BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) – “Eu também tenho uma pergunta política.” Após 15 de minutos de conversa sobre como o cinema pode mudar as pessoas ou ao menos as perspectivas em meio a um mundo tão violento, a questão parecia ter sido elaborada para causar constrangimento.
Como o júri do Festival de Berlim, tão solidário com Irã, Ucrânia e outros, lidava com o fato de seu principal patrocinador, o governo alemão, “apoiar o genocídio em Gaza”?
Diretora do evento, Tricia Tuttle ainda tentou pular a pergunta. “Digo, acho que queremos também falar de filmes.” O repórter, que não informou seu nome ou veículo, insistiu: “Filmes são políticos, você acabou de dizer.”
“Os filmes não são políticos no sentido literal”, afirmou então Ewa Puszczynska, produtora de “Ida” e “Zona de Interesse”, entre outros. “São sobre empatia, como Wim [Wenders] acabou de falar. É sobre tentar entender, formar sua própria opinião. Acho injusto fazer essa pergunta para nós. Estamos tentando conversar com as pessoas, com cada um dos espectadores, fazê-los pensar.”
Ao seu lado, o diretor de “O Amigo Americano” e “Asas do Desejo”, emendou: “Não podemos realmente interferir na política, temos que nos manter fora dela”. Para Wenders, presidente do júri deste ano, fazer filmes dedicados exclusivamente à política seria entrar em seu campo. “Nós somos o contrapeso da política. Somos o oposto da política. Temos que fazer o trabalho das pessoas, não o dos políticos.”
Até então, a entrevista do grupo que vai escolher, entre 22 produções, qual merecerá o Urso de Ouro na próxima semana, era um passeio sobre a importância do cinema, nesta quinta-feira (12), em Berlim. “Cinema é soft power”, “cinema é como entrar em outro universo”.
Wenders, 80, falava da sensação de entrar no universo alheio quando um filme começa a passar na tela. “É uma ótima experiência sair do seu próprio mundo e entrar no de outra pessoa. Às vezes, você se sentirá muito confortável e descobrirá coisas novas”, disse o diretor, em uma descrição que se encaixaria em “Dias Perfeitos”, seu último filme, sobre a rotina de um limpador de banheiros em Tóquio. “Não há nada mais bonito do que isso.”
A pergunta incômoda do jornalista não havia saído do nada. O próprio Wenders tinha declarado, minutos antes, que “filmes podem mudar o mundo”. Ponderou, no entanto, que se referia às pessoas, não aos políticos. “Podemos mudar a ideia que as pessoas têm de como deveriam viver. E existe uma grande discrepância neste planeta entre as pessoas, que querem viver suas vidas, e governos, que têm outras ideias.”
A fala se encaixaria desta vez no filme de abertura do festival, “No Good Men”, da afegã Shahrbanoo Sadat. Naru, personagem interpretada pela própria diretora, é uma cinegrafista de TV que enfrenta o machismo de um Afeganistão às vésperas da volta do Talibã ao poder, em 2021. Sadat é ainda produtora e roteirista do filme, que foi rodado na Alemanha.
Não é um drama, mas uma comédia romântica. Mostrar que uma história assim poderia acontecer mesmo em uma Cabul cheia de armas, atentados e à sombra de um regime brutal moveu a diretora. “O Afeganistão também é como o resto do mundo”, disse Sadat, ao jornal The Guardian, ao explicar sua opção, que inicialmente sofreu resistência de produtores europeus, preocupados com um eventual caráter alienante da obra.
A despeito do gênero escolhido, a produção não suaviza o violento cotidiano afegão para contar a história de amor. Ainda assim, não é na forma que “No Good Men” vira um filme político, marca de um festival com esse DNA. A cutucada do repórter no júri também se explica pela clara tentativa de Tuttle de manter polêmicas dentro dos filmes, não nas entrevistas ou nos corredores do festival, desde as acusações de antissemitismo de 2024.
A escolha de Sadat para o filme de abertura tem um recado sutil para o atual governo alemão, que recrudesce sua política imigratória desde a posse de Friedrich Merz, no ano passado. Afegãos, como Sadat, que mora em Hamburgo, são um dos grupos mais visados.
Não os que estão legalmente no país, como a diretora, mas milhares que estão estacionados em campos de refugiados no Paquistão, travados entre uma promessa de proteção alemã, da época da retirada das forças ocidentais, e a obviamente temida volta ao Afeganistão.
Como disse Wenders ao falar do papel dos filmes, uma daquelas discrepâncias entre pessoas e governos que o cinema tenta preencher. “É minha esperança.”



