SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) – A Anistia Internacional Brasil demonstrou indignação com a absolvição dos policiais militares do Batalhão de Choque Diego Pereira Leal e Aslan Wagner Ribeiro de Faria, acusados de matar em 2023 o adolescente Thiago Menezes Flausino, de 13 anos.

Para a ONG, houve um “deslocamento de foco” durante o julgamento. Em nota emitida, a organização diz que em vez de se concentrarem nas circunstâncias da morte e na conduta dos acusados questionaram a vida de Thiago -“associando sua imagem à criminalidade como forma de justificar sua execução”.

A organização defende que esta foi uma “inversão grave”: “O réu é quem está sendo julgado e não o menino que foi morto. Questionar a trajetória de Thiago não contribui para a justiça.”

A Anistia Internacional disse que a absolvição representa uma derrota na luta por justiça e reparação. A ONG argumenta que mortes como a de Thiago poderiam ser evitadas com uma política de segurança pública “que colocasse a vida no centro de sua atuação”.

“É urgente interromper a lógica de militarização e a narrativa de ‘guerra às drogas’, além de garantir a responsabilização criminal, administrativa e cível de todos os agentes do Estado envolvidos em operações letais”, disse a Anistia Internacional Brasil.

SENTENÇA FOI DADA NESTA QUINTA-FEIRA

A sentença foi lida pelo juiz Renan de Freitas Ongaratto, do 2º Tribunal do Júri, após a decisão do conselho de sentença. Os militares também foram absolvidos da acusação de tentativa de homicídio contra Marcos Vinícius de Souza Queiroz, que conduzia a moto em que Thiago estava na garupa.

Os agentes respondem ainda pelo crime de fraude processual por terem plantado uma arma na cena do crime, tentando incriminar Thiago e forjar uma troca de tiros. Eles ainda teriam alterado os depoimentos para confirmar que o carro da abordagem não era uma viatura com sirene.

Julgamento durou dois dias. Durante a audiência, foram ouvidos Marcos Vinícius; a mãe de Thiago, Priscilla Menezes; vizinhos e amigos do adolescente; um dos policiais que estava no carro particular utilizado na ação; e o comandante da operação realizada naquele dia na comunidade, entre outras testemunhas.

Em depoimento, Priscila Menezes Gomes de Souza, mãe do adolescente, reiterou que Thiago era um menino “educado, carinhoso, sorridente, feliz”. “Ele não dava trabalho, gostava de ir para a escola, se arrumava sozinho e gostava de jogar futebol”, contou. Como prova, foi exibido com histórico escolar mostrando mais de 91% de frequência, apesar de notas baixas em português e matemática.

A mãe de Thiago demonstrou suspeita em relação às imagens exibidas pela defesa dos policiais e encontradas no celular do jovem. Os advogados apresentaram fotos de armas, de adolescentes encapuzados, com o rosto virado, e imagens supostamente de Thiago. “Ali aparece o rosto dele, mas esse corpo está muito forte para ser o dele”, afirmou Priscila.

Foto com arma e tatuagem desconhecida pela mãe. Em outra imagem apresentada pela defesa, ele aparece uma mão segurando uma arma, com uma tatuagem de coração. Segundo Priscila, Thiago não tinha nenhuma tatuagem no corpo.

A mãe reconheceu o filho apenas em uma foto em que ele aparece com um objeto que aparenta ser uma arma longa, mas demonstrou desconfiança. Ela sugeriu que o item poderia ser, na verdade, um objeto usado para caçar ratos.

RELEMBRE O CASO

O episódio ocorreu no dia 5 de agosto de 2023. Thiago foi atingido na Estrada Miguel Salazar Mendes de Moraes, esquina com a Rua Jeremias, na entrada da comunidade Cidade de Deus, em Jacarepaguá.

A família diz em execução. Segundo o tio de Thiago, Hamilton, o sobrinho estava andando de moto com outro adolescente quando, em uma esquina da Cidade de Deus, foram surpreendidos com tiros da polícia. Thiago teria caído no chão com um tiro na perna e, depois, teria sido executado, alegou o tio na época. A família se baseia em um vídeo da câmera de segurança do estabelecido que fica em frente ao ocorrido.

PM afirmou que policiais foram atacados. Os autores dos disparos são do Batalhão da Polícia de Choque e “realizavam policiamento”. “Após confronto, um adolescente foi encontrado atingido e não resistiu aos ferimentos. Uma pistola foi apreendida no local”, diz a nota da PMERJ.

Uma tia do adolescente negou que ele estivesse armado. “Ele não estava armado, não era traficante. Nossos familiares estão muito abalados com o fato de estarem acusando uma criança de 13 anos de ser envolvido com o tráfico. A gente infelizmente entra para estatística”, declarou em outra entrevista a TVs que acompanham o caso.

Os agentes teriam alterado a cena do crime. Segundo a investigação, os militares colocaram uma pistola Glock e munição ao lado do menino de 13 anos após matá-lo, com o intuito de simular um confronto armado.

Policiais teriam usado carro particular, com insulfilm, para uma operação ilegal. De acordo com o Ministério Público, no dia do assassinato, os PMs “efetuaram, conjuntamente, diversos disparos de arma de fogo contra Thiago e um homem que o acompanhava”.

Crime foi por motivo torpe. A denúncia diz que a conduta dos policiais também dificultou a defesa das vítimas, que estavam em uma moto e foram surpreendidas com os disparos. Os agentes teriam usado fuzis, armas de alta energia e de uso restrito.