SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O Big Brother Brasil 26 não demorou a mostrar que os ânimos estariam exaltados nesta temporada. Dias depois da estreia, as participantes Sol Vega e Milena Moreira protagonizaram aquela que seria a primeira das várias brigas da atual edição marcada como recordista em número de expulsões em mais de duas décadas de programa.
Com gritos, provocações e deboches, o embate aconteceu porque Sol havia dado um sinal de planta para Milena no “queridômetro”, uma das principais ofensas a um participante dentro da casa. Afinal, ninguém quer ser comparado a um ser inexpressivo num jogo que tem por objetivo conquistar popularidade.
A briga fez o público lembrar os tempos áureos do reality, quando os participantes batiam boca por motivos prosaicos, como gírias regionais, sungas brancas e disputas por fatias de bolo. Ao longo do programa, porém, as discussões ganharam contornos bem menos banais à medida que a política invadia a casa, produzindo a mesma polarização que se observa no Brasil.
O exemplo mais evidente disso aconteceu ainda na primeira semana de confinamento, quando o participante Pedro Henrique perguntou se Ana Paula Renault era crítica política. O questionamento, no entanto, desagradou à jornalista. “Você faz umas perguntinhas achando que é bobo, né, gato? Você acha que vai colher maduro fácil assim?”, disse a participante. “Você está querendo o que com esse tipo de pergunta?”
Aqui fora, Ana Paula Renault não esconde a afinidade com pautas ligadas à esquerda nem suas críticas ao bolsonarismo. No programa, porém, ela tem adotado uma postura mais discreta por temer que grupos conservadores se unam para pedir sua saída do jogo num eventual paredão.
O clima de tensão entre Ana Paula Renault e Pedro Henrique piorou depois que o vendedor insinuou que ela fez um trabalho espiritual para fazer mal a ele, declaração que fãs consideraram um ato de intolerância religiosa. “Eu acredito tanto em negócio espiritual que travou até a minha garganta”, afirmou ele.
Dois dias depois, o participante desistiu do programa depois de ter tentado beijar sem consentimento a participante Jordana Morais. As pautas políticas, no entanto, não deixaram o programa no rastro da saída do vendedor.
Ainda no começo da temporada, Matheus Moreira entrou na casa depois de ser um dos vencedores de uma prova de resistência em que participantes ficaram trancados num quarto todo branco. Durante sua passagem pelo jogo, o bancário disse que Renault era a patroa da participante Milena, uma mulher negra, dando a entender que a participante não tinha vontade própria.
“Patroa! Isso é patroa! Defende [as minorias], julga a elite brasileira e faz igual”, disse Moreira, para quem a jornalista poderia ser eliminada em razão de seus posicionamentos. “Tem muita gente que não concorda com as ideias políticas dela, ainda mais a galera da bola, por exemplo. Os empresários não concordam.”
Da mesma forma que Pedro, ele teve vida curta no programa. Foi eliminado com 79,48% dos votos depois de ter sido acusado de racismo e homofobia pelo público. Depois da eliminação, o elenco parece ter entendido que falar tão abertamente sobre política não era uma boa ideia. No entanto, a casa não só já estava polarizada, mas também inflamada. A partir daí, a crítica e a discordância passaram a gerar respostas viscerais que não raro descambam para episódios de intimidação física.
O clima que impera no programa é regido pela lógica do nós contra eles. De um lado, está um grupo considerado conservador, liderado por Alberto Cowboy e Jonas Sulzbach. No outro extremo, estão nomes como Ana Paula Renault, Babu Santana e Juliano Floss, figuras associadas a agendas progressistas.
Diante desse cenário, qualquer faísca dá início a explosões de fúria que resultam em expulsões. Foi o que aconteceu neste sábado, quando o ex-jogador Edilson Capetinha foi desclassificado por ter empurrado o rosto de Leandro Rocha durante uma briga. Situação parecida foi observada na quarta-feira, depois que Sol Vega gritou com Ana Paula Renault, pegou no braço dela e pisou no pé da participante.
Longe de ser uma atração anódina ou desconectada da realidade, o BBB é uma caixa de ressonância que reverbera o humor do país e os debates que acontecem na sociedade.
Em 2004, por exemplo, Sol Vega sofreu ataques racistas em sua primeira passagem pela atração sem maiores incômodos do público ou da produção do programa. Em 2021, porém, o cenário era outro. À época, o professor João Luiz acusou o cantor Rodolffo de racismo depois de o artista ter comparado o seu cabelo à peruca da fantasia de um homem das cavernas.
Naquele momento, o comentário racista não passou despercebido. Tiago Leifert, então apresentador da atração, explicou por que a fala do artista era problemática. Por sua vez, o público decidiu eliminar o cantor pouco tempo depois do imbróglio.
O caso mostra como essa edição ecoou uma onda de preocupações antirracistas impulsionadas pela morte de George Floyd, em maio do ano anterior.
Num país onde a polarização atinge 74% dos brasileiros, como mostrou o Datafolha, o maior reality show do Brasil parece agora ecoar os ânimos exaltados e a rivalidade extremada que domina as redes sociais e as rodas de conversa em ano eleitoral. Resta saber agora qual lado sairá vitorioso dessa disputa não apenas no reality, mas também na política.



