BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – A consultoria Crédito e Mercado, que endossou a compra de R$ 122 milhões em letras financeiras do Banco Master por fundos de Previdência, também indicou a aplicação em um fundo de investimentos gerido por empresa de Daniel Vorcaro que é alvo de processo na CVM (Comissão de Valores Mobiliários).
Trata-se do fundo Horus Vetor, que desde 2020 é investigado pela autarquia por operação fraudulenta. O fundo era gerido pela Compostela Capital, de Tiago Schietti e Vicente Conte, ex-sócios de Vorcaro e alvos da Polícia Federal na operação Compliance Zero.
Schietti confirmou ter sido alvo da segunda fase da operação Compliance Zero, mas disse não saber o motivo. Também disse nunca ter sido sócio de Daniel Vorcaro.
Como mostrou a Folha, o CEO da Crédito e Mercado, Renan Calamia, foi condenado em dezembro do ano passado por gestão temerária, por ter sugerido aportes no Horus ignorando restrições regulatórias e ausência de parecer independente.
De 13 institutos de previdência de servidores que fizeram aportes no Horus, seis eram assessorados pela Crédito e Mercado os municípios paulistas de Santo Antônio de Posse, Itapevi, Itanhaém, Ilhabela e Caieiras, além de Campo Mourão (PR), que juntos colocaram R$ 10 milhões no fundo.
A Compostela, gestora do fundo, tinha participação de Vorcaro e do sócio Vicente Conte por meio de uma terceira empresa, chamada Zion Participações, que detinha 25% da gestora.
Apesar de ter elaborado parecer favorável, a Crédito e Mercado disse que não emite opinião sobre atratividade de investimento e que avaliou o fundo a pedido do cliente.
A empresa enviou à reportagem um termo de encerramento de processo da CVM que avaliou a conduta da consultoria no caso do Horus, em 2020. O processo por gestão fraudulenta do fundo Horus, no entanto, segue em aberto.
Procurado por email, Vicente Conte confirmou a sociedade com Tiago Schietti, mas disse que não sabia da existência do fundo Horus Brasil.
A defesa de Daniel Vorcaro afirmou que não vai comentar o assunto.
No parecer sobre o Horus enviado pela Crédito e Mercado ao Iprem de Santo Antônio de Posse (SP), Calamia descreve o potencial turístico de Florianópolis, onde o fundo possui apartamentos, e diz que os ativos podem ter valorização de 94%.
“Sugerimos o aporte tendo em vista a diligência realizada na gestora, observando-se a qualidade do processo de gestão, dos processos de risco e compliance”, diz o documento.
O texto é idêntico ao enviado ao instituto de previdência de Itanhaém, o Itanhaém Prev, mas assinado por outro consultor. Há sucinta menção a risco: “Os principais riscos [em] que o fundo incorre estão diretamente relacionados a ‘mercado’, ‘crédito’ e ‘liquidez'”.
Ambos os documentos identificam Vicente Conte Neto como diretor-presidente da Horus Investimentos (nome anterior da Compostela), mas o empresário diz que nunca ocupou cargo na gestora. “Eles cometeram fraude usando tanto o meu currículo do mercado financeiro quanto este documento que acaba com a minha assinatura. Isso é muito grave.”
Atas dos institutos de previdência de Ilhabela e Campo Mourão, que juntos aportaram R$ 3,5 milhões no Horus, também vincularam os aportes no Horus à análise da Crédito e Mercado.
“Conforme análise enviada pela consultoria, foi aprovado [sic] realocação do fundo multimercado da Caixa para o fundo Horus Vetor”, diz ata do comitê de investimento do Ilhabela Prev.
O Itanhaém Prev encaminhou à reportagem os documentos referentes ao aporte e afirmou que o Fundo Horus obteve rendimento positivo no período que fez parte da carteira do Itanhaém Prev. Também disse que a Polícia Federal arquivou investigação sobre o investimento.
Além de colocar dinheiro no Horus, os institutos de Caieiras, Itapevi, Campo Mourão e Santo Antônio de Posse também fizeram aportes de cerca de R$ 15 milhões em outro fundo ligado a Vicente Conte e Daniel Vorcaro, o Brazilian Graveyard and Death Care Services.
O Banco Master foi administrador e cotista do Graveyard, que era gerido pela Zion Capital, da qual Vorcaro foi sócio.
Em Ilhabela, quem apresentou a proposta de investimento no Horus e no Graveyard foi um ex-funcionário da Crédito e Mercado. Na época, ele havia deixado a consultoria e estava trabalhando para a Compostela, que então se chamava Horus Investimentos.
A Folha de S.Paulo pediu aos fundos de previdência dos municípios de Campo Mourão, Caieiras, Itapevi e Ilhabela os documentos de análise técnica que embasaram o aporte no fundo Horus, mas não obteve retorno até o fechamento da reportagem.
Segundo auditoria da CVM, os gestores da Compostela aplicaram dinheiro do fundo em empresas das quais eram sócios e compraram ativos cujos pagamentos depois se reverteram a eles mesmos.
Em abril de 2017, uma companhia controlada pelo fundo adquiriu apartamentos em Florianópolis por meio de contratos não registrados. O dinheiro da venda voltou para um terceiro, que transferiu R$ 230 mil para Tiago Schietti, segundo a CVM.
Em dezembro de 2017, a mesma companhia adquiriu terrenos e empresas pertencentes a Tiago e a Lucas Schietti, seu irmão, também sócio da Compostela.
Em maio de 2018, o Horus Brasil adquiriu direitos de jazigos funerários por valor três vezes maior do que haviam sido comprados a mercado três meses antes. Na sequência, o vendedor dos jazigos realizou transferências de R$ 434 mil para Tiago.
O Horus foi liquidado em 2019, após notificação da Secretaria de Previdência Social sobre desenquadramento dos cotistas, que eram regimes de previdência de estados e municípios. A gestora então devolveu aos cotistas um valor nominal 6% maior do que o aportado.
Em 2020, a CVM instaurou processo administrativo sancionador contra Lucas, Tiago e outros gestores da Compostela Capital (antiga Horus) por gestão fraudulenta e em junho do ano passado recusou proposta de acordo citando a gravidade do caso.
Em entrevista à Folha, Tiago Schietti disse que o regulamento do fundo permitia transações com partes relacionadas (quando a gestora aplica em negócios dos próprios donos) e argumentou que os cotistas não saíram no prejuízo o rendimento para os RPPS foi de 2,3% acima da inflação, em média.
“A Zion entrou na Horus Investimentos porque a Horus estava estruturando investimentos em setores de interesse”, disse Vicente Conte Neto por email. “Contudo esses investimentos não foram executados, e as sociedades deixaram o capital social da Horus Investimentos.”
Vicente também confirmou ter sido alvo de medida cautelar de busca e apreensão no âmbito da Compliance Zero, mas disse que ainda não teve acesso aos autos da petição.
O professor de Economia do Ibmec Brasília Renan Silva diz que gestores de fundos de investimento têm “dever de lealdade e diligência para com os cotistas, agindo sempre no melhor interesse do fundo”.
“A CVM exige que qualquer operação envolvendo partes relacionadas seja conduzida em condições de mercado, com total transparência, idealmente com a aprovação de um comitê de investimentos independente ou por meio de pareceres de avaliação de terceiros”, disse.
Para Silva, o fato de “os gestores não serem cotistas é o ponto mais sensível e um forte indicativo de falta de alinhamento de interesses” já que, ao não terem participação nos fundos, eles não correm riscos no caso de perderem valor.



