SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Os primeiros movimentos da Turquia como anfitriã da COP31, conferência das Nações Unidas sobre mudança climática, parecem indicar que o fim do uso dos combustíveis fósseis não deve ser uma prioridade.

O primeiro rascunho da chamada Agenda de Ação da cúpula elenca 14 temas prioritários. Apesar de mencionar a “transição da energia limpa”, o documento não cita a necessidade de adotar medidas para abrir mão do petróleo, gás e carvão —cuja queima é a principal fonte dos gases de efeito estufa que aquecem o planeta.

A informação foi divulgada pelo jornal britânico The Guardian e confirmada pela Folha.

Agenda de Ação é como são chamados a mobilização e os acordos entre a chefia da COP e setores não estatais. As decisões tomadas nesse âmbito não são negociadas entre todos os países nem têm força de lei, como acontece com aquelas decididas por consenso.

Esse espaço costumava ser uma pequena parte das cúpulas climáticas, mas ganhou mais evidência na COP30, por iniciativa da presidência brasileira do evento.

A presidência da COP31 é da Turquia, que dividirá a posição com a Austrália, em um acordo sem precedentes que dividiu as atribuições. O evento acontecerá na cidade de Antália, no litoral turco, mas os australianos coordenarão as negociações diplomáticas.

Nesse acordo, a Agenda de Ação está a cargo da Turquia —o que fica evidente pelo teor do primeiro rascunho do documento. Os primeiros tópicos citados são “zero lixo” e “turismo e herança cultural”, que não costumam ser prioritários em debates climáticos, mas são importantes internamente.

O turismo chega a representar até 12% da economia do país, segundo estimativas do setor. Já as bandeiras da gestão adequada de resíduos e da “economia circular” vêm sendo levantadas há alguns anos pela primeira-dama turca, Emine Erdoğan.

E, apesar de aterros sanitários serem uma fonte de gás metano, um poderoso gás de efeito estufa, ele é muito mais abundante em outras situações —como a queima de gás natural e os arrotos do rebanho bovino.

Enquanto isso, a transição energética ocupa apenas o 13º lugar na lista, e somente sob aspectos como “aumentar a eficiência energética” e “aumentar a eletrificação em setores-chave da economia”.

O texto também cita “transformar em ação ambições de mitigação”, como são chamadas estratégias para reduzir emissões de carbono, mas sem tratar das fontes dessas emissões. Além dos combustíveis fósseis, o desmatamento é uma fonte importante de gases de efeito estufa.

Andreas Sieber, chefe de estratégia política da ONG ambientalista 350.org, explica que a reforma da Agenda de Ação feita pela presidência brasileira da COP30, que deu a ela um peso político renovado, representou um progresso real. “Mas, para ser eficaz, ela também deve permitir as conversas mais difíceis”, afirma.

“Quatorze prioridades, 50 subprioridades e nenhuma referência explícita aos combustíveis fósseis parece ser menos uma lacuna e mais uma escolha, especialmente depois que mais de 80 países apoiaram um roteiro para fazer essa transição”, ressalta ele.

Sieber lembra, no entanto, que este é apenas um rascunho, e os copresidentes da COP31 precisam usar os próximos meses para fortalecê-lo.

O ministro do Meio Ambiente, Urbanização e Mudança Climática, Murat Kurum, irá chefiar o evento pelo lado dos turcos. Sua contraparte australiana será Chris Bowen, ministro de Mudança Climática e Energia.

O modelo de copresidência foi adotado como solução para resolver um impasse entre os dois países sobre quem sediaria a COP.

O principal argumento usado pelo governo de Camberra era que uma cúpula climática na Oceania seria um instrumento para representar os interesses dos países insulares do Pacífico. Essas nações são algumas das que menos contribuíram para o aquecimento global, ao mesmo tempo que são extremamente ameaçadas por ele —correndo até mesmo o risco de desaparecer à medida que as geleiras do planeta derretem.

A região, porém, só é citada brevemente no último item da lista da Agenda de Ação, “cidades resilientes ao clima”, junto da África e da Ásia.

O oceano aparece como quinto tópico na lista de prioridades. Entre os objetivos listados estão o fortalecimento da resiliência de ecossistemas marinhos e costeiros e melhor adaptar comunidades aos impactos das mudanças climáticas, “incluindo a elevação do nível do mar, o aquecimento dos oceanos e eventos extremos”.