BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) – “Everybody Digs Bill Evans” é o nome do segundo álbum do músico Bill Evans, de 1959. Na capa do disco, grandes nomes do jazz falam sobre o pianista nascido em Nova Jersey, nos Estados Unidos. “Aprendi muito com Bill Evans. Ele toca piano da maneira como deve ser tocado”, escreveu o trompetista Miles Davis, uma das maiores figuras do jazz.
“Everybody Digs Bill Evans”, algo como “todo mundo adora Bill Evans”, é a biografia daquele que é considerado o maior pianista de toda a história desse gênero musical, dirigida pelo britânico Grant Gee e exibida nesta sexta-feira (13), no Festival de Berlim. O filme começa, na verdade, com uma das audições que originou outros dois discos, gravados ao vivo, “Sunday at the Village Vanguard” e “Waltz for Debby”, lançados em 1961 e 1962, nesta ordem.
Chamar de biografia talvez seja um exagero. Mais preciso seria dizer que é um fragmento dela, no caso os meses em que Evans se afundou em heroína e depois na própria família para curar o luto pela morte do baixista Scott LaFaro, num acidente de carro, logo depois das gravações dos álbuns históricos. A perda é enorme, a ponto de Evans afirmar que não seria mais possível continuar com sua carreira sem LaFaro.
Gee, que começou na Zoo TV, a emissora das turnês do U2 nos anos 1990, tem uma carreira de documentários relacionados ao universo musical, com filmes sobre David Bowie e Radiohead, entre outros. Sua familiaridade com o gênero transparece nas primeiras cenas do novo longa, quando retrata com precisão a complexa relação das notas sendo tocadas pelo trio formado por Evans, LaFaro e o baterista Paul Motian.
“Everybody Digs Bill Evans” vai além da música, porém. Em preto e branco, transmite a angústia que impede Evans de tocar depois da morte do colega. Abrigado na casa do irmão, que estudou piano, foi copiado pelo caçula e depois simplesmente superado. Nas imagens, Evans toca a composição “Waltz for Debby” para a sobrinha, que dá nome à faixa, em absoluto sacrifício.
É assim, pesado e alheio ao tempo, que Anders Danielsen Lie, o ator norueguês de “A Pior Pessoa do Mundo” e “Valor Sentimental”, longas do diretor Joachim Trier, que com o último concorre ao Oscar junto com o nacional “O Agente Secreto”, encarna o pianista em cena.
Todos ao seu redor ali esperam que ele volte a tocar música, mas não sabem exatamente como ajudar. O irmão desiste de tentar sozinho e o manda para a casa dos pais aposentados, na Flórida.
É sob os cuidados da mãe, interpretada no filme pela atriz Laurie Metcalf, que Evans se recupera fisicamente da “bad trip” daquele momento outras virão, ele era um adito, mas é conversando com o pai, papel de Bill Pullman, que o pianista parece se dar conta do próprio tamanho. Não pelos elogios, que são muitos, o pai tem orgulho das conquistas do filho, mas por confessar a sua própria mediocridade a Evans.
A atuação de Pullman é uma surpresa, ressaltada pela forma como Grant Gee filma, sobrepondo seus personagens em cada quadro. Como diz a mãe, com a frase que inspira o título da biografia de Evans escrita por Owen Ortell, “Intermission”, “às vezes, um intervalo faz parte da música”.
Outros lutos que moldaram o pianista são lembrados no filme, em passagens coloridas, inclusive o seu próprio, no ano de 1980. Como reflexos tardios daquelecintervalo que faz parte da música e explica o resto da história.
Haveria muito mais a contar. Bill Evans tocou com Miles Davis, mas logo os dois se desentenderam, diferença que aparece sutilmente no filme. Ainda assim, Davis o trouxe de volta em 1959 para gravar “Kind of Blue”, o disco de jazz mais vendido de todos os tempos. Evans, dizem os especialistas, mudou Davis e também até mesmo a sua maneira de tocar.
Luto também é o pano de fundo de outro filme da competição oficial da Berlinale exibido nesta sexta-feira. “À Voix Basse”, de Leyla Bouzid, conta a história de uma jovem tunisiana que volta de Paris para o funeral do tio. Aparece na casa da avó com a amiga de quarto, na verdade sua namorada, num país onde a homossexualidade é até hoje um crime.
Bouzid já foi homenageada no Festival de Cannes, na França, há uma década, com o prêmio da Fundação Kering, o Women in Motion, destinado a mulheres que se destacam no cinema mundial e que recentemente foi dado à brasileira Marianna Brennand, diretora do premiado “Manas”. Em Berlim, a cineasta faz a sua estreia. Naquele mesmo ano, Bouzid lançou “Assim Que Abro Meus Olhos”, seu longa mais conhecido.



