidade de diálogo e afirmam que os poderes conferidos pela presidência inibem outros adversários. Se fizer um bom segundo ano de mandato, dizem, ele não deve encontrar adversários.

Procurados, Motta e Brito não quiseram comentar.