SÃO PAULO, SP 9FOLHAPRESS) – O professor brasileiro que se escondeu com alunos do ataque a tiros que deixou nove mortos em uma escola no Canadá, na terça-feira (10), dá aulas de ciência com engenhocas que fabrica e usa a história de quando pedalou do interior de São Paulo ao Alasca para despertar a curiosidade e conquistar a atenção de seus estudantes.
À Folha Jarbas Noronha, 58, conta que aprendeu no Brasil a ensinar com as mãos para engajar alunos –rotina que reproduzia em Tumbler Ridge. No espaço de mecânica da escola canadense, ele mostrava a uma turma como trocar óleo de motores quando um estudante voltou do estacionamento com relatos de disparos.
“Todos os meus alunos saíram fisicamente bem. Emocionalmente foi muito forte pra eles, porque enquanto tudo estava ocorrendo eles estavam usando o celular. Eu autorizei, queria que se comunicassem com os pais,” diz.
“Mas ao mesmo tempo eles estavam entrando em contato com outros alunos escondidos em outros lugares da escola, e eventualmente algumas fotos muito gráficas [impactantes] passaram pelos celulares. Eu tentava que eles não ficassem compartilhando muita informação negativa, porque eu não queria que entrassem em pânico.”
Ele conta que, mesmo que os alunos estivessem nervosos, tentou mantê-los ativos. Estabeleceram um plano de fuga e construíram uma barricada. “Eles se comportaram excelentemente.”
Natural de Mogi das Cruzes (SP), Noronha lecionou no Colégio Poliedro, em São José dos Campos, nos anos 2010, onde dava aulas de ciência para turmas do ensino fundamental. Alunos e colegas o apelidaram de “Professor Pardal”, referência ao personagem inventor dos quadrinhos da Disney, e suas aulas eram aguardadas como momento de descompressão.
Fazia foguetes de garrafa PET e ar comprimido, entrava em um aquário para que os estudantes calculassem o deslocamento de água, fabricava catapultas, produzia labaredas dentro da sala de aula para demonstrar vibração do som e montava planetários motorizados em miniatura.
“Jarbas é um profissional que gosta de envolver o aluno, promover projetos e fazer o estudante colocar a mão na massa. Um professor realmente muito especial”, diz Kadu Lambert, consultor educacional do Poliedro.
Alto, magro e de cabelos longos desde a juventude, foi tido como o Visconde de Sabugosa oficial de Monteiro Lobato (SP) por quase uma década. Começou por conta própria, por volta de 2009.
“Avisei só um assistente do prefeito que uma visita ilustre ia aparecer no aniversário da cidade”, conta. Chegou fantasiado, com roupa costurada pela sogra. “Foi o maior sucesso, tirei fotos com todo mundo, cortei o bolo.” Conhecido na cidade, foi eleito vereador e exerceu mandato de 2012 a 2016.
Passou a dar apresentações de “ciência maluca” caracterizado como o personagem de Monteiro Lobato em festas e festivais, e outras cidades da região, como Taubaté e Ubatuba, começaram a chamá-lo.
Estudou arquitetura na USP no fim dos anos 1980, mas largou o curso para viajar de bicicleta até o Alasca. A viagem durou um ano, quatro meses e 25 dias contados. Quando virou professor, passou a reservar uma aula anual para contar a história da travessia, com fotos e relatos, aos novos alunos.
A bicicleta usada na viagem era toda adaptada e pesava quase o equivalente ao peso corporal do professor à época. Entre as rotinas relatadas estavam as de escovar os dentes enquanto pedalava e reunir reportagens de jornais sobre sua história por onde passava para facilitar o processo de obtenção de vistos dos próximos países no roteiro. A maioria das estadas era na casa de nativos simpatizantes com o jovem.
Trabalhou como marceneiro no Alasca de 1997 a 2000. De volta ao Brasil, fundou em 2005 a Bicho Carpinteiro, uma marcenaria em Monteiro Lobato especializada em brinquedos de madeira. Organizava mutirões para fabricar brinquedos que eram distribuídos no Natal.
A partir de 2009, passou a montar um presépio articulado na praça de Monteiro Lobato, todo feito com sucata –motores de micro-ondas, toca-discos e bomba de máquina de lavar- e bancado do próprio bolso, com ajuda de colaboradores.
A ideia vinha de uma experiência na viagem de bicicleta. Em dezembro de 1993, Noronha parou no vilarejo de El Chol, na Guatemala. O anfitrião que lhe deu hospedagem, Carlos, tinha um presépio de 3 por 7 metros e pediu que ele acrescentasse peças com movimento. Noronha ficou até o Natal e construiu oito peças móveis com motores de toca-fitas, eixos de bambu e polias de papelão. Prometeu a si mesmo que repetiria o projeto quando criasse raízes em outro lugar.
Em 2018, ele soube que uma moto Honda CB 750K de 1977 que comprara em 1994 ainda estava no fundo do quintal de um amigo no Alasca, parada desde 2000. Pediu um ano de licença ao colégio em que trabalhava em São José dos Campos. “Você tem duas opções, ou você me dá um ano de folga ou você me demite, porque eu vou buscar”, disse ao diretor. Ganhou a folga. Em 2019, reformou a moto e viajou quatro meses do Alasca a São José dos Campos.
No caminho, parou por dez minutos em Tumbler Ridge para visitar Joline Couture, uma canadense que conhecera em um site de relacionamento em 2001 e com quem mantinha contato online havia quase duas décadas. Durante a pandemia de Covid-19, passaram a se falar todo dia. Em fevereiro de 2022, Noronha embarcou para o Canadá. Três meses depois, estavam casados.
Em Tumbler Ridge, trabalhou dois anos como empreiteiro antes de uma vaga na escola local abrir para professor de ciências aplicadas, em uma rotina similar à que tinha com os alunos brasileiros.
Na tarde de terça, ele e os alunos canadenses ficaram mais de duas horas na oficina até que policiais bateram à porta e os escoltaram. Noronha só soube da dimensão do ataque ao chegar em casa, por volta das 19h. A sala atingida foi a do 7º ano, os alunos mais jovens. A biblioteca, segundo ele, ficou destruída.
Disse não acreditar que as aulas voltem em menos de duas semanas. Os carros dos professores ainda estavam no estacionamento, em área de investigação. “A gente tá levando dia a dia”, afirmou.
Nas redes sociais, registra todas suas invenções e viagens há mais de uma década. “Eu sempre tento ser bastante positivo. Quero transmitir um pouco do que é divertido viver.”



