PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) – A mãe do jovem de 15 anos apontado pela Polícia Civil de Santa Catarina como suspeito de agredir o cão Orelha na Praia Brava, em Florianópolis (SC), relata que a família vive em reclusão devido a ameaças nas redes sociais desde que o caso ganhou repercussão nacional

Antes de ser remetido à Justiça, o caso deve ter diligências adicionais a pedido do Ministério Público de Santa Catarina, que apontou lacunas na investigação. A família afirma que o jovem é inocente e não tem envolvimento com o caso.

“A gente está tendo que se defender até do inimaginável, porque não tem nada que leve o meu filho a essa situação, não tem nada que o coloque no momento, tampouco como testemunha”, disse a mãe à Folha de S.Paulo em entrevista por videochamada.

A polícia pediu a internação do adolescente, medida questionada por especialistas.

O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) proíbe a identificação de menores de 18 anos envolvidos em atos infracionais. Por isso, a reportagem não pode dar o nome da mulher, para que seu filho não seja identificado.

O adolescente, que deveria começar o primeiro ano do ensino médio nesta segunda-feira (9), não sai de casa e passa o dia na companhia da irmã e da mãe, que diz só deixar o condomínio para se reunir com os advogados.

“Eu não consigo mais trabalhar. A nossa filha, que fazia medicina em outro estado, não voltou para a faculdade e não quer mais ir embora [de casa]”, disse. “Minha mãe acabou de operar o coração, não tem nem noção do que está acontecendo. A gente está preservando muito ela.”

Orelha foi encontrado ferido na tarde de 4 de janeiro e levado a atendimento veterinário, mas acabou morrendo no dia seguinte. De acordo com o laudo veterinário, ele morreu devido à gravidade dos ferimentos, que teriam sido causados por um golpe na cabeça feito com objeto contundente.

O caso viralizou na metade do mês, quando a morte começou a repercutir nas redes sociais junto com imagens e áudios que sugeriam uma suspeita da participação de um grupo de adolescentes na agressão do cão.

Desde então, o caso gerou pedidos de justiça, federalização das investigações e atraiu protestos em diferentes cidades do país.

Após quase três semanas de investigação, a polícia anunciou o indiciamento de apenas um dos quatro suspeitos no caso, apontando supostas contradições em depoimentos e comportamentos do jovem e de familiares.

Uma das evidências apresentadas no inquérito final foi a suposta tentativa da mãe do suspeito de ocultar um boné rosa que levou para o filho no aeroporto quando ele retornava de uma viagem de formatura para a Disney. O mesmo boné teria sido usado por ele na madrugada de 4 de janeiro, como mostrado nas imagens de câmeras de segurança.

A mãe do adolescente diz ter sido pega de surpresa com a afirmação. Ela afirma que levou a peça para proteção da identidade do filho para usar quando ele desembarcou em Florianópolis e foi até uma sala no aeroporto Hercílio Luz para prestar depoimento.

Ali, teria pedido para ele tirar o boné em respeito aos policiais. “Minha bolsa era uma bolsa estruturada, daquelas bolsas duras. Eu só apoiei o boné em cima, não coloquei ele dentro. E ali ficou.”

O adolescente estava em uma viagem de formatura do ensino fundamental na companhia de outro jovem também considerado suspeito, mas que não foi indiciado.

A polícia também disse que ela tentou ocultar a origem de um moletom preto, o mesmo que ele usava nas filmagens, dizendo que a peça tinha sido recém-comprada nos Estados Unidos.

A mãe do adolescente rebate que houve uma confusão quando os agentes faziam pilhas das roupas que seriam recolhidas ou não nas malas. Ela e o filho teriam explicado à polícia que o jovem estaria usando um moletom novo quando chegou de viagem e o outro, que aparece no vídeo, estava dentro da mala.

“Eu não poderia esconder provas, uma vez que eu nem sabia o que eles estavam buscando. Em momento algum eles anunciaram ‘estamos buscando isso, isso ou isso’ como item.”

Na ocasião, os celulares foram recolhidos e as senhas fornecidas. A polícia não apontou, em entrevista coletiva, a existência de conversas comprometedoras.

A polícia disse que vai cumprir todos os pedidos adicionais feitos pelo Ministério Público, dentre eles a exumação do corpo do cão Orelha. O laudo que baseou o inquérito foi feito a partir do atendimento realizado pelo veterinário que o atendeu.

A mãe do jovem diz aguardar que as investigações apontem a inocência do filho e da família, mas afirma que eles já sofrem com a exposição de dados e fotografias nas redes sociais, além de ameaças.

Também nega que a família seja bem relacionada e influencie a investigação, argumento usado por críticos da condução do processo. “Não basta expor a imagem do meu marido dizendo que ele coagiu o porteiro, não basta dizer que o meu filho é agressor, agora eu estou escondendo provas. É um triângulo perfeito, a família tá articulando tudo. Gente, [esconder prova] na cara dos policiais?”, afirma.

A mulher diz acreditar que a repercussão do caso nas redes sociais e a propagação de notícias falsas e situações atribuídas à família causou um dano que pode durar muito tempo

Recentemente, a família negou uma notícia de que o jovem seria mandado para a Austrália, e diz considerar, no futuro, abrir ações judiciais por difamação ou calúnia.

“É assustador, é triste, é preocupante, porque são colocados falas e atitudes em você, e que você nem tá ciente. Quando vê, está lá”, afirma ela. “É uma sucessão de situações. Até onde o limite disso tudo? O que mais vem pela frente? O que mais eles vão querer?”.