SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A Raízen vai receber uma injeção de capital da Cosan e da Shell, acionistas controladoras da companhia, segundo o CEO Nelson Gomes. A empresa registrou prejuízo líquido de R$ 15,6 bilhões no quarto trimestre do ano passado, número seis vezes maior do que no mesmo período de 2024.
Durante teleconferência na manhã desta sexta-feira (13), o executivo disse que os controladores da Raízen se comprometeram com a missão de resolver os problemas financeiros da empresa, mas não indicou qual será o tamanho do aporte. As ações subiam 4,5% no início da tarde, cotadas a R$ 0,70.
A companhia, uma das maiores produtoras globais de açúcar e etanol, além de uma das principais distribuidoras de combustíveis do Brasil, enfrenta prejuízos e dívidas crescentes.
Uma combinação de fatores culminou nesse cenário. Perdas de safras na cana-de-açúcar, problemas na distribuição de combustíveis, que só recentemente têm melhorado, e a pressão dos juros altos, que ajudam a turbinar os passivos. Também pesaram os altos investimentos em etanol de segunda geração, que ainda não deram o retorno esperado.
“Esse processo todo [de avaliação de alternativas] está sendo conduzido pela companhia em conjunto com os acionistas controladores, que se comprometeram em contribuir com capital dentro de uma solução que seja consensual, estruturante e principalmente que seja definitiva para que a companhia possa operar no longo prazo”, disse Gomes em conferência com investidores.
O CEO se limitou a dizer que o processo de reestruturação teve início meses atrás, com a tomada de medidas que resultassem em economia operacional, como a simplificação do portfólio, e deve se prolongar “por mais alguns meses”.
Diante desse cenário, havia uma expectativa do mercado de que a Raízen anunciasse neste período de divulgação de balanço uma recuperação judicial. A companhia, no entanto, voltou a negar essa possibilidade. Em outubro, a produtora de combustíveis já havia informado o mercado que tinha uma posição de caixa robusta, à época de R$ 15,7 bilhões, e hoje essa posição ultrapassa os R$ 17 bilhões.
“A gente tem experienciado aqui ao longo dessas últimas semanas muita especulação. E nós temos o dever e a responsabilidade de não ficar especulando sobre as potenciais estruturas, as potenciais iniciativas, até que a companhia, em conjunto com os acionistas controladores, conclua todo esse trabalho”, disse Gomes.
No balanço do terceiro trimestre da safra atual, a Raízen informou que o Ebitda (lucro ajustado antes de juros, impostos, depreciação e amortização) caiu 3,3% em relação ao ano anterior, para R$ 3,15 bilhões. A receita líquida ficou em R$ 60,4 bilhões no período de outubro a dezembro, representando uma queda de 9,7% em relação ao ano anterior.
A empresa registrou uma dívida líquida de R$ 55,3 bilhões no período de abril a dezembro, um salto de 43,3% em relação ao mesmo período de 2024.
Segundo os diretores da Raízen, 90% da posição de caixa é composta por dinheiro com liquidez imediata. Eles fizeram questão de pontuar que esses valores estão aplicados em “bancos de primeira linha”, sem ativos de risco e seguindo posição bastante conservadora de investimentos uma clara tentativa de afastar qualquer rumor que indique a possibilidade de ter esse dinheiro em bancos com problemas, como aconteceu com o Banco Master.
O diretor de relacionamento com investidores, Phillipe Casale, negou que a companhia tenha um problema operacional, mas passa por um desafio dentro do contexto atual do mercado de produção de etanol e açúcar.
No balanço divulgado nesta quinta-feira (13), a Raízen reportou um provisionamento (perda contábil) significativo de R$ 11,1 bilhões, decorrente do nível de endividamento de encargos financeiros, além da deterioração do cenário de crédito que se refletiu em rebaixamentos sucessivos nas agências de classificação de risco.
“Essa provisão não tem efeito caixa e pode ser revertida no futuro, à medida que as condições de mercado sejam pela melhoria do ambiente macroeconômico ou pelo avanço no equacionamento das estruturas de capital”, disse Casale.



