SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A Mocidade Unida da Mooca vai homenagear o Geledés – Instituto da Mulher Negra em sua estreia no Grupo Especial do Carnaval de São Paulo nesta sexta-feira (13), no Sambódromo do Anhembi.
Vice-campeã do Grupo de Acesso em 2025 com enredo inspirado no escritor e líder indígena Ailton Krenak, a escola de samba desfila este ano com “Gèlèdés Agbara Obinrin”, uma ode à força das mulheres negras.
“Recebemos a notícia com surpresa. Embora o Carnaval e suas escolas sejam expressões centrais da cultura negra brasileira, são raras as ocasiões em que o movimento de mulheres negras ocupa espaço na avenida”, afirma a diretora do Geledés, Natália de Sena Carneiro. O anúncio do samba-enredo aconteceu no aniversário de 37 anos da organização.
Sueli Carneiro, Nilza Araci, Lilian do Santos e outras representantes da diretoria do Geledés participarão do desfile ao lado de nomes como o da escritora Conceição Evaristo, da filósofa e pedagoga Helena Theodoro e da jornalista Semayat Oliveira. “Fizemos questão de que mulheres de outras organizações compartilhassem a avenida com Geledés, reafirmando o caráter coletivo dessa história”, completa Natália.
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deputada federal Erika Hilton e a vereadora Amanda Paschoal (ambas do Psol) também se juntarão ao grupo, ao lado da empresária Eliane Dias, da ativista Lucia Xavier e da curadora de arte Rosana Paulino. As convidadas irão desfilar em diferentes carros, incorporando aspectos do enredo.
Esta é a primeira vez que a escola da zona leste de São Paulo sobe à elite paulista. Para o presidente Rafael Falanga, isso foi consequência do trabalho da comunidade. “São eles que entram na pista e trazem o resultado. Há pessoas conosco desde os desfiles de bairro; caso do mestre-sala Jefferson Gomes, que faz parte há 10 anos”, diz.
De acordo com ele, faz parte da identidade da Mocidade Unida da Mooca apresentar enredos que provocam reflexão e criam representatividade. “Foi assim que a gente se encontrou, falando do que a gente vive. E o Geledés converge com o que acreditamos enquanto comunidade.”
O instituto realizou rodas de conversa dentro da quadra, participou da concepção do desfile e esteve no lançamento dos protótipos das fantasias na Pinacoteca. A proposta da escola de samba é dar continuidade à parceria com o Geledés no período pós-Carnaval.
O carnavalesco Renan Ribeiro conta que o processo criativo da Mocidade Unida da Mooca começa pela criação do samba, processo comum entre as escolas nas décadas de 1930 e 1940. “A partir da composição, a gente pensa como dialogar esteticamente e discursivamente com o público.”
É nesse momento que entra a pesquisa, realizada por ele em conjunto com a enredista Thayssa Menezes. A função desempenhada por ela existe no Carnaval do Rio, mas é incomum em São Paulo.
“Com base nos artigos de Sueli Carneiro e dona Helena Teodoro e estudando mitos sobre a origem do mundo a partir da visão africana, a gente chegou ao tema ‘Agbara Obirin’, que traduzido do iorubá significa a potência feminina ou a energia da mulher africana”, conta ele.
A proposta é mostrar ao longo do desfile como essa energia se manifesta na história em diferentes períodos, relacionando os cultos iorubás destinados a divindades femininas na África caso da sociedade Geledé, que inspira o nome do Instituto Geledés, fundado por Sueli Carneiro e outras nove mulheres em 1988 em São Paulo, passando pela diáspora africana e chegando aos dias atuais no Brasil.
“O Geledé é uma sociedade ritual feminina de origem iorubá voltada à valorização da força, da inteligência e da centralidade das mulheres na organização da vida social. Trata-se de um culto que reconhece o poder feminino como fundamento do equilíbrio coletivo e que incorpora homens em seus rituais e processos, mas sem deslocar o protagonismo das mulheres”, conta a diretora do instituto.
De acordo com a enredista Thayssa, o enredo é todo construído a partir de espelhamentos da resistência, força e luta de mulheres negras a partir da coletividade. “Quando duas mulheres negras se encontram na rua, mesmo que não se conheçam, elas se cumprimentam porque sabem que carregam algo familiar. Estamos conectadas por essa força”, afirma ela.
“Chegamos no meio do desfile com um discurso mais político, anti-patriarcal, antirracista, anti-sexista. E na alegoria 3 propomos uma exaltação às mulheres de Candomblé enquanto líderes”, conta Ribeiro.
Sob o aspecto visual, pode-se esperar formas sinuosas nas alegorias e elementos que remetam à sofisticação e à elegância da mulher negra. O carro abre-alas foi majoritariamente construído com materiais orgânicos, como palha e bambu. O carnavalesco afirma que foi um trabalho artesanal de aproximadamente três meses, cortando pedaço por pedaço, amarrando e entrelaçando as partes que compõem a alegoria.
As cores de destaque são as da escola, com predominância do vermelho e do branco. A concepção contou com inspiração e contribuição da artista plástica Rosana Paulino, que participa do desfile no segundo carro alegórico.
Embora a escola seja formada principalmente por mulheres negras, muitas desconheciam as histórias citadas no enredo, conta Ribeiro. “Foi muito legal compartilhar com elas informações sobre a participação da mulher na construção do país e vê-las se descobrindo. Nosso samba tem um apelo muito grande. A conexão com ele vai fazer com que o público também entenda nossa mensagem.”



