SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Aos 79 anos, Conceição Evaristo não para de colecionar estreias.

Neste mês, ela acompanha o lançamento do filme “Se Eu Fosse Vivo… Vivia”, de André Novais Oliveira, em que interpreta a personagem Jacira, em sua primeira experiência como atriz. No Carnaval do Rio, ela é homenageada pela Império Serrano, que celebra sua obra. Mais adiante, vai trabalhar na construção de uma ópera sobre sua vida, que estreia em novembro, quando completa 80 anos.

Exibido nesta semana, na mostra Panorama do Festival de Berlim, “Se Eu Fosse Vivo… Vivia” acompanha a relação de cumplicidade do casal Jacira e Gilberto, vivido por Norberto Novais Oliveira, que envelhece junto na cidade mineira de Contagem. O enredo transita entre cenas do dia a dia e elementos de ficção científica inesperados para tratar temas como memória e luto.

O convite para participar do filme, que começou a ser gravado há dois anos, veio como uma surpresa e causou insegurança no início, afirma a autora, já que ela não tinha experiência anterior nas telas.

Mas a recepção da equipe e o método do diretor, conhecido por valorizar a naturalidade e por trabalhar com pessoas que não têm experiência prévia com a câmera, como amigos e familiares, contribuíram para que ela se adaptasse ao processo. Evaristo, aliás, contracena com o pai do diretor, que vive o protagonista.

“Tinha que sair daquilo que eu sou e encarnar uma personagem que de certa forma sou eu também, uma mulher negra e mineira, mas dona de casa e com instrução mediana”, ela diz.

Apesar de encontrar semelhanças, a atitude e a postura da personagem estavam distantes da personalidade de Evaristo —percepção que ficou mais nítida durante a caracterização.

Quando teve que se vestir e mudar o cabelo para encarnar Jacira, veio o estranhamento. Mas com a ajuda da equipe, entendeu que a mudança fazia parte do processo de se tornar cúmplice da personagem, sentir as dores e imaginar como é viver uma subjetividade que não é a sua.

Processo semelhante ao que ela realiza na literatura, quando conta a história de homens e mulheres de diferentes lugares e períodos históricos.

Ela afirma que também vive seus personagens literários, mas o faz de uma outra forma. “Muitas vezes a escrita também me toma pelo corpo e dói. Literalmente me dói. Criar determinadas histórias é chorar com elas”, afirma. “Transportar isso para o cinema é mais difícil porque o meu corpo é um corpo tímido. Não sou uma pessoa de muito movimento.”

Nesse aspecto, o da timidez, ela diz ter encontrado uma grande semelhança com a protagonista do filme, também introspectiva. O fato de Jacira interpretar cenas cotidianas, como ir a uma consulta médica, tornou o processo leve.

A primeira parte de “Se Eu Fosse Vivo… Vivia” é repleta de pequenos gestos que demonstram o afeto e cumplicidade que existe entre o casal. Ambos na terceira idade, eles cuidam um do outro e não escondem o quanto isso é importante. “O que existe ali é a própria vivência do casal, não foi preciso criar um discurso para dizer ‘os pretos também amam’, apenas mostrar a vivência deles.”

A virada na trama acontece quando Jacira adoece e, em seguida, Gilberto começa a presenciar acontecimentos perturbadores. Nesse ponto, afirma Evaristo, o filme deixa uma incógnita, e isso também a agrada pois a partir dali “as pessoas podem elaborar as suas próprias ficções”.

Em certo ponto da narrativa, por exemplo, o protagonista se vê vagando pelas ruas da cidade, perdido e sem saber como voltar para casa. “Essa possibilidade que o filme oferece, de não entender o que está acontecendo com o Gilberto, como ele também não entende o que aconteceu com a mulher, pode ser uma recusa dele aceitar o destino dela”, diz a autora.

Além da estreia nas telas, Conceição vive outro acontecimento inédito em fevereiro. Neste Carnaval, a escritora terá sua trajetória homenageada no desfile da Império Serrano, que vai à avenida neste sábado (14) com o enredo “Ponciá Evaristo Flor do Mulungu”.

O desfile destaca a importância da sua obra e temas como ancestralidade e resistência femininas, que a permeia e, agora, são pontos importantes na construção do espetáculo que celebra suas “escrevivências” —termo cunhado por ela para definir a literatura que parte da vida e da experiência de quem escreve.

Esta é a primeira vez que a vida e a obra da autora serão tema de um enredo na Sapucaí —em 2022, ela esteve entre os escritores homenageados no desfile da Beija-Flor de Nilópolis, sobre literatura negra. A escola de agora desfila pela série ouro e busca retornar ao grupo especial da folia carioca.

“Pensar que a minha literatura está incluída num grande espetáculo público é muito bom. Eu fico muito feliz. Tem todo o trabalho de música, tem o trabalho de corpo, das pessoas que vão interpretar a música através do corpo.”

Conceição diz ver o desfile como um retorno da sua literatura às origens. Sua escrita parte da rua, do cotidiano de pessoas negras, e vê-la retornar ao espaço público, por meio do samba, “é um caminho de ida e volta”.

A história da autora também será tema de uma ópera, com estreia prevista para 20 de novembro, Dia da Consciência Negra e mês em que ela completa 80 anos. “Ver que a vida de mulher preta vinda da periferia dá samba e dá ópera é uma diversidade de criação muito grande”, afirma ela, que se diz contente em ver a abrangência de seu trabalho.

A autora tem trabalhado com duas musicistas na criação do espetáculo “Conceição Evaristo – Uma Ópera Escrevivência”, do Theatro São Pedro, na capital paulista, e conta que um de seus desejos é que o resultado final seja democrático e que, além dos palcos dedicados à música clássica, o espetáculo também seja apresentado em espaços periféricos.

A abrangência de seu trabalho, diz, se deve ao fato de que ela se propõe a fazer uma arte universal sem abandonar as particularidades que a compõem enquanto mulher negra. Sua escrita, afirma, parte das experiências individuais, mas é capaz de convocar o leitor a compreender a humanidade de vários sujeitos.

“Há muita literatura canônica em que nós, negros, não nos reconhecemos. Mas toda vez que você tem essa possibilidade de entender aquele ou aquela que é diferente, mas que é tão humano quanto você, aí, sim, você pode pensar numa arte universal.”