SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) – O marido da professora que morreu após a exposição a cloro dentro do ambiente da piscina da academia C4 Gym, na zona leste da capital paulista, foi extubado na terça-feira (10) e começou a fisioterapia respiratória.

Vinicius de Oliveira, 31, foi internado na UTI no último sábado (7) após passar mal depois de participar de uma aula de natação. O estado de saúde do homem ainda é grave, mas considerado estável, informou o pai dele, Hélio de Oliveira, 63, em entrevista ao UOL. “Ele está muito abalado, mas se recuperando e está consciente”, acrescentou.

A esposa de Vinicius, Juliana Faustino Bassetto, 27, morreu na noite de sábado. Ao menos sete pessoas passaram mal depois de entrarem em contato com a água. Vinicius e Juliana foram hospitalizados no Hospital Santa Helena, em Santo André, mas a professora sofreu uma parada cardíaca e não resistiu.

Vinicius e a esposa faziam as aulas de natação na academia “quase todo dia”, segundo o pai dele. Hélio detalhou que o casal estava se preparando para participar da Fuga das Ilhas, na Barra do Sahy, no litoral de São Paulo, que é uma tradicional travessia de natação em águas abertas e circuito de aquathlon, conhecida por levar atletas de barco até a ilha, de onde nadam de volta ao continente (1.500m).

“Ele estava se preparando para fazer outras travessias. Então, por isso que ele nadava todo dia, todo dia”, disse Hélio de Oliveira, pai de Vinicius.

CASAL ESTAVA JUNTO HÁ 14 ANOS

Relacionamento começou quando Juliana tinha 13 anos. Segundo o pai de Vinicius, os dois chegaram a morar juntos por dois anos e depois se casaram.

O marido soube da morte da esposa por meio do pai, no mesmo dia. “Depois do falecimento dela [Juliana], eu já peguei e falei, não escondi… nós choramos, ele pediu para fazer uma oração e nós fizemos uma”, contou Hélio.

Desde o ocorrido, Hélio afirmou que academia não entrou em contato com a família. “A gente não recebeu nenhum telefonema da academia, a gente nem sabe quem são”, disse o pai de Vinicius.

EXCESSO DE CLORO CAUSOU A MORTE DA PROFESSORA

Uso excessivo de cloro foi o que causou a morte de Juliana, disse a Polícia Civil. O excesso do produto também causou a intoxicação de ao menos sete pessoas após usarem a piscina da academia C4 Gym.

Negligência em tratamento com piscina era recorrente. Segundo a polícia, o manobrista responsável pela limpeza, Severino José da Silva, deixou claro que a negligência no tratamento da piscina “é coisa corriqueira” na academia, explicou o delegado Alexandre Bento, responsável pela investigação.

Sócios da academia, Cesar Bertolo Cruz, Celso Bertolo Cruz e Cezar Miquelof foram indiciados por homicídio com dolo eventual. O dolo eventual ocorre quando o investigado não deseja diretamente o resultado morte, mas assume o risco de produzi-lo ao adotar determinada conduta.

“Houve por parte dos proprietários da empresa um descuido deliberado de forma gananciosa, para que o resultado ocorresse. Por isso foram indiciados noite de ontem. Que fique claro que os sócios apareceram aqui sem um agendamento prévio. A delegacia não esperava essas pessoas na tarde de ontem, contudo aproveitamos para colher o depoimento deles. O pouco que disseram foi para tentar incriminar o Severino”, disse o delegado Alexandre Bento.

Severino afirmou em depoimento que fazia misturas orientado pelo chefe e deixava na borda da piscina. Segundo o manobrista, ele não jogava os produtos -seria o professor de natação o responsável por isso, após o fim das aulas, explicou o delegado.

Ainda no domingo o odor na área estava insuportável, segundo o delegado. A perita precisou, inclusive, trabalhar com máscara e oxigênio.

Delegado afirmou que empresários agiram visando apenas o lucro e que caso é “tragédia anunciada”. “O envenenamento por cloro é fatal. O que aconteceu não foi uma fatalidade, foi uma tragédia anunciada, que poderia ter sido evitada, se os sócios não visassem só o lucro, contratassem uma pessoa responsável para fazer as medições, acompanhar o ciclo, e realizar o tratamento. Eles faziam tudo isso visando o lucro máximo para que a piscina não fosse fechada, usavam de segunda a segunda”, destacou Alexandre Bento.

“Ficou bem claro na nossa investigação a manipulação por parte dos empresários. Eles ocultaram a presença de outro manobrista, na noite de sábado, tentaram atrasar a oitiva do Severino. Não explicaram por que mandaram outro funcionário à noite na academia. O funcionário falou que foi ao local para abrir as janelas da piscina, mas não havia janelas. Eles buscaram dificultar a investigação”, disse o delegado Alexandre Bento.

DONOS DA ACADEMIA TENTARAM ATRAPALHAR INVESTIGAÇÃO

Sócios teriam dificultado o acesso da polícia aos produtos usados na piscina. “Tivemos que fazer isso com força policial. Fica claro o descaso deles com as pessoas”, afirmou Bento.

Houve mistura de dois cloros de marcas diferentes. Esses produtos, em contato com a água do balde, causaram a intoxicação nas pessoas. Não havia no local nenhum equipamento de proteção individual, segundo a polícia.

Balde com água e cloro foi colocado a cerca de dois metros da borda da piscina. Sete alunos ainda nadavam na piscina, quando o homem é visto em câmeras de segurança deixando o recipiente no local.

Polícia aguarda exame pericial no local, laudos da água da piscina, do produto químico que provocou a morte e o laudo do IML. Mais funcionários devem ser ouvidos, segundo a polícia. “Essas oitivas estão sendo dificultadas pelos sócios. Eles também não oferecem suporte para as vítimas”, acrescentou o delegado.

O QUE DIZ A ACADEMIA

Direção da Academia C4 Gym lamentou “profundamente” o ocorrido após a morte da professora. Também informou que prestou “imediato atendimento a todos os envolvidos” e que tem mantido contato direto com as pessoas envolvidas a fim de oferecer todo o suporte.

“Assim que os alunos relataram odor forte na área da piscina, toda a academia foi evacuada e o SAMU e o Corpo de Bombeiros foram acionados. Devido à demora do SAMU, um dos atendentes da academia solicitou auxílio a uma viatura da GCM, que se dispôs a socorrer Juliana. Os policiais informaram que poderiam levá-la apenas ao hospital mais próximo, na Vila Alpina, mas os acompanhantes optaram por levá-la a uma unidade de seu plano de saúde, em Santo André”, disse a C4 Gym, em nota.