MILÃO, ITÁLIA (FOLHAPRESS) – Um capacete político demais para os Jogos de Inverno de Milão-Cortina. A intenção do ucraniano Vladislav Heraskevych, 27, de competir por uma medalha no skeleton com seu capacete contendo imagens de cerca de 20 atletas de seu país mortos na guerra contra a Rússia levou à sua desqualificação nesta quinta (12), antes de entrar na pista.
Depois de dias de conversas e tratativas, o COI (Comitê Olímpico Internacional) decidiu pela exclusão por considerar que o capacete vai contra a proibição de “manifestação ou propaganda política, religiosa ou racial” nos espaços das Olimpíadas.
“Ninguém eu, especialmente discorda da mensagem. A mensagem é poderosa. É uma mensagem de lembrança. É uma mensagem de memória. Não se trata da mensagem em si; trata-se literalmente de regras e regulamentos”, disse a presidente do COI, Kirsty Coventry, ex-nadadora do Zimbábue, após tentar convencer pessoalmente o atleta a competir sem as imagens. “Precisamos garantir um ambiente seguro para todos. E, infelizmente, isso significa que nenhuma manifestação é permitida.”
A proibição de gestos considerados políticos está no parágrafo 2 da regra 50 da Carta Olímpica. Também é mencionada nas “Diretrizes sobre Expressão do Atleta”, publicada em julho para os Jogos de agora.
“O foco nos Jogos Olímpicos deve ser nas performances dos atletas, no esporte e na unidade e harmonia internacional que os Jogos Olímpicos buscam promover”, diz um trecho do documento, que, segundo o COI, é resultado de uma consulta com mais 3.500 atletas.
Antes da decisão, Heraskevych tinha afirmado logo cedo nas redes sociais que “nunca quis criar um escândalo com o COI”. “O COI criou isso com sua interpretação das regras, que muitos veem como discriminatória”, escreveu.
Na mensagem, ele fazia uma proposta ao comitê para encerrar o caso: tirar o veto ao “capacete da memória”, como ele chama o acessório, pedir desculpas pela “pressão” sobre ele nos últimos dias e, “como sinal de solidariedade com o esporte ucraniano”, fornecer geradores elétricos para as instalações esportivas do país que “sofrem com os bombardeios diários”.
Após a decisão do COI, ele postou uma foto sua com o capacete e a frase “esse é o preço da nossa dignidade”.
Em Pequim-2022, Heraskevych já tinha se manifestado contra a guerra em área de competição. Daquele vez, ele mostrou a mensagem “Não à guerra na Ucrânia”, impressa em um pedaço pequeno de papel nas cores da bandeira do país. O COI considerou o gesto como um “apelo geral pela paz” e não o puniu.
Dessa vez, o comitê tentava desde segunda (9) a demover Heraskevych do uso do capacete. A organização ofereceu a ele que, como alternativa, usasse uma braçadeira preta. Em nota, o COI afirmou nesta quinta que permitiu que ele usasse o capacete nos treinos e que, nas tratativas, disse que ele poderia vesti-lo logo após a competição, no espaço chamado de zona mista, reservado ao encontro com jornalistas.
“O luto não é expresso e percebido da mesma forma em todos os lugares do mundo. Para apoiar os atletas em seu luto, o COI disponibilizou centros multirreligiosos nas Vilas Olímpicas e um espaço dedicado ao luto”, diz o comunicado.
O presidente Volodimir Zelenski usou as redes sociais para criticar a decisão. “O esporte não deveria significar amnésia, e o movimento olímpico deveria ajudar a acabar com as guerras, não fazer o jogo dos agressores”, disse. Para ele, o capacete é um “lembrete para o mundo inteiro do que é a agressão russa e do preço da luta pela independência”.
“É a Rússia que viola constantemente os princípios olímpicos, usando o período dos Jogos Olímpicos para travar guerras”, escreveu, listando conflitos desde 2008 envolvendo o país adversário. “Agora, em 2026, apesar dos repetidos apelos por um cessar-fogo durante os Jogos Olímpicos de Inverno, a Rússia demonstra total desrespeito, intensificando os ataques com mísseis e drones contra nossa infraestrutura energética e nosso povo.”
A Rússia é alvo de banimento em Jogos desde 2016, primeiro devido ao uso sistemático de substâncias que levavam ao doping de atletas e, desde 2022, devido à guerra na Ucrânia. Em Milão-Cortina, 13 atletas competem como “neutros”.



