SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) – O manobrista Severino José da Silva não foi indiciado pela polícia pela morte da professora Juliana Faustino, 27, que passou mal após nadar em uma piscina na zona leste da capital paulista.
No entendimento da polícia, ele não cometeu crime. “O manobrista responsável pela limpeza deixou claro que a negligência no tratamento da piscina ‘é coisa corriqueira’ na academia”, afirmou o delegado Alexandre Bento.
DONOS FORAM INDICIADOS
Celso, Cesar e Cezar foram indiciados por homicídio com dolo eventual, conforme apurou o UOL. O dolo eventual ocorre quando o investigado não deseja diretamente o resultado morte, mas assume o risco de produzi-lo ao adotar determinada conduta.
Defesa dos empresários enviou uma petição à Justiça “com esclarecimentos para que o pedido de prisão temporária não prospere”. Em nota, uma representante da academia informou que o documento foi encaminhado pelos advogados do estabelecimento ao juiz de Direito da 2ª Vara do Tribunal do Júri da Comarca de São Paulo.
Apesar do indiciamento, nenhum dos sócios foi preso ainda. A Polícia Civil pediu a prisão deles ao judiciário, responsável por apreciar a solicitação.
Sócios foram pegos de surpresa com o pedido de prisão temporária, segundo seus advogados. Na petição enviada à Justiça, Rafael Serra Oliveira e Julia de Moraes argumentam que a detenção requerida pela Polícia Civil foi baseada na informação “inverídica” de que os empresários não teriam constituído advogado e que não teriam comparecido para prestar depoimento.
Donos da academia compareceram hoje para depor no 42° DP, no Parque São Lucas, zona leste da capital. Os sócios foram intimados pelo delegado do caso, Alexandre Bento, e prestaram seus depoimentos por volta das 17h de ontem, segundo informado pela assessoria da academia.
FUNCIONÁRIO AFIRMOU NÃO TER HABILITAÇÃO DE PISCINEIRO
Severino também afirmou à polícia que não tem formação para manusear produtos químicos e que o dono da academia sabia. Ele revelou que assumiu a função da limpeza da piscina após o antigo manobrista sair da empresa. O antigo funcionário repassou as instruções de que o procedimento consistia em medir os níveis da água e do cloro, fotografar o resultado e enviar a imagem diretamente ao supervisor técnico.
Há um ano, a água da piscina ficou bastante suja, com formação de espuma, relembrou o manobrista. Na época, ele disse que o dono da academia contratou uma empresa externa que trabalhou por aproximadamente uma semana até estabilizar a água. Segundo o funcionário, esse profissional ofereceu seus serviços de manutenção permanente, mas o sócio optou por não contratá-lo.
No último sábado (7), o funcionário contou que preparou de seis a oito medidas de cloro para limpar piscina. Ele detalhou que realizou o teste e enviou a foto para o dono da academia, recebendo como orientação que fossem aplicadas as medidas do cloro. Apesar disso, ele revelou que não chegou a aplicar o produto, apenas preparou a solução.
Balde com água e cloro foi colocado a cerca de dois metros da borda da piscina. Sete alunos ainda nadavam na piscina, quando o homem é visto em câmeras de segurança deixando o recipiente no local.
Procurada mais cedo, a direção da academia afirmou que “segue colaborando integralmente com as autoridades competentes. Em nota, a diretoria divulgou que seus sócios “sempre estiveram à disposição da autoridade policial” e que seguem “contribuindo com todas as etapas da investigação em andamento”. Leia mais do posicionamento abaixo.
A Polícia Civil investiga se a morte da mulher foi causada pela exposição a gases dentro do ambiente da piscina. Câmeras de segurança gravaram o momento em que alunos saem da piscina porque passaram mal.
Juliana morreu na noite de sábado (7). Ela e o marido participavam de uma aula de natação e passaram mal logo depois de entrarem em contato com a água. O casal foi até o Hospital Santa Helena, em Santo André, mas a professora sofreu uma parada cardíaca e não resistiu. A polícia apura se houve intoxicação por algum produto usado para limpar a piscina.
O marido da professora, Vinicius de Oliveira, continua internado. Ele está em estado grave na UTI.
Informações apontam que seis pessoas passaram mal após a aula, incluindo Juliana e o marido. Uma delas é um adolescente de 14 anos que foi internado em estado grave e está respirando com ajuda com aparelhos. Outras duas pessoas receberam atendimento e foram liberadas. O último caso é de uma mulher de 29 anos internada após participar da mesma aula de natação que Juliana.
A academia não tinha alvará para funcionar, segundo a Polícia Civil. A instalação elétrica da piscina estava ligada à cozinha da academia e os produtos para limpeza da piscina também estavam em local inadequado, segundo os investigadores.
O QUE DIZ A ACADEMIA
Em nota enviada ontem, a direção da Academia C4 Gym lamentou “profundamente” o ocorrido após a morte da professora. Também informou que prestou “imediato atendimento a todos os envolvidos” e que tem mantido contato direto com as pessoas envolvidas a fim de oferecer todo o suporte.
“Assim que os alunos relataram odor forte na área da piscina, toda a academia foi evacuada e o SAMU e o Corpo de Bombeiros foram acionados. Devido à demora do SAMU, um dos atendentes da academia solicitou auxílio a uma viatura da GCM, que se dispôs a socorrer Juliana. Os policiais informaram que poderiam levá-la apenas ao hospital mais próximo, na Vila Alpina, mas os acompanhantes optaram por levá-la a uma unidade de seu plano de saúde, em Santo André”, disse a C4 Gym, em nota.
Academia afirmou ainda que possui Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros, está regular junto ao CREF (Conselho Regional de Educação Física) e mantém alvará da Vigilância Sanitária válido desde 2023. “O advogado da academia, inclusive, esteve presente e solicitou acompanhar a vistoria do Corpo de Bombeiros e da Polícia Civil, mas o pedido não foi autorizado”, divulgou na mesma nota.



