SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) – Uma faixa de terra no Estreito do Melão, em Cananéia (SP), deve se romper nos próximos anos devido à erosão acelerada, isolando parte da Ilha do Cardoso e formando uma nova ilha no litoral sul paulista. O Ministério Público cobra providências do estado.

O avanço da erosão pode provocar o rompimento do cordão de areia que separa o mar do estuário e abrir uma nova barra. A mudança tende a afetar manguezais, a biodiversidade local e seis territórios tradicionais caiçaras na região.

Nova ilha não surgirá do mar aberto, mas do isolamento de um trecho já existente da Ilha do Cardoso. A faixa ao sul do Estreito do Melão mede cerca de 6 quilômetros e poderá ficar cercada por água se o rompimento se confirmar. O fenômeno criou um canal de 170 metros de largura e 3 metros de profundidade, isolando moradores por via terrestre.

Faixa de terra no Estreito do Melão encolheu para cerca de 20 metros. A restinga, formação arenosa que funciona como barreira natural entre o oceano e o Canal do Ararapira, tinha aproximadamente 100 metros de largura recentemente, mas perdeu sedimentos de forma contínua.

Um trecho da restinga já se rompeu na região e abriu nova conexão com o oceano. O episódio ocorreu em 2018, na Enseada da Baleia, após forte ressaca, e alterou o fluxo das correntes, contribuindo para acelerar a erosão em pontos ao norte.

O Canal do Ararapira é um estuário que separa São Paulo do Paraná. Ele divide a Ilha do Cardoso (SP) da Ilha do Superagui (PR) e integra o Mosaico Lagamar, uma das regiões ambientalmente mais sensíveis do litoral brasileiro. No local, as águas de rios e do mar se misturam sob influência das marés.

O trecho mais vulnerável fica no chamado Estreito do Melão. É ali que a restinga que separa o oceano do Canal do Ararapira afunilou de forma mais acentuada nos últimos anos, tornando-se o ponto de maior risco de rompimento.

Rompimento nesse ponto é consequência da própria dinâmica do canal. O geólogo Rodolfo José Angulo, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e coordenador do Laboratório de Estudos Costeiros (Lecost), afirma que, “pelas características do local, é inevitável” a abertura de uma nova conexão com o oceano. Angulo monitora a região desde 2000 e previu com precisão o rompimento ocorrido em 2018.

COMO A NOVA ILHA ESTÁ SE FORMANDO

A faixa de areia afina porque a corrente desgasta um dos lados com mais força. No Canal do Ararapira, o fluxo funciona como o de um rio sinuoso: a água solapa a base da restinga, provoca o recuo progressivo da margem e desloca sedimentos ao longo do tempo.

A estimativa científica mais confiável aponta que o rompimento pode ocorrer entre 2032 e 2034. Se isso se confirmar, a nova abertura deverá se formar próxima às comunidades locais, isolando uma porção da atual Ilha do Cardoso.

O QUE MUDA NO MAPA

A abertura de uma nova barra mudará a circulação das águas no Canal do Ararapira. O oceano passará a se conectar diretamente ao canal no Estreito do Melão, isolando a porção sul da atual Ilha do Cardoso e configurando uma nova ilha.

A nova abertura tende a levar ao fechamento gradual da barra atual. Com a redistribuição do fluxo de água, a antiga conexão com o oceano pode perder força e ser assoreada, alterando completamente a navegação na região.

A redistribuição de sedimentos pode tornar trechos hoje profundos mais rasos. Isso tende a alterar rotas usadas por pescadores e impactar manguezais, que dependem do equilíbrio entre água doce e salgada.

A paisagem muda, mas o sistema tende a encontrar um novo equilíbrio. A restinga deixa de funcionar como barreira contínua e o canal passa a operar sob nova configuração hidrodinâmica.

BARREIRA DE PEDRAS PODE AGRAVAR EROSÃO

Diante do avanço da erosão, uma das alternativas discutidas é a instalação de barreiras de pedras. A técnica, conhecida como enrocamento, consiste na colocação de grandes blocos de rocha na margem para reduzir o impacto das ondas e tentar conter o avanço do mar.

Barreira de pedras pode agravar a erosão no Estreito do Melão. Segundo Angulo, estruturas rígidas podem alterar a dinâmica do canal, acelerar o desgaste em áreas vizinhas ou transferir o problema para outros pontos da costa.

A nova abertura deve se formar próxima a comunidades caiçaras. Vila Mendonça e Nova Enseada da Baleia estão entre as áreas mais próximas do Estreito do Melão. Parte dessas famílias já precisou ser realocada após o rompimento de 2018, e um novo isolamento pode alterar rotas de navegação e a dinâmica da pesca na região.

A intervenção deve ocorrer apenas se houver risco direto às moradias. Para o geólogo Rodolfo José Angulo, a prioridade é monitorar a evolução da erosão e adotar medidas pontuais nas margens próximas às comunidades caso o avanço da água ameace residências.

CASO NA JUSTIÇA

A Justiça deu prazo de 45 dias para o governo apresentar providências. A decisão, proferida em fevereiro de 2026, atende a pedido do Ministério Público, que classificou a situação como crítica e cobrou plano de contingência.

Estado diz que já acompanha a erosão com tecnologia e elabora um projeto para a área. Em nota, a Secretaria de Meio Ambiente informou que a Fundação Florestal realiza monitoramento com drones e sensoriamento remoto, além de inspeções periódicas. Um projeto técnico preliminar está em fase final de análise.

Quatro famílias vivem a cerca de um quilômetro do ponto mais sensível da erosão. A comunidade da Vila Mendonça é a mais próxima do Estreito do Melão, segundo o governo. A Secretaria também informou que elabora, junto aos moradores, um plano de adaptação climática que prevê a identificação de novas áreas para ocupação segura no horizonte de 50 a 100 anos.

Governo afirma que a mudança da linha de costa é um fenômeno natural. Segundo a Secretaria, o processo pode ser intensificado por eventos extremos e pela elevação do nível do mar. Em 2025, o Estado realizou enrocamento na Barra do Una, em Peruíbe, como medida de proteção local -solução que, até o momento, não foi confirmada para o Estreito do Melão.